domingo, 12 de maio de 2013

Por Que Existem Quatro Evangelhos?
por Eduardo Galvão

Todo cristão, pelo menos uma vez na vida, já se perguntou o porquê Deus inspirou exatamente quatro evangelhos sobre a vida de Jesus. As explicações que os apologistas cristãos dão para esse fato se resumem basicamente em questões muito mais teológicas do que científicas. Resumindo as explicações – se por dúvida, peço que vejam as referências – Deus inspirou apenas quatro evangelhos porque (1) teríamos mais material para se conhecer a Cristo, (2) o princípio do AT diz que um assunto só pode ser confirmado pelo testemunho de pelo menos duas testemunhas, (3) os quatro evangelhos serviriam como os quatro pilares da fé cristã, trazendo à mente a geometria de um templo, a Igreja, como a figura abaixo:

QUATRO, EVANGELHOS, EXISTEM, POR QUE
Jesus é a Pedra Angular da Igreja. (Atos 4:11)
Contra argumentos teológicos não podemos dizer nada, pois entra no campo subjetivo da fé e do sobrenatural. No entanto, me perguntei se a escolha de quatro textos sagrados para formar o cânon evangelístico não teria também alguma relação com o arquétipo mitológico.

1§ Os Evangelhos e a Tradição Artística

Voltando-me para referências sobre mitologia, percebi algo interessante, digo realmente de nota. A tradição artístico-teológica sempre representou os quatro evangelhos com o desenho de quatro animais, isso por causa de cada uma das quatro peculiaridades evangelísticas, bem como passagens bíblicas vetero e neotestamentárias. As figuras são respectivamente um homem, um touro, um leão e uma águia. A representação de temas em quatro é chamada de tetramorfo.


EVANGELHOS
Tanto o livro do profeta Ezequiel como o livro de Apocalipse usam essa mesma imagem do tetramorfo. No primeiro livro nós lemos:

Eze 1:5 “E, do meio dela, saía a semelhança de quatro animais; e esta era a sua aparência: tinham a semelhança de um homem.”

Eze 1:6 “ E cada um tinha quatro rostos, como também cada um deles, quatro asas.”

Eze 1:8 “E tinham mãos de homem debaixo das suas asas, aos quatro lados; e assim todos quatro tinham seus rostos e suas asas.”

Eze 1:10 “E a semelhança do seu rosto era como o rosto de homem; e, à mão direita, todos os quatro tinham rosto de leão, e, à mão esquerda, todos os quatro tinham rosto de boi, e também rosto de águia, todos os quatro.”

Eze 1:15 “E vi os animais; e eis que havia uma roda na terra junto aos animais, para cada um dos seus quatro rostos.”

 No segundo lemos:


EZEQUIEL E OS QUATRO ANJOS
Ap 4:6 E havia diante do trono um como mar de vidro, semelhante ao cristal, e, no meio do trono e ao redor do trono, quatro animais cheios de olhos por diante e por detrás.

Ap 4:8 “E os quatro animais tinham, cada um, respectivamente, seis asas e, ao redor e por dentro, estavam cheios de olhos; e não descansam nem de dia nem de noite, dizendo: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Todo-poderoso, que era, e que é, e que há de vir.”

Ap 5:6 “E olhei, e eis que estava no meio do trono e dos quatro animais viventes e entre os anciãos um Cordeiro, como havendo sido morto, e tinha sete pontas e sete olhos, que são os sete Espíritos de Deus enviados a toda a terra.”

Ap 5:8 E, havendo tomado o livro, os quatro animais e os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do Cordeiro, tendo todos eles harpas e salvas de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos.”

Ap 5:14 “E os quatro animais diziam: Amém! E os vinte e quatro anciãos prostraram-se e adoraram ao que vive para todo o sempre.”

Ap 7:1 “E, depois destas coisas, vi quatro anjos que estavam sobre os quatro cantos da terra, retendo os quatro ventos da terra, para que nenhum vento soprasse sobre a terra, nem sobre o mar, nem contra árvore alguma.”

Ap 7:2 “E vi outro anjo subir da banda do sol nascente, e que tinha o selo do Deus vivo; e clamou com grande voz aos quatro anjos, a quem fora dado o poder de danificar a terra e o mar,”

Ap 7:4 “E ouvi o número dos assinalados, e eram cento e quarenta e quatro mil assinalados, de todas as tribos dos filhos de Israel.”

Ap 7:11 “E todos os anjos estavam ao redor do trono, e dos anciãos, e dos quatro animais; e prostraram-se diante do trono sobre seu rosto e adoraram a Deus,”

Ap 9:13 “E tocou o sexto anjo a trombeta, e ouvi uma voz que vinha das quatro pontas do altar de ouro que estava diante de Deus,”

Ap 9:14 “a qual dizia ao sexto anjo, que tinha a trombeta: Solta os quatro anjos que estão presos junto ao grande rio Eufrates.”

Ap 9:15 “E foram soltos os quatro anjos que estavam preparados para a hora, e dia, e mês, e ano, a fim de matarem a terça parte dos homens.”

Como observado pelas várias referências ao número quatro no livro de Ezequiel e Apocalipse, a figura de quatro seres angelicais era bem presente no Judaísmo e posteriormente no Cristianismo. Desde os primórdios da Igreja Cristã, os Pais da Igreja buscaram dar várias interpretações para os mesmos seres: o homem, o leão, o touro e a águia. Para estes, cada uma dessas figuras representava um evangelho. Embora a identificação com os Evangelhos mude de interprete para interprete, seguiremos aqui o entendimento de Jerônimo:


  1. O homem representa o Evangelho de Mateus, pois neste, o escritor centraliza sua mensagem na natureza humana de Cristo, bem como sua posição de “filho do homem” e descendente da linhagem davídica.
  2. O leão representa o Evangelho de Marcos, pois neste, o escritor inicia sua abordagem cristológica através da proclamação de João Batista no deserto, proclamando ferozmente a entrada do Messias no mundo.
  3. O touro representa o Evangelho de Lucas, pois a entrada narrativa se centraliza no templo, onde o sacerdote Zacarias prestava serviço, estando o templo associado com o arranjo sacrificial dos animais para a expiação de pecados.
  4. A águia representa o Evangelho de João. Isso acontece pelo fato de que a águia sempre foi usada como símbolo de perspicácia, sabedoria, por ser um animal “do alto”, podia ver longe. O quarto evangelho é o único que começa seu relato com a cronologia centrada na eternidade, apresentando Jesus como a Palavra (gr.: logos) que estava ao lado de Deus por inúmeros eons. [JEROME. p. 5.]

2§ Número Quatro na Mitologia

O número quatro está presente indubitavelmente em vários mitos ao redor do mundo. Na mitologia nórdica, por exemplo, a trindade Odin, Vili e Vé designaram quatro anões como suporte nos quatro cantos da terra, seus nomes sendo Nordhri, Austri, Sudhri e Vestri. (FAUR, 2010) São desses nomes que derivamos etimologicamente os nomes Norte, Leste, Sul e Oeste.

Também da Yggdrasil, quatro cervos se alimentavam de seus ramos. O poema Grímnismál, uma parte do Poema de Edda, escrito em nórtico antigo, relata:


Veados havia também quatro,
a partir de suas cimeiras,
de pescoço arqueado, roiam.
Dain e Dvalin,
Duneyr e Durathror

Também, em outro mito nórdico, sabemos de Freya que era apaixonada por jóias. Em certa caverna, havia quatro duendes que fabricaram um belíssimo colar que a ela foi apresentado. Encantada com o objeto, disse que pagaria qualquer coisa para tê-lo, sendo que os quatro duendes disseram-lhe que o valor seria ter relações sexuais como cada um deles, da qual ela aceitou. [VIKING-MYTHOLOGY.com]

Temos muitos outros exemplos dos quais poderíamos citar aqui detalhadamente. Temos na mitologia grega Helios, o deus do sol, que tinha uma carruagem puxada por quatro cavalos, chamados respectivamente de Eous, Æthon,  Phlegon e Pyrois. Na china, encontramos os quatro reis dragão que dominavam cada um dos pontos cardeais. [Wikipédia]

3§ Os Quatro Filhos de Hórus


Por último, mas não menos importante, chegamos aos mitos egípcios. Ouvimos já muitas semelhanças entre Jesus e Hórus, e a polêmica sempre é grande quando se trata do assunto. Não podia ser diferente quando abordamos essa temática dos quatro evangelhos. Para muitos, pode ser surpreendente essa ideia, mas temos na mitologia egípcia o que chamamos dos Quatro Filhos de Hórus. Estes eram um grupo de quatro deuses na religião egípcia que eram essencialmente as quatro personificações feitas em jarros com vísceras, que acompanhavam os corpos mumificados. 

Imsety de forma humana, que protegia o figado e era protegido por Ísis.
Hapi que é em forma de um babuíno, protegia os pulmões e era protegido por Néftis.
Duamutef em forma de chacal, protegia o estômago e era protegido por Neith.
Qebehsenuef era em forma de falcão, protegia o intestine largo e era protegido por Serket. (AUFDERHEIDER, p. 237 e TAYLOR, pp. 201ff)

O feitiço 148 no Livro dos Mortos associa diretamente todos os quarto filhos de Hórus como os quarto pilares de Shu e um dos quarto pilares dos céus. [BUDGE, p. 240] Lembrando da imagem tetraforma de Ezequiel e Apocalipse, vemos quão semelhante é com a imagem da mitologia egípcia dos quatro filhos de Hórus: quatro seres, um com rosto de homem e os outros três com rostos de animais.

§4 Conclusão

Não apenas o conteúdo literário do Novo Testamento tem como fonte primária elementos míticos, mas a própria estrutura desses livros tem como base o tema do mito universal. A existência de quatro evangelhos se dá, não porque Deus quis que fossem quatro testemunhas, para que tivéssemos mais material sobre a vida de Jesus, mas pelo simples fato de que esse era o arquétipo mitológico desde a antiguidade. Assim, a resposta para a pergunta inicial é simples: Temos quatro evangelhos pelo simples fato de que, na estruturação oficial da doutrina cristã, no século IV, houve a necessidade de padronizar o sistema de crenças da religião oficial. Os muitos evangelhos que existiam – conhecidos hoje como evangelhos apócrifos – não poderiam continuar circulando, pois tornariam o Cristianismo mais ainda contraditório. Dos inúmeros evangelhos, quantos escolher? Irineu, um dos principais Pais Apostólicos e o ponta de lança na definição do cânon, diz:


Os Evangelhos não poderiam ser mais ou em menos em número do que eles são. Uma vez que existem quatro zonas do mundo em que vivemos, e quatro ventos principais, enquanto a Igreja está espalhada por toda a terra, e a coluna e o fundamento da Igreja é o Evangelho, e o Espírito de vida, dignamente tem quatro pilares, em toda parte expirando incorruptibilidade e homens revigorantes. A partir disso, fica claro que a Palavra, o artífice de todas as coisas, sendo manifestada aos homens nos deu o evangelho, quatro vezes mais na forma, mas unidas por um só Espírito. Como David disse, ao pedir sua vinda, ‘Ó aquele que senta sob os querubins, mostra-te’. Pois os querubins têm quatro faces, e os seus rostos são imagens da atividade do Filho de Deus. Pois a primeira criatura viva, diz, era como um leão, significando seu caráter ativo e principesco e real, o segundo era como um boi, mostrando sua ordem sacrificial e sacerdotal, o terceiro tinha o rosto de um homem, indicando claramente a sua vinda em forma humana, e o quarto animal era semelhante a uma águia voando, deixando claro a doação do Espírito que paira sobre a Igreja. Agora, os Evangelhos, em que Cristo está entronizado, são como estes. (3.11.8) [NTCANON.com]

