sábado, 22 de junho de 2013

Refutando Siegfried J. Schwantes (Part. 1)
por Eduardo Galvão

Alguns meses atrás, recebi um pedido de um leitor para contra-argumentar dois textos de Siegfried J. Schwantes que podem ser lidos na íntegra nos dois links abaixo:

Cf. Introdução ao Livro de Daniel Parte 1
Cf. Introdução ao Livro de Daniel Parte 2

Ainda pretendo escrever um artigo datando o livro de Daniel. Nessa postagem, no entanto, irei buscar apenas refutar o artigo sugerido. Siegfried J. Schwantes em sua defesa da autenticidade das profecias de Daniel e de que o livro foi escrito no século VI a.C, começa dizendo:

“Os principais argumentos para uma data no segundo século a.C. são os seguintes:

A descrição detalhada das guerras entre os Ptolomeus e os Selêucidas, que se encontra no cap. 11, explica-se melhor como uma pseudo-profecia, ou uma profecia post-eventum. De acordo com os críticos, a descrição corresponde bem com os fatos até 164 a.C., mas quando a tentativa é feita os acontecimentos subsequentes na carreira de Antíoco Epifânio a correspondência entre os acontecimentos e a predição começa a falhar.”

R.: Siegfried diz que “quando a tentativa é feita os acontecimentos subsequentes na carreira de Antíoco Epifânio a correspondência entre os acontecimentos e a predição começa a falhar”, e, no entanto, não mencionou um único argumento para provar onde essa interpretação crítica começou a falhar.

“O argumento se apoia na pressuposição de que não há verdadeira profecia, ou pelo menos profecia de longo alcance, como as que se acham no livro de Daniel.”

R.: Mentira. Os críticos não partem de qualquer pressuposto de que é impossível existir profecia verdadeira. Eu não acho, de forma alguma, uma improbabilidade que alguém, através de algum meio atualmente desconhecido, seja capaz de fazer uma profecia autêntica, genuína. As profecias de Daniel não são autênticas por outros motivos e não devido à pressupostos preconceituosos. Na verdade, quem parte de pressupostos arraigados são os fundamentalistas cristãos que analisam tudo partido da ideia absoluta de que a Bíblia é, irredutivelmente, a Palavra inspirada de Deus.

Quais são os motivos que levam os religiosos a aceitar as profecias de Daniel? Serão motivos racionais, pesquisa, será o texto em si? Siegfried mesmo responde que “para aqueles que creem na revelação divina e que os profetas foram habilitados por DEUS para prever o futuro, o argumento não é convincente. Se para DEUS o futuro é como um livro aberto não há razão para crer que Ele não tenha comunicado a Seus profetas tanta informação do futuro quanto em Sua sabedoria Ele tenha considerado próprio revelar.” Em outras palavras, o argumento magnus para os cristãos é apenas a fé, a crença pré-estabelecida que Deus inspirou a Bíblia.

“A descrição detalhada que se encontra no cap.11 dos acontecimentos político-militares dos séculos que precederam a era cristã enquadra-se num propósito religioso. Sua intenção era preparar a comunidade judaica para fazer frente a uma grave ameaça à sua própria existência.”

R.: Se as profecias sobre os problemas sócio-políticos dos judeus foram, de fato, um meio de alertar os judeus do que eles iriam passar no século II a.C, como argumentado pelo estudioso, isso significa que os judeus tiveram quase quatro séculos de antecedência sobre um perigo que haveria de vir. Se isso é verdade, por que mesmo assim os judeus caíram nesses mesmos problemas profetizados, como podemos ver nos livros de Macabeus? Como uma nação recebe um alerta com cerca de quatrocentos anos de antecedência e mesmo assim não dá em nada? Simples, essa descrição do capítulo 11 de Daniel foi escrita em forma de profecia, mas essas coisas já estavam acontecendo nos dias do escritor, ele relatou algo dos seus dias como se fosse uma profecia que explicava, teologicamente, o porquê de os judeus estarem sofrendo nas mãos de outra nação.

