terça-feira, 21 de maio de 2013

Hebreus 11:1 e a Definição da Fé Cristã

por Eduardo Galvão

Significado da Palavra FÉ em Hebreus 11:1
Algum tempo depois que havia desacreditado, mesmo que parcialmente, nas doutrinas do Cristianismo, comecei a refletir se existia mesmo alguma militância entre fé e a razão. Percebi que, na verdade, tudo depende de nossa definição de “fé”. Bom, não vou tentar nesse artigo falar da fé em si, propriamente dita, mas gostaria de analisar o que é a fé dentro da definição neotestamentária.

A melhor definição que encontramos da “fé” está em Hebreus 11:1, texto esse que será a base de nosso estudo. Não obstante, o texto citado não foi redigido originalmente para definir o sentido completo de fé, como se a natureza da fé cristã resumisse no que diz o texto. Antes, o significado inclui, mas não se limita, ao que será analisado.

1§ Hebreus 11:1 – Uma Definição de Fé.

A Carta aos Hebreus é muito peculiar devido seu conteúdo, contendo uma aplicação do Antigo Testamento como jamais vista na literatura neotestamentária. (E. Jacquier, Histoire des livres du N.T., I, Paris, 1903, 457-71; Idem em Vig., Dict. de la Bible. III, 530-38) No entanto, boa parte de sua peculiaridade está centrada na autoria. Apesar de muitos eruditos conversadores buscarem estabelecer a epístola dentro do corpus paulino, (MACDONALD, 2007) a evidência em si aponta para outro autor e não o apóstolo Paulo. (HEADLAM, 1955, p.102)

No entanto, a autoria da carta não será nossa preocupação aqui e sim, como o tema da postagem sugere, buscar entender o significado de fé dentro do texto canônico cristão.

O capítulo 11 de Hebreus é bastante conhecido, pois com o objetivo de fomentar na mente dos cristãos ânimo e força para enfrentar as adversidades, o autor da epístola alista inúmeros exemplos de fé que encontramos no Antigo Testamento. No entanto, antes de relembrar esses exemplos de personagens bíblicos que demonstraram fé em Yahweh, o autor da carta dá o ponta pé inicial, no versículo 1, definindo a natureza da fé cristã.

2§ Contexto e Análise Exegética-Lexical de Hebreus 11:1

Não podemos entender um texto isolado de seu contexto, quer literário, quer histórico. Já que falamos logo no início do tema da epístola, iremos focar agora em seu contexto. Quais ideias antecederam o capítulo 11?

Quando olhamos o capítulo 10, observamos que o assunto do escrito se foca nos sacrifícios antigos, cuja natureza era humana e transitória e compara-os com a supernaturalidade do sacrifício de Jesus Cristo que é eterno. (11.1-18) Nos versículos seguintes, o texto aborda o privilégio de acesso que os cristãos, depois de se valerem do sacrifício expiatório de Jesus, usufruem à presença de Deus. (11:19-31) Por último, os versículos finais demonstra um apelo ao passado judaico veterotestamentário e garante que as recompensas aos cristãos não serão tardias.

Terminando essas ideias, o escritor introduz o capítulo 11, cujo versículo 1 lançará a definição, antes de qualquer coisa, do que se entender por fé dentro da dogmática cristã. Lemos no texto:

εστιν δε πιστις ελπιζομενων υποστασις πραγματων ελεγχος ου βλεπομενων

O que é fé? É a segurança confiante de que o que esperamos irá acontecer. É a evidência das coisas que ainda não vemos. (NLT)

Passemos agora para a análise gramatical do texto grego:

Εστιν… “...é...”, verbo “ser” no presente indicativo da 3a pessoa do singular. δε… “...além do mais...”. Partícula primária, conjunção. πιστις… “...fé...”, substantivo nominativo singular feminino. Essa palavra origina-se do verbo πειθω que, dentro seus sentidos, significa “convencer”. ελπιζομενων… “...esperamos...”. Verbo no presente, do plural masculino genitivo e passivo. Sua forma no infinitivo é ελπιζω que, por sua vez, se origina de ελπις significando “expectativa”, “esperança”. Portanto, as coisas que a fé espera estão tanto relacionadas com a esperança, como com a expectativa, devido sua certeza. υποστασις... “garantia”, “certeza” (ARA), “firme fundamento” (ARC) “substância” (EMTV) “realização” (LEB) “essência” (LITV) “persuasão” (MURDOCK) Substantivo nominativo singular feminino. Seu sentido original está relacionado com o ato de colocar ou estabelecer sob, algo colocado sob, base, fundação, aquilo que tem um fundamento, é firme. Origina-se de duas palavras gregas, sendo uma delas ιστημι que significa “causar ou fazer ficar de pé”, “colocar”, “pôr”, “estabelecer”. Por esses motivos, eu prefiro traduzir por “sólido alicerce” da qual é a base para todas as coisas que os cristãos esperam de Deus. πραγματων... “...das coisas...”. Sua forma original infinitiva sendo πραγμα, sua morfologia e classe gramatical dentro do texto é substantivo neutro genitivo no plural. Etimologicamente se origina de πρασσω cujo sentido é de “praticar”, exercitar algo. É dessa palavra que originamos a palavra “pragmático” em português. ελεγχος... “prova” (ARC) “convicção” (ESV) “certeza” (ISV) “evidência” (EMTV). Origina-se de ελεγχω cujo significado é de “refutar”, ou “sentenciar” com provas. Um substantivo nominativo singular masculino. ου... “não”, advérbio. βλεπομενων... “vemos”. Diferente de outros verbos gregos, este se refere à visão orgânica e não a visão metafórica do discernimento. É um verbo particípio passivo neutro plural genitivo.

