terça-feira, 25 de junho de 2013

O Problema Sinótico

por Eduardo Galvão

SINÓTICO, PROBLEMA, EVANGELHOS, INSPIRAÇÃO
Qual sua concepção da palavra “inspiração”? O que lhe vem à mente quando ouve que a Bíblia – o que inclui os Evangelhos – é inspirada por Deus? É verdade que não existe hoje uma resposta canonizada para essas e outras perguntas, inclusive dentro da próprio Igreja Cristã.

§1. Introdução


Comentei no artigo O Problema da Diversidade Cristã que o Cristianismo em si tem como marca a pluralidade doutrinária. Em outras palavras, o Cristianismo está longe de ser uma unidade doutrinária e filosófica, antes, é um caldeirão de interpretações bíblicas. Já no artigo Teorias da Inspiração Bíblica mencionei que não existe nem mesmo um consenso sobre o que significa dizer que a Bíblia é “inspirada por Deus”, sendo proposta N teorias sobre o assunto.

No presente estudo, irei abordar algo que é outro problema para a inspiração da Bíblia, o chamado Problema Sinótico. Mas, o que é, exatamente, o Problema Sinótico?

A palavra “sinótico” vem da palavra grega συνοψις (synoptikos) que significa literalmente “visto pelo mesmo ângulo”. “Eles são semelhantes em linhas gerais, no conteúdo, na ordem e na redação. O mais impressionante são os acordos verbais, que são quase na totalidade em algumas passagens.” (ACHTEMEIER, 1996, p. 1009). Dessa forma, uma vez que Mateus, Marcos e Lucas possuem uma infinidade de semelhanças textuais, mostrando as narrativas da vida de Jesus Cristo pelo “mesmo ângulo” literário, eles são chamados de Evangelhos Sinóticos.

§2. Análise do Problema Sinótico


No entanto, essas semelhanças resultam em um problema gigantesco para os teólogos e fundamentalistas cristãos, no que diz respeito à inspiração da Bíblia. Se Mateus e Lucas copiaram de Marcos e se Marcos copiou de uma fonte ainda mais antiga, conhecida por Q, isso afetaria grandemente o conceito do que se tem sobre a inspiração divina do Novo Testamento. Para ilustrar:

Um professor pede para seus alunos escreverem uma redação sobre determinado acontecimento que eles testemunharam. Destes, três escrevem apresentando uma redação em que 75% é literalmente igual entre si. Será que o professor acreditaria se estes dissessem que Deus os inspirou para escrever o relato de forma tão idêntica? Lógico que não! Sou professor e também sou aluno e a coisa que mais digo e ouço é: Respostas iguais, notas iguais, zero! Não existe prova mais clara de cola na escola do que trabalhos copiados da internet; basta digitar uma frase no Google e logo achamos de onde o aluno copiou o trabalho.

O fato de Mateus, Marcos e Lucas seres tão idênticos, literariamente falando, prova que eles copiaram um do outro, ou até mesmo de outras fontes existentes da época, apenas acrescentando outras informações com base em seu foco teológico. É isso que chamamos de Problema Sinótico.

Vamos observar abaixo alguns exemplos. As palavras em vermelho são os trechos copiados de forma idêntica nos três evangelhos sinóticos, as de cor cinza e em itálico é acréscimo lendário ao relato, o texto em azul é uma cópia apenas da ideia, a mesma ideia com outras palavras, sinônimos, o beje é a mesma ideia com a fraseologia mudada. Para ajudar na compreensão, sugiro que leiam primeiro as palavras em vermelho, comparando em cada um dos textos, depois leiam as em azul, fazendo o mesmo, depois as em beje e por último as em cinza.


Como observado acima nas três colunas, vemos claramente uma cópia palavra por palavra de muitos trechos, acréscimos lendários na ampliação do conto, bem como a troca de algumas palavras por sinônimos, o que é típico de cópia.

§3. Argumento Cristão para o Problema Sinótico


Como os religiosos cristãos tratam e buscam resolver esse problema? Ao invés de buscarem um método científico, eles apelam para o sobrenatural.  O ultra-conservador cristão William Macdonald (2008, p. 6, 7) propõe:

Uma solução melhor para essa questão se encontra nas palavras de Jesus em João 14:26: “mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito.”

Isso explica as reminiscências das testemunhas oculares de Mateus e João, e provavelmente também inclui Marcos, pelo fato de que ele menciona as lembranças de Pedro, como atesta a história da Igreja. O problema sinótico é resolvido somando-se a essa ajuda direta do Espírito Santo os documentos escritos mencionados em Lucas 1:1, a excelente, precisa e verbal tradição oral das pessoas semítica. Quaisquer verdades necessárias, detalhes ou interpretações além dessas fontes podem ter sido relevados diretamente “...em palavras [...] ensinadas pelo Espírito.” (1 Co 2:13)

Observou qual a forma de se resolver esse problema?

1. Aceitar o Espírito Santo como interpretador dos textos sacros.
2. Textos pré-existentes da época.
3. Tradição oral semítica.