“Uma predição tão detalhada estimularia a fé em DEUS como o Senhor da História, e como Aquele que não falharia a Seu povo num período crítico de sua existência como nação.”

R.: Então esse propósito não funcionou, pois no século II a.C a nação estava quase por completo apostatada. Se a profecia foi supostamente escrita no século VI a.C para fomentar a fé dos judeus no século II, infelizmente alguma coisa deixou de se cumprir, ou o fortalecimento da fé dos judeus ou a profecia em si. A única razão lógica para os judeus estarem naquela situação espiritual e social, apesar da profecia, é se a profecia, na verdade, fosse apenas um relato de algo que eles já estava vivendo.

“Inexatidões Históricas - Os críticos alegam várias inexatidões históricas como argumento contra uma data no sexto século para o livro de Daniel. Um autor do sexto século estaria melhor informado quanto aos fatos históricos que lhe eram contemporâneos, argumentam os críticos.”

R.: Nem sempre os argumentos são esses usados pelos críticos, até porque esse é um termo muito generalizado. O escritor desse livro não foi exatamente Daniel, essa figura quase mitológica judaica. O livro de Daniel é um retalho literário de vários escritores e editores que foram juntando suas partes até formar o livro que temos hoje. Não é alguém do século VI a.C que fala dos problemas morais e espirituais do séc. II a.C, antes, é alguém do século II a.C que fala de seu próprio tempo em linguagem profética. O fato de o livro está em conformidade com algumas coisas do sexto século não quer dizer, necessariamente, que o escritor pertença a este século, tanto quanto o fato de um cronista ou historiador que começa a falar de séculos passados não quer dizer, ipso facto, que este pertence aos séculos dos quais escreve.

Infelizmente, alguns críticos são apressados e anti-cristãos no pleno sentido da palavra e se adiantam em seus argumentos. O livro de Daniel tem muita coisa histórica, coisas que só vieram à luz posteriormente pela arqueologia, mas isso, em si, nem prova as profecias, nem prova a autoria, só prova que, quem deveras escreveu o mesmo, ou tinha um bom conhecimento histórico – conhecer o passado é fácil, difícil é acertar o futuro – ou escreveu tendo como base literária trechos de outros livros de outros editores que viveram durante o cativeiro no séc. VI a.C.

“Em vez de exagerar as assim chamadas "inexatidões históricas" do livro, os críticos deveriam responder à pergunta de como um autor do segundo século poderia ter sabido da existência de Belsazar como regente em Babilônia no momento de sua queda, quando os historiadores gregos que ele poderia ter consultado ignoravam totalmente o fato.”

R.: Simples. Se nós que vive no século 21 d.C sabemos da existência de Belsazar como regente em Babilônia, por que seria surpreendente alguém que viveu muito mais próprio cronologicamente desse tempo no que a gente, ou seja, século 2 a.C, soubesse disso? Só porque “os historiadores gregos que ele poderia ter consultado ignoravam totalmente o fato”? Quem hoje diria, mesmo de longe, que temos ao nosso dispor todos os textos e crônicas de todos os historiadores gregos que viveram na época? Não vejo onde seria impossível que um escritor do século 2 a.C tenha tido informação de uma fonte disponível no seu tempo, mas que desconhecemos hoje em dia.

“Igualmente enigmático para os críticos é o problema de como um escritor do segundo século a.C. podia ter sabido que Nabucodonozor merece o crédito principal para a construção de Babilônia em sua última fase (Daniel 4:30). Comentando o fato, E. B. Pfeiffer escreveu: “provavelmente nunca saberemos como nosso autor descobriu que a nova Babilônia foi obra de Nabucodonosor”, como os escavadores o provaram.”