Assim, traduzimos Hebreus 11:1 da seguinte forma, com base no acima mencionado:

“Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a convicção das coisas que não se veem.”

Para melhor entendemos, observamos que o foco do versículo é dizer o que a πιστις (fé) significa, da qual são conectados dois substantivos, υποστασις significando “fundação firme” e ελεγχος traduzido “convicção”.

A fé cristã, portanto, é classificada na primeira parte do versículo (11.1a) como a base, o alicerce sob o qual todas as promessas de Deus são baseadas. Na segunda parte do versículo (11:1b), a fé é descrita como uma forte convicção de que as coisas que não vemos, ou seja, o mundo espiritual, existem de fato.

Tendo isso em mente, o escritor de Hebreus comenta que por meio dessa “fé, entendemos que os mundos, pela palavra de Deus, foram criados; de maneira que aquilo que podemos ver foi feito do que não podemos ver.” – Hebreus 11:3.

A fé, tal qual fora definida em um dos primeiros escritos cristãos, mais antigo que os próprios evangelhos, (MACDONALD, 2007) define fé como uma convicção interior que não é baseada em coisas que se pode ver. Portanto, o conceito que observamos hoje, de cristãos querendo achar provas materiais da Ressurreição, bem como de eventos narrados no Antigo Testamento, não tem qualquer respaldo no próprio texto cristão.

A fé, conforme mencionada em Hebreus 11:1, não é baseada em coisas que podemos tocar, enxergar, como no caso de achados arqueológicos e coisas parecidas. Como Paulo bem disse em 2 Coríntios 5:7, “...andamos por fé e não por vista.”

Na atualidade, mais do que nunca, há quase um dilúvio de publicações apologéticas que objetivam mostrar provas materiais dos relatos bíblicos, inclusive a Ressurreição. Dessa forma, quando fundamentalistas buscam coisas materiais para provar a sobrenaturalidade dos dogmas cristãos, isso na verdade prova que sua própria fé é manca, precisando da bengala naturalística para respaldar algo que, originalmente, era apenas uma convicção mental, sem provas empíricas. Até um dos maiores pregadores evangélicos, C. H. Spurgeon, admitiu que “a fé é a razão descansando em Deus”. (SPURGEON apud MANSER, 2001)

Quando vejo essas tentativas desesperadas de provar os dogmas cristãos com acontecimentos históricos e achados arqueológicos, vejo claramente que a própria fé do apologista é defeituosa, é como se, na verdade, ele estivesse tentando provar pra si mesmo que todo seu sistema de crença é verdade. Lembro assim da frase de Elbert Hubbard, quando disse que a “fé é o esforço para acreditar naquilo que seu bom senso diz que não é verdade.”




Outros Artigos:


Bibliografia de Bíblias

Almeida Revisada e Corrigida 1996
English Majority Text Version
The Lexham English Bible, 2010
Murdock Bible, 1852
Green's Literal Translation, 2002
The New Testament in the Original Greek, 1881
Bíblia de Jerusalém, 2002

Bibliografia de Sites

EarlyChristiansWritings.com, acessado em 20/05/2013
Dating the New Testament, acessado em 20/05/2013
Gotquestions.org, acessado em 20/05/2013
Wikipédia, acessado em 20/05/2013
Faith Is ‘hupostasis’ – Hebrews 11:1, acessado em 20/05/2013

Bibliografia de Livros

ROBERTSON, Archibald Thomas. Word Pictures of the New Testament. Broadman Press 1960.
MACDONALD, William. Comentário Bíblico Popular. São Paulo. Mundo Cristão. 2008.
MANSER, Martin H. The Westminster Collection of Christian Quotations. Westminster John Knox Press, 2001.
THAYER, Joseph Henry. Greek-English Lexicon of the New Testament, ed. eletrônica.
LOUW, E. e NIDA, Eugene A. Greek-English Lexicon of the New Testament Based on Semantic Domains, ed. eletrônica, EUA, 1989.
KITTEL, Rodolf. Theological Dictionary of the New Testament, 2006, Eerdmans Publishing.

