terça-feira, 6 de agosto de 2013

Há Falsificações no Novo Testamento?
Dos 27 livros do Novo Testamento, apenas oito certamente remontam ao autor cujo nome carregam: as sete epístolas consensuais de Paulo (Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Filipenses, l Tessalonicenses e Filemon) e o Apocalipse de João (embora não tenhamos certeza de quem é esse João).

Os outros 19 livros se encaixam em três grupos.

Textos erroneamente atribuídos. Como já vimos, os Evangelhos provavelmente são equivocadamente atribuídos. O discípulo João não escreveu João, e Mateus não escreveu Mateus. Outros livros anônimos foram equivocadamente atribuídos a alguém famoso. O livro dos Hebreus não identifica Paulo como seu autor, e quase certamente não foi escrito por Paulo. [1] Mas acabou sendo aceito no cânone da Igreja (Ver capítulo 7), porque os Pais da Igreja chegaram à conclusão de que havia sido escrita por Paulo.

Textos homônimos. A palavra “homonímia” significa “ter o mesmo nome”. Um “texto homônimo” é aquele escrito por uma pessoa que tem o mesmo nome de alguém famoso. O livro de Tiago, por exemplo, sem dúvida foi escrito por alguém chamado Tiago, mas o autor não alega ser um Tiago específico. Era um nome extremamente comum. Líderes da Igreja posteriores aceitaram o livro como parte das Escrituras alegando que esse Tiago era Tiago, irmão de Jesus. O livro propriamente dito não traz essa alegação.

Escritos pseudepígrafos. Alguns livros do Novo Testamento foram escritos em nome de pessoas que na verdade não os escreveram. Os estudiosos sabem disso há mais de um século. A palavra que nomeia esse fenômeno é “pseudepigrafia”, literalmente “livro cuja autoria é falsa”. Os estudiosos não são inteiramente precisos no uso desse termo, e tendem a empregá-lo por não ter a conotação pejorativa associada à palavra “fraude”. Mas, qualquer que seja o termo escolhido, os estudiosos da Bíblia há muito argumentam que há livros do Novo Testamento cujos autores intencionalmente alegaram ser alguém que não eles mesmos.


______________
Notas

[1] Ver discussão nas pp. 151-52.

Fonte: Quem Jesus Foi e Quem Jesus Não Foi?, de Bart. D. Ehrman, pp. 129-130.


Outros artigos que podem lhe interessar:

Cf. Cristologia Primitiva e a Ressurreição de Jesus
Cf. O Problema Textual do Novo Testamento
Cf. A Harmonia da Bíblia Prova da Inspiração?
Cf. Antiga Bíblia Descoberta na Turquia
Cf. Teólogos Liberais ou Conservadores?


SOBRE O AUTOR:

Bart D. Ehrman estabeleceu sua vida na cidade de Chapel Hill nos Estados Unidos onde é professor e chefia o departamento religioso da Universidade da Carolina do Norte. Era evangélico mas posteriormente tornou-se agnóstico. É um grande estudioso americano sobre o Novo Testamento da bíblia. É presença constante em programas de televisão e rádio por ser uma das sumidades nos estudos sobre o Cristianismo e a vida de Jesus. É super considerado pelas redes NBC, CNN e History Channel.

Ehrman cresceu em Lawrence, Kansas. Ele começou estudando a Bíblia em suas línguas originais em Moody Bible Institute e em 1978 se formou na Wheaton College em Illinois. Recebeu seu doutorado e mestrado da Princeton Theological Seminary, onde estudo debaixo dos cuidados de Bruce Metzger, um dos maiores especialistas do Novo Testamento. Recebeu sua magna cum laude por tanto seu bacharelado em 1978 e seu doutorado em 1985.

7 comentários:

  1. Olá, Eduardo, venho lendo seu blog há pouco tempo, mas parabéns pelos debates que vem promovendo.

    Quanto a falsificações no NT, há pelo menos três casos que levantam suspeitas:



    1 – Mateus 28:. A história dos guardas que aceitam dinheiro para dizer que o corpo de Jesus foi roubado durante a noite parece ter sido adicionada posteriormente. A própria explicação é estranha, pois os guardas aceitam dizer que eles dormiam enquanto o corpo foi roubando pelos discípulos. Se eles dormiam, como poderiam saber quem foi o autor do roubo?