Vamos observar a problemática de cada uma dessas soluções propostas.

§3.a Espírito Santo como Interprete.


Costumo dizer aos meus alunos que toda vez que eles estão fazendo prova, os mesmos são tomados por um espírito religioso, pois todos repetem expressões tais como: “Meu Deus!”, “Jesus!”, “Ai minha nossa senhora!”. É engraçado como instintivamente buscamos, mesmo que por mera mania linguística, um contato com o sobrenatural para compreendermos determinada coisa.

Lógico que isso tudo é muito engraçado, no mínimo. No entanto, é exatamente isso que propõem os defensores do Cristianismo. O primeiro passo para se aceitar a inspiração dos Evangelhos e resolver o Problema Sinótico é buscar a ajuda do Espírito Santo. Nem preciso dizer que isso, além de supersticioso, é completamente anticientífico.

§3.b Textos Pré-Estabelecidos


Acredito que isso cria um problema maior ainda para a inspiração bíblica. Se os Evangelhos tiveram como base fragmentos literários anteriores a eles mesmos, não posso dizer que Deus inspirou diretamente Lucas a escrever o seu. Em Lucas 1:1 somos informados que seu trabalho literário é baseado em pesquisa histórica e literária, junto com tradição oral. (Cf. Comentário Crítico de Lucas 1:1) Nem de longe atribui sua escrita ao divino.

Se os três evangelistas basearam seus textos em outros mais antigos, isso elimina a inspiração especial, pois seremos forçados a considerar esses escritores anteriores também inspirados por Deus, mas isso cria outro problema, uma vez esses textos pré-evangelísticos foram destruídos pelo tempo, e, no entanto, a Palavra de Deus não pode ser destruída.

§3.c Tradição Oral Semítica


Esse foi o pior e mais mal-intencionado argumento. É de conhecimento mais do que comum, básico e geral que a tradição oral tinha o mesmo efeito que o que chamamos hoje de “telefone sem fio”. Portanto, os Evangelhos teriam sido baseados em conversa que era passada de boca em boca por mais de cem anos, o que compromete os alicerces da historicidade e confiabilidade dos mesmos.

Não há qualquer evidência de sobrenaturalidade nos Evangelhos. Observamos claramente que os mesmos foram escritos da forma mais humana que um livro poderia ser escrito. O Problema Sinótico prova, além de dúvida, que a produção literária dos Evangelhos foi uma oficialização e contextualização teológico-intencional de lendas orais sobre Jesus nos primórdios do Cristianismo.




Bibliografia de sites

Synoptic Problem Website acessado em 24/6/2013
The Gospels and The Synoptic Problem acessado em 24/6/2013
O que é o problema sinótico? acessado em 24/6/2013
Problema Sinótico acessado em 24/6/2013

Bibliografia de Livros

MACDONALD, William. Comentário Bíblico Popular. São Paulo. Mundo Cristão. 2008.
ACHTEMEIER, Paul J., BORAAS, Roger S. [et al.]. The HarperCollins Bible Dictionary. Nova Iorque. HarperCollins Publishers Inc.. 1996.

3 comentários:

  1. Isso pra mim só prova o relato de testemunhas que viram a situação de vários pontos de vistas diferentes, o que sempre foi normal. As discrepâncias prova a historicidade e autenticidade do relato, e não o contrário. Desconfiaria caso fosse tudo igual.

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    1. Se fosse tudo igual e tivesse sido passado assim desde a antiguidade, hoje vocês defenderiam que a igualdade prova a confiabilidade, como quatro testemunhos harmônicos. Vocês não defendem isso ou aquilo, vocês defendem a FÉ e aquilo que ela estabelece como verdade. A crítica às demais religiões feita por cristãos é de que seus livros com seus mitos são contraditórios e, portanto, essa visão de "pontos de vista" só parece ser válido para a Bíblia, mas para outras religiões não.

      Respeito sua opinião, obrigado pela visita, por não me agredir verbalmente, coisa bastante comum por aqui, e volte sempre.

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    2. Para mim, o modo parecido com que eles escreveram os evangelhos não diminuiu minha fé. Para mim, há diversos outros fatores que são extremamente mais decisivos a concluir que os evangelhos realmente aconteceram do modo que estão redigidos.
      Ellen White, uma escritora cristã, considerada inspirada pela Igreja Adventista do Sétimo Dia tem em um de seus livros um comentário bastante interessante que talvez lance luz sobre esse problema: a respeito de seus próprios escritos, ela diz que, devido a sua baixa escolaridade, muitas vezes não conseguia escrever o texto de uma visão que tivera de maneira concisa, ou que seu próprio vocabulário fosse limitado; no entanto, lendo algumas outras obras, ela encontrava descrito algo que se assemelhasse ao conteúdo de sua visão, por isso, modificava e inseria em seus escritos.
      Acredito, e respeito outros modos de pensar, obviamente, que o Espírito Santo inspire a pessoa que queira, mas não interfere na maneira como a pessoa irá colocar aquilo em palavras.

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