sexta-feira, 24 de maio de 2013


Teólogos Liberais ou Conservadores?

por Eduardo Galvão


Teólogos liberais ou teólogos conservadores? Em quem devemos crer?

Para fazer-me compreendido à alguns leitores, acho necessário falar de algumas coisas da minha vida pessoal, quando acreditava no Cristianismo. Uma dessas coisas era a profundidade dos estudos realizados nas áreas teológicas.

Antigamente, eu não apenas já tinha no coração a completa convicção de que o sistema cristão era o único verdadeiro, mas ficava também perplexo com a profundidade dos estudos acadêmicos entre os eruditos evangélicos e católicos.

Até hoje, tenho profunda admiração por muitos eruditos evangélicos que foram de profunda influência para mim na busca pelo conhecimento, homens como William Lane Craig, com tão admirável erudição e inteligência, bem como Norman Geisler, F.F Bruce e tantos outros.

Nunca achei, nem gostaria que meus leitores achassem, que acreditar no Cristianismo é coisa de “gente burra”; pelo contrário, as maiores mentes de tempos remotos, especialmente remotos, como na atualidade, são eruditos evangélicos, católicos e teólogos do Cristianismo em geral. Quem poderia duvidar da capacidade intelectual de C.S Lewis?

No entanto, apesar de toda essa admiração, percebi que o conhecimento produzido por eles era uma espiral infinita e escravizatória. Em que sentido?

Todos sabem que fui Testemunha de Jeová por muitos anos, oito deles como diácono [servo ministerial]. E como alguém de dentro da religião, irei contar algo factual e, ao mesmo tempo, análogo ao assunto que estamos abordando.

É inegável a erudição das Testemunhas de Jeová. Na verdade, quando fui “adotado” por elas quando adolescente, passei, nesse momento, a criar gosto pelos estudos e leitura. É muito, muito cobrado das pessoas nessa religião que leiam bastante, tanto seus periódicos, como os livros que são publicados anualmente.

No entanto, não parece uma contradição isso? Como eles podem ser tão estudiosos se creem em coisas tão estúpidas? Por que as pessoas que são TJs têm tanta convicção de estarem na religião cristã verdadeira? O correto seria que, o tanto quanto estudassem, mais veriam que essa forma de religiosidade é doentia e tirânica. Mas, no entanto, isso não ocorre. No meu caso, quanto mais estudava, mas tinha convicção que estava no caminho certo.

Até que um dia percebi o porquê a doutrina das TJs parecia tão perfeita, tão bem estruturada. Eles estudam muito, mas apenas os livros escritos pelos líderes da religião.

Um TJ estuda avidamente, mas todos esses estudos centralizam-se apenas nos livros da religião, e esses livros fazem referências à outros livros também da religião, e esses outros livros à outros livros publicados também por eles. No entanto, para não ficar parecendo muito redundante para os membros, parecendo coisa de “mente fechada”, eles, vez por outra, fazem referências aos livros ditos “seculares”, livros de autores que não são TJs, e para que esses livros do mundo possam dar apoio ao que os líderes das Testemunhas de Jeová ensinam, os editores distorcem as citações, tiram de contexto, acrescentam ideias e manipulam as informações para dar base aos seus argumentos.

Além disso, fazem o seguinte: Ao fazerem citações de livros seculares, eles mencionam apenas o título do livro, sem dizer a página, ou dizem o título e a página, mas proíbem seus adeptos de comprar esses livros seculares.[1]

O resultado é que os líderes das Testemunhas de Jeová criam um ensino e doutrina em forma de espiral, um circulo infinito, onde eles estudam muito, mas sem sair do lugar, leem muito, mas apenas as coisas que concordam com a religião. Um exemplo hipotético bem rápido. A Sentinela diz: “Jesus foi entronizado como rei do Reino de Deus em 1914. (Veja o livro O Que a Bíblia Realmente Ensina?, p 145)”. O que eles não percebem é que A Sentinela foi escrita por uma TJ e o livro que eles pedem para ver como referência foi escrita também por um TJ, ou seja, é CLARO que as informações estarão de acordo.

Apesar dos evangélicos criticarem as Testemunhas de Jeová, não vejo muita diferença entre eles nesse respeito. Se você vai pesquisar sobre a Ressurreição de Jesus em um livro acadêmico cristão, ou algum artigo científico de William Lane Craig, verá uma abordagem primorosa. Não obstante, perceberá que 99,99% das referências que o autor usa, incluindo inúmeros Ph.Ds, são de outros cristãos que também concordam com ele, que também acreditam que Jesus ressuscitou historicamente dos mortos ao terceiro dia.

Lógico que, quando fazemos um estudo científico, buscamos referências que dão base para nossa pesquisa, ou seja, que concordam conosco, mas você não pode, por exemplo, alistar inúmeros ateus fanáticos para escrever um livro provando que Deus não existe, tanto quanto um punhado de eruditos cristãos dizendo que Jesus é a única salvação para cada um dos 8 bilhões de seres humanos que existem na terra. Eu chamo isso de ARGUMENTO REDUNDANTE.

Nas pesquisas cristãs há um problema complicadíssimo. O resultado de suas pesquisas tem como base provar a credibilidade de uma fé racionalizada. Quando eu escrevo um artigo aqui no blog e uso Bart D. Ehrman como referência, isso não quer dizer, necessariamente, que concordo 100% com as coisas que ele diz. Eu e Ehrman temos visões diferentes sobre vários assuntos – nem estou aqui me comparando com ele, pois ele é incomensuravelmente mais entendido do que eu.

Bart D. Ehrman, Joseph Campbell, Shlom Sand, Earl Doherty, Thomas de Wesselow, Stephen Bartman e tantos outros que uso em minhas pesquisas, são pessoas TOTALMENTE diferentes, de campos de pesquisas diferentes e que possuem diferentes e divergentes visões de mundo sobre muitos assuntos. Assim, pegando um pouquinho de cada um deles, fui formando minha visão de fé, religião e Cristianismo.

Nem um de nós, ditos estudiosos seculares, está comprometido com “fé” alguma, ou algum projeto anti-cristão, anti-semita, anti-religioso e portanto, nossas pesquisas não são tendenciosas. Só existe um ponto com o qual estamos todos comprometidos: A VERDADE; e esse deveria ser o caso de todo ser humano. Mas para os cristãos fundamentalistas essa verdade é nenhuma outra se não o próprio Jesus. (João 14:6) Assim, eles estão comprometidos com Cristo, tanto quanto os eruditos seculares estão comprometidos com a verdade, porque para os crentes, Jesus é a própria encarnação da verdade.

Assim, quando analiso algum estudo feito por eruditos cristãos, por mais bonito que possa parecer as inúmeras referências, fica muito difícil aceitar suas conclusões, pois elas estão repletas de crendices e religiosidade, e giram em torno de indivíduos que se valem de seus títulos acadêmicos para convencer as pessoas de que o Cristianismo é o único sistema religioso verdadeiro. Existe um ACORDO entre todos esses eruditos cristãos, existe um elo fortíssimo entre todos eles, um compromisso tão forte que muitos dariam a vida por isso, que é a fé em Jesus Cristo, como Salvador da humanidade e essa fé inabalável constitui-se a pedra angular de suas pesquisas.

A motivação por trás da pesquisa é diametralmente diferente, como mostrado baixo:


Os eruditos cristãos não fazem pesquisas, cientificamente falando, eles criam e buscam provas, porque partem do pressuposto que sua fé é verdade absoluta. Os eruditos seculares, por outro lado, não partem de pressupostos, partem apenas do desejo sincero de saber se determinadas alegações são verdadeiras ou falsas.

Gosto muito de usar o bom senso. Nesse caso, quando se trata de assimilar Jesus com outros deuses e semideuses, ao invés de apenas “ir com as outras”, faça um julgamento próprio. Será que Hórus realmente teve 12 discípulos? Se realmente desejar saber por você mesmo, e não por erudito A e B, convido-o a ler os textos egípcios que falam do assunto, como os Textos da Pirâmide.

Portanto, quando for ler algo pela internet ou livros, seja o que for, vejam as referências, procurem saber quem é a pessoa e vejam se a mesma tem alguma motivação por atrás. Não fique logo de cara admirado de um erudito cristão A citar centenas de outros eruditos, pois todos podem ser apenas crentes conservadores dos quais deseja converter o mundo para o Cristianismo.

Sejam imparciais, duvidem, inclusive do que eu escrevo aqui no blog. Essas foram as MINHAS descobertas, façam as suas. Busquem as referências, sejam céticos, analisando os dois lados, mas busquem ser um cético saudável e honesto, que não tem medo e nem vergonha de dizer “eu estava errado”.

Testemunha de Jeová que cita Testemunha de Jeová tem a mesma redundância ideológica de evangélicos que citam evangélicos, de católicos que citam católicos, de muçulmanos que citam muçulmanos e de budistas que citam budistas para converter outros para seus respectivos lados.

Acho que, no fundo, se tivesse que argumentar com uma pessoa simples sobre a inveracidade dos dogmas cristãos, não citaria ninguém, apenas perguntaria coisa simples, como: Por que Deus mandou matar crianças no Antigo Testamento? Por que Deus revelou Sua verdade logo em um livro, se cada pessoa pode ler de um jeito?

Há alguns anos atrás, assisti esse vídeo no Youtube.com e ontem, durante a madrugada, encontrei ele legendado, dai achei interessante colocá-lo para meus leitores assistirem:


Nesse vídeo, fundamentalistas cristãos convidam o Dr. Chris Forbes, um australiano especialista em História Antiga, em especial o pensamento e a história grega, para falar sobre as relações entre Jesus e a Mitologia. Forbes diz que é tudo bobagem, que normalmente ri quando as pessoas falam sobre o assunto e que não devemos crer nessas coisas, pois são sem base e absurdas. No entanto, quais as motivações dele ao dizer isso? Comecei a pesquisar sobre o mesmo, e descobri que Forbes é um cristão devoto e fundamentalista. [Dr. Chris Forbes]

Dessa forma, ele usa a “autoridade” em História Antiga, embora mitos não sejam sua área, como se sua opinião fosse a palavra final no assunto, e passa a desmentir as coisas que inúmeros eruditos seculares já falaram sobre Jesus e Hórus. (Os argumentos de Forbes forma refutados por uma egiptologista Rebuttal to Dr. Chris Forbes concerning 'Zeitgeist, Part 1) Aqueles que assistem esse vídeo e aceitam a opinião do professor não se apercebem que Dr. Chris Forbes é apenas uma, das centenas de vozes que falam sobre o assunto, e que também temos a capacidade mental o suficiente para lermos os textos egípcios, por exemplo, e percebermos por nós mesmos se há, ou não, alguma similaridade entre Jesus e os deuses egípcios.

No final da entrevista, é dito algo digno de nota. (6:03) Forbes diz “não acredite em tudo que se vê no youtube”. O entrevistado o interrompe e diz, “mas seu vídeo também será visto no youtube”, o que deixa o professor sem graça. Diga-se de passagem que Forbes nem é Egiptologista, nem Mitologista, nem Classicista. Sua área de especialidade é Grécia e Cristianismo Primitivo.

É preciso ver muita além do que “autoridades”, Ph.Ds e especialistas dizem. O próprio Forbes diz que “mencionar historiadores não é bom o suficiente”, é preciso mencionar “fontes antigas”, ou seja, textos antigos que relatam originalmente o mito. É preciso analisar os dois lados da moeda.

O Cristianismo nem mesmo é uma religião unida. Os próprios cristãos não estão de acordo com o entendimento da Bíblia, sobre Deus, ou Jesus Cristo. Como querem converter o mundo? Uma religião imperialista que não está de acordo consigo mesma acontece o que o próprio Jesus disse:

Todo o reino dividido contra si mesmo é devastado; e toda a cidade, ou casa, dividida contra si mesma não subsistirá. – Mateus 12:25.



______________

Notas

[1] Essa informação é exclusiva para quem for TJ: Se ao ler essa parte quiser argumentar que isso não é verdade, de que ancião nenhum nos proíbe de comprar livros seculares, gostaria de dizer que essa foi a minha experiência na congregação que fiz parte. O Escravo desencoraja fortemente a leitura de livros seculares. Na congregação que fiz parte, os anciãos sempre me indagaram sobre os livros seculares que eu comprava, principalmente os de teologia. Se a revista Sentinela citava um teólogo, eu não podia comprar o livro do mesmo, tinha que confiar no que o Escravo tinha dito na revista.


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6 comentários:

  1. Eu também já fui TJ.
    Excelente blog com ótimas pesquisas bem embasadas.

    Quanto ao tópico em si, convenhamos que todo mundo tenta "puxar brasa para sua sardinha" como se diz no popular, principalmente quando a situação é levada pelo puro emocional. Mais de uma vez já peguei cristãos adulterando textos para "marketizar" suas crenças, socando a idéia do seu Deus em conceitos que não tem absolutamente nada a ver.

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    1. Olá obg pela visita e pelas palavras de elogio. Seja muito bem-vindo!

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  2. Muito bom o post. Tenho aprendido bastante com seu blog companheiro. Estive ausente por conta do tempo cada vez mais escasso. Seu texto me lembrou um livro que li recentemente: Em Defesa de Cristo, do Lee Strobel. O autor procura evidencias sobre a veracidade dos evangelhos mas faz sua pesquisa somente com especialistas cristãos.

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    1. Olá Vinicius, saudade de vc rapá! Te mandei dois e-mails e não obtive mais respostas, fiquei preocupado achando que tinha acontecido algo devido aqueles problemas que vc mencionou no seu primeiro e-mail.

      Fico muito feliz por contribuir com algo útil. Eu já li esse livro quando era cristão e é realmente como você falou.

      Abç!

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