    Começa com “Ora, enquanto eles iam...”, parecendo um esforço de dar veracidade à história paralela:

    11 Ora, enquanto elas iam, eis que alguns da guarda foram à cidade, e contaram aos principais sacerdotes tudo quanto havia acontecido.

    12 E congregados eles com os anciãos e tendo consultado entre si, deram muito dinheiro aos soldados,

    13 e ordenaram-lhes que dissessem: Vieram de noite os seus discípulos e, estando nós dormindo, furtaram-no.

    14 E, se isto chegar aos ouvidos do governador, nós o persuadiremos, e vos livraremos de cuidado.

    15 Então eles, tendo recebido o dinheiro, fizeram como foram instruídos. E essa história tem-se divulgado entre os judeus até o dia de hoje.



    Se estes versículos forem eliminados, a junção de Mateus 11:10 com Mateus 11:16 faz todo o sentido:

    10 Então lhes disse Jesus: Não temais; ide dizer a meus irmãos que vão para a Galiléia; ali me verão.

    16 Partiram, pois, os onze discípulos para a Galiléia, para o monte onde Jesus lhes designara.



    2 – O capítulo 16, de Marcos, que supostamente terminaria no versículo 8. Os versículos a partir do 9 foram acrescentados para que o evangelho não finalizasse com a cena das mulheres fugindo assombradas, sem contar nada a ninguém. É tão notório que até o habitual apologista e harmonizador de contradições bíblicas Norman Geisler o admite, ressaltando porém que “Se essa parte do texto pertence ou não ao original, a verdade que ele contém certamente está de acordo com o original”. Grande parte dos manuscritos antigos omitem estes versículos finais.



    3 – João 8:11-15, o famoso episódio da adúltera, conforme Bart D. Ehrman mesmo já afirmou. O versículo 13 se inicia com “Então Jesus tornou a falar-lhes”, como se fosse uma continuação do capítulo 7, e não do episódio da adúltera. Várias bíblias antigas não relatam esta cena

    Felicidades!

    Josué, SP.

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    1. Olá José, obg pela visita e pela contribuição ao blog. Sobre a guarda no túmulo, publiquei um artigo só sobre isso, O Mito da Guarda do Túmulo.

      Os outros pontos mencionados são bem conhecidos já e pretendo escrever sobre eles posteriormente. Mais uma vez obrigado pela visita e participação.

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  2. Olá Eduardo, tudo bem? Sou o Carlos, tinha comentado algumas coisas anteriormente. Gostaria de te perguntar sobre um verso do livro de Mateus. É sobre Mateus 28:19. Gostaria de saber sua opinião sobre esse verso e saber se você considera esse verso uma adição ao original bíblico. Também gostaria de perguntar sobre qual a opinião dos críticos e estudiosos da Bíblia sobre Mateus 28:19. Obrigado, um abraço.

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    1. Olá Carlos,

      A resposta seria extensa, o que renderia um artigo. Assim como fiz das outras vezes, escreverei sobre o assunto posteriormente. Ando ocupado com algumas traduções atualmente, mas assim que possível postarei algo sobre isso e os outros artigos que tenho escrito para o blog.

      Obg pela participação.


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  3. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

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  4. Excelente artigo. Veja em meu blog "Analisando as escrituras" que mostrei todos esses acréscimos e muitos outros do NT. Abraços

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  5. Afirmar que João escreveu o Apocalipse, mas não o Evangelho, é algo no mínimo exótico, pois há uma fina unidade doutrinal e estilística entre os escritos, o que nos levaria a crer que (1) João inspirou-se no Evangelho falsamente atribuído a si, ou (2) que o Apocalipse foi escrito antes do Evangelho - coisas que nenhum teólogo liberal estararia disposto a aceitar, pelo que me consta.

    O Prof. Fábio Sabino (que tem site e vlog no Youtube) defende que o Apocalipse não foi escrito por João, e flerta com a hipótese de que Paulo nem existiu - tendo suas cartas sido forjadas, com base nos ensinos dos Pais da Igreja e de Apolônio de Tiana.

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