R.: Todo fundamentalista cristão gosta da palavra “mistério”, “enigma” quando se refere aos dogmas e textos sacros. Não é enigma para crítico algum. Nenhum crítico afirma que o livro de Daniel seja a obra de uma única pena. Como mencionei acima, alguns trechos do livro podem ter sido escritos por alguém do sexto século, informações sobre os regentes da época e essas informações podem ter sido editadas ao longo do tempo, com a descrição dos problemas sócio-religiosos do segundo século em linguagem profética. Muitos apologistas cristãos admitem que ocorreram inúmeras edições do texto bíblico originalmente. (GEISLER, 2002)

No próximo artigo irei analisar e buscar refutar o segundo bloco de argumentos contra a datação de Daniel no século VI a.C.

Leia a continuação: Refutando Siegfried J. Schwantes (Part. 2)

7 comentários:

  1. Ola Eduardo, tudo bem? Sou o Carlos. Eu tinha enviado para você os links sobre o livro de Daniel. Agradeço por sua resposta, assim como outras questões que você me respondeu.

    Não querendo lhe incomodar, quando você tiver um tempo, você poderia comentar sobre os seguintes links?

    http://www.slideshare.net/diegao45/o-livro-de-daniel-em-julgamento


    http://www.slideshare.net/diegao45/a-historicidade-confivel-do-livro-de-daniel

    Esses links acima são links que querem mostrar que o livro de Daniel foi escrito no século VI a.C.

    O link abaixo é uma análise crítica sobre o livro de Daniel.

    Edição e Heresia: O Livro de Daniel

    http://www.sapientia.pucsp.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=2282

    Muito Obrigado.

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    1. Olá Carlos. Não me é incomodo algum, sou, na verdade, grato pelo enriquecimento do blog. Eu ainda vou escrever outros artigos sobre o livro de Daniel.

      No link O Livro de Daniel em Julgamento não teria muito o que dizer, pois esse artigo foi plagiado de um livro das Testemunhas de Jeová, chamado Preste Atenção às Profecias de Daniel. Como você deve saber, fui mais de uma década diácono dessa religião, e como é de conhecimento geral, inclusive entre os evangélicos, as TJs fazem citações descaradamente distorcida de vários livros, eruditos, enciclopédias, etc. Eu li esse livro inúmeras vezes, conduzi inúmeras palestras sobre o mesmo e posso falar como conhecimento de causa, esse livro das TJs não é confiável.

      Perceba no artigo que eles citam The Encyclopedia Americana, The New Encyclopædia Britannica e tanto outros mas não mencionam página, volume, nada disso. No entanto, deixando de lado os 90% das informações indignas de confiança e as distorções, os motivos pelos quais as Testemunhas de Jeová acreditam na autenticidade e historicidade do livro de Daniel é quase o mesmo dos evangélicos. Primeiro, eles partem do pressuposto de que a Bíblia é inegavelmente inspirada por Deus. Segundo, o livro contém fatos históricos que foram comprovados pela arqueologia recente. Apesar disso, refutei no artigo acima de que isso não prova uma autoria de alguém do século VI a.C., tanto quanto eu hoje escrever um romance histórico sobre Helena de Troia não prova que eu sou daquela época.

      O link A Historicidade Confiável do Livro de Daniel indagou umas coisas que irei responder posteriormente.

      Obg pela colaboração.

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    2. Olá Eduardo, obrigado. Achei muito parecido os argumentos do link O Livro de Daniel em Julgamento com o livro Estudos Sobre Daniel, o volume 2 da série Santuário e Profecias Apocalípticas da IASD. Esse livro apresenta muitas referências, as fontes utilizadas.

      Uma questão é o hebraico do livro de Daniel do capítulo 8 ao 12. No livro é afirmado que o hebraico desses capítulos é mais antigo em comparação ao hebraico do livro Eclesiástico que é do século II a.C. Logo, com isso é afirmado que o livro de Daniel é mais antigo. E se ele for mais antigo, seria uma profecia. Espero o seu próximo artigo. Obrigado.

      Carlos.

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    3. Sobre esse último argumento que você mencionou a resposta está aqui: Refutando Siegfried J. Schwantes (Part. 2)

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  2. Olá Eduardo, tudo bem? Obrigado. Vou analisar os artigos que você escreveu.