6 comentários:

  1. Dentro do tema "FÉ", achei uma definição interessante:
    A Fé, do latim Fides (Fidelidade) e do grego Pistia, é definido como a opinião de que algo é verdade sem qualquer tipo de prova ou critério objetivo de verificação, pela absoluta confiança que depositamos nesta idéia ou fonte de transmissão. A maioria dos anti-teístas possuem uma visão muito deturpada do que seja a palavra fé, associando-a à religiões dogmáticas ou à crença em seres ditos sobrenaturais, mas todas as pessoas possuem em maior ou menor grau este atributo, já que ele é vital para a manifestação de nossas vontades.
    Na Kabbalah, a Fé é um atributo da esfera de Netzach, associado às Emoções. Ela se manifesta ao lado de Hod (a Razão, cujo atributo associado é a Vontade/Thelema) e Yesod (o Subconsciente, cujo atributo relacionado é a Imaginação/Imago). Esta tríade de sensações, aliada aos recursos materiais (Malkuth), define nossa capacidade de realização de uma ideia.
    No diagrama simbólico da Árvore da Vida, sempre que pensamos em algum projeto, seja ele qual for, em primeiro lugar precisamos imaginar o que queremos. Quando maiores nossos conhecimentos, imagens, sensações e experiências, maior o leque de opções que temos para nossas escolhas. Este é o primeiro passo.
    Em segundo lugar, temos de ter a Vontade para realizar nosso desejo, caso contrário ele deixa de ser um desejo e se torna um devaneio etéreo. Este é um atributo da esfera da Razão (Hod). A razão vai nos guiar através de dezenas ou centenas de trajetos possíveis, de desvios e possibilidades, mantendo-nos firmes em nossas escolhas racionais. De nada adianta desejarmos alguma coisa se não for feito um esforço ativo de vontade para conseguí-la.
    Finalmente, entra a fé. Temos todos os ingredientes e indicativos de que iremos realizar nosso projeto, mas ainda não o realizamos. Isso só sairá do reino das probabilidades até o reino das certezas quando efetivamente ocorrer. Até lá, mesmo o ateu anti-teísta mais fanático precisa deste elemento imaterial chamado fé, em maior ou menor grau, que irá propulsionar sua vontade. Nem que seja a fé em si mesmo.
    E aqui entra o ponto chave desta questão. A Fé, por si só, não realiza nada sozinha. Ela é o caminho até a finalização do desejo, passando pela Vontade e pela Imaginação. Quando estas três esferas de pensamento estão desequilibradas, a ação idealizada no Plano Mental não se manifesta no Plano Físico (Malkuth), perdendo-se em algum ponto do caminho.
    Uma pessoa com Vontade e Fé, mas sem Imaginação não terá muitas opções de escolha. Uma pessoa com Vontade e Imaginação, mas sem Fé, desiste no meio do caminho por achar que não conseguirá fazer. Uma pessoa com Imaginação e Fé, mas sem Vontade, ficará aguardando um milagre acontecer.
    Infelizmente, nesta cruzada ateísta-religiosa atual, o termo “fé” tem sido confundido com “crendice dogmática”, talvez propositadamente, de modo a separar os dois grupos ainda mais, talvez por ignorância do que o termo realmente signifique. Do outro lado, lideranças religiosas-dogmáticas transformaram o termo em “fazedora de milagres” para angariar incautos para suas causas. A resposta está no meio termo entre a Razão e a Emoção.
    Fonte: http://textosparareflexao.blogspot.com/2012/04/comentario-que-e-fe.html
    Leandro

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    1. Obg Leandro pela pesquisa. Não busquei dar aqui uma abordagem fechada do que seja "fé" porque a coisa é realmente bem ampla, passando por vários campos humanísticos. Pretendo mais na frente fazer um artigo abordando o significado geral do que se entende por fé em vários campos e épocas, algo bem filológico.

      Só uma ressalva, é que na fonte que você usou menciona que fé vem de "pistia", na verdade, pistia é o nome de uma planta aquática (Wikipédia) que vem do substantivo grego πιστός ("água")... existem muitas palavras das quais poderíamos traduzir por fé, mas a mais usada é πιστις.

      Percebi que algumas páginas no google em português aparecem artigos com a palavra PISTIA para fé, junto com o latim fidēs. A palavra em latim está correta, que significa "confiança",(gen. (raro), usu. fidē (H., O.), uma vez fidēī (Enn. ap. C.), uma vez fidei (disyl., T.); dat. fidē, S., H., fidei (disyl., T.). Observei que em todas as páginas em português não se usa referência dizendo de onde o autor tirou isso, exceto de um página que faz uma humilde referência a um dicionário de etimologia de palavras em português, cujo autor não tem formação no grego quer clássico quer do koiné.

      Um dos melhores dicionário de grego clássico já produzido: πιστις

      Obg mais uma vez pela colaboração!

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  2. Olá, Eduardo, tudo bem? Qual a sua opinião sobre os seguintes artigos que tratam sobre o livro de Daniel ter sido escrito no sexto século antes de Cristo?

    http://www.nossasletrasealgomais.com/2012/01/introducao-ao-livro-de-daniel-parte-1.html


    http://www.nossasletrasealgomais.com/2012/01/introducao-ao-livro-de-daniel-parte-2.html


    Valeu, um abraço.

    Carlos.

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    1. Como mencionei em outro artigo, já estava procurando escrever um post datando o livro de Daniel. Irei analisar os dois artigos que você enviou e posteriormente falarei sobre o assunto.

      Obg pela contribuição.

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