A explicação de Irineu, que tem a mesma base mítica dos quatro cantos da terra, cuja base também se encontra os mitos pagãos, em coluio com os quatro filhos de Hórus e os quatro animais angélicos de Ezequiel e Apocalipse, todos apontam para uma denominador comum, a ideia do mito universal. Mais uma ponto sobre o Cristianismo que prova que seu sistema de crença não era algo novo, mas sim uma renovação de algo antigo.

OBS: Para aqueles que acham que todas as semelhanças entre o Cristianismo e os Mitos são apenas coincidência, leiam o artigo: Cristianismo e os Mitos: Apenas Coincidência?

Outras semelhanças entre a Bíblia e os mitos antigos:



Bibliografia de Sites

Why are Four Gospels? acessado em 11/05/2013
The Four Gospels de David Padfield, acessado em 11/05/2013
Why Four Gospels Accounts? acessado em 11/05/2013
The Man, The Ox, The Lion & The Eagle de Marian Therese Horvat, Ph.D, acessado em 11/05/2013
Tetramorph Wikipédia, acessado em 11/05/2013
Dáinn, Dvalinn, Duneyrr and Duraþrór Wikipédia, acessado em 11/05/2013
Commentary on Ezekiel - Volume 2 João Calvino, acessado em 11/05/2013
Number 4 in Mythology Mystical Numbers, acessado em 11/05/2013
Four Sons of Horus Wikipédia, acessado em 11/05/2013


Bibliografia de Livros

AUFDERHEIDE, Arthur C. (2003). The Scientific Study of Mummies. Cambridge: Cambridge University Press.
BUDGE, Sir Edward Wallis (2010) [1925]. The Mummy; a Handbook of Egyptian Funerary Archaeology. New York: Cambridge University Press.
FAULKNER, Raymond Oliver (2000). The Egyptian Book of the Dead: The Book of Going Forth by Day. San Francisco: Chronicle Books
REMLER, Pat (2004). Egyptian Mythology. Oxford: Oxford University Press.
HART, George (2005). Routledge Dictionary of Egyptian Gods and Goddesses. London: Routledge.
JEROME, Commentary on Matthew (The Fathers of the Church, Volume 117), CUA Press, 2008.
FAUR, Mirella. Ragnarök, O Crepulsculo dos Deuses, Uma Introdução à Mitologia Nórdica, São Paulo, Cultrix, 2010.

4 comentários:

  1. Artigo coerente e bem embasado. Os fundamentos aqui apresentados são amplamente sólidos! Parabéns! Deus abençoe sua vida a cada dia mais! Aguardo sua visita no meu blog:
    www.cleniomendes-pvh.blogspot.com
    Esta É A Palavra Viva Da Fé que Pregamos

    Te espero lá!

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    1. Olá amado... muito obg pelas palavras, bem como a visita. Seja muito bem-vindo ao blog.

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  2. Oi Eduardo! Parabéns pelo blog (que eu só conheci agora) sua argumentação e a forma que usa para discorrer sobre o assunto, são muitissimo interessantes, para mim essa descoberta de hoje foi de grande importância por dois motivos: pois vai de encontro com um assunto que sempre me interessou e agora também os meus estudos de teatro, já que em dezembro participarei de uma montagem com uma versão critica da Paixão de Cristo e estou colhendo todo tipo de informação e enfoque.Gratidão pela pesquisa e por partilha-la assim na rede. Um grande abraço

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    1. Muito obrigado e sucesso em seus projetos!

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