    Até mais.

    Carlos.

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  3. Olá, Eduardo. Sou cristão e estudo profecias. Daniel, realmente não está falando do Antíoco Epifânio. Daniel, há 2600 anos atrás, mostra os reinados mundiais de Babilônia até Roma. Fala do poder que surgiria de Roma e que mudaria a Lei de Deus (10 mandamentos - Veja que o Catecismo Romano possui mandamentos diferentes), perseguiria as pessoas e agiria por certo período. O período mencionado como 1260 dias proféticos, ou seja, 1260 dias, é cumprido pela História através do decreto de Justiniano no ano 538 d.c. que dava autoridade máxima a Igreja Romana para perseguição de "hereges" e termina, definitivamente, com a prisão do Papa Pio VI, pelo general Bertier a pedido de Napoleão Bonaparte, em 1798. 1260 anos que já haviam sido profetizados da atuação de perseguição e mudança na lei de Deus, pelo poder que surgiria do Reino que sucederia a Grécia, historicamente Roma. É dito que esse poder pisaria no santuário, mas que esse santuário seria restaurado e purificado. Você provavelmente sabe que cada parte do santuário terrestre representava Cristo e mostrava algumas verdades relativas a salvação:

    altar de holocausto: sacrifício de Cristo;
    bacia de água: representava a purificação, antes de entrarem para o templo (batismo);
    pães asmos (sem fermento): corpo de Cristo sem pecado (o fermento simboliza o pecado, por essa razão era pão sem fermento);
    o incensário representava as orações;
    a arca com os mandamentos, a lei de amor a Deus e ao próximo.

    (O santuário terrestre era sombra do celestial: leia Hebreus)

    As verdades do santuário seriam pisadas pelo poder que surge de Roma, de acordo com Daniel 8:9 ao 14. Mas o santuário seria restaurado e purificado (significado da palavra no original). Vemos que o protestantismo recuperou e restaurou as verdades do santuário desde Lutero e termina, surpreendentemente no século XIX, que é datado como "tempo do fim" - que seria após o poder que nasce de Roma (que terminou no final do século XVIII).

    Lutero resgata a intercessão de Cristo, já que a Igreja Romana havia colocado santos e Maria como intercessores. Cristo perdeu o papel de mediador. Não havia mais remissão de pecados por arrependimento, mas por obras meritórias. O primeiro lugar do santuário foi profanado, mas restaurado por Lutero.

    O segundo, referente ao batismo do arrependimento, perdeu sentido quando começaram a batizar bebes! Ora, bebe não se arrepende! Esse lugar do santuário foi restaurado pelos batistas...

    E assim sucessivamente, até ser restaurado todos os 10 mandamentos, incluindo o sábado, pelos adventistas no século XIX.

    A profecia cumpriu-se com exatidão histórica. Tanto o período de restauração do santuário como as profecias referentes ao poder que surgiria do quarto reino(Roma), reino posterior a Grécia. Todas as características de Daniel 2, 7, 8, 12 e Apocalipse 17 e 18, referentes a Roma papal, se encaixam perfeitamente na história.

    Um abraço!

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    Respostas
    1. Olá amado, seja muito bem vindo ao blog.

      Você disse: "Daniel, realmente não está falando do Antíoco Epifânio."

      Primeira coisa que gostaria de mencionar é a dificuldade que as pessoas têm de distinguir entre AFIRMAÇÃO e ARGUMENTAÇÃO. O que você comentou foi apenas e somente uma AFIRMAÇÃO e depois deu uma interpretação sua sobre o significado das palavras de "Daniel". Existem centenas de interpretações sobre Daniel que dão a impressão de ser uma profecia, mas elas são só isso mesmo, interpretações.

      Eu argui muita coisa no meu texto provando o livro de Daniel NÃO É AUTÊNTICO, você teria que mostrar que estou errado me contra-argumentando, algo que você não fez, simplesmente disse que estou errado, mas não argumentou nada, apenas ofereceu uma interpretação, só isso.

      Abraço!

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