quinta-feira, 14 de março de 2013

Escopo e Estilo Literário do Evangelho de João
por Eduardo Galvão

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§ 1. Escopo do Evangelho de João:

Sem sombra de dúvidas, o Quarto Evangelho se destaca acima dos demais pela sua peculiaridade literário-teológica, seu estilo simples, mas, ao mesmo tempo, profundo e tocante. De fato, um dos maiores especialista do grego do Novo Testamento certa vez comentou que o Evangelho de João é “o livro mais profundo do mundo.” (ROBERTSON, apud MACDONALD, 2008, p. 233) Ainda se diz que, “se o evangelho de João fosse o único livro no NT, mesmo assim proporcionaria alimento sólido (e leite) da Palavra para uma vida inteira de estudo e meditação.” (Ibidem) Muitos eruditos dedicaram uma vida inteira ao estudo dos escritos joaninos, e, ao analisarmos seu conteúdo, não nos admira ter atraído tanta atenção dos estudiosos. “O evangelho de João é o mais invulgar e talvez o mais valioso do quarteto dos evangelhos canônicos.” (TENNEY, 2008, p. 2001). Apesar da minha posição agnóstica, prezo sobremaneira o livro de João como literatura mitológico-judaica, tanto quanto os demais escritos da antiguidade.

Antes de passarmos para uma observação de seu escopo literário, vale lembrar que o quarto evangelho tem um conteúdo totalmente diferente dos demais três evangelhos ditos canônicos.

“O Quarto Evangelho e tão diferente dos Sinópticos que, honestamente, deve-se encarar a questão se ele registra acuradamente os ensinos de Jesus ou se a tradição foi tão modificada, pela fé cristã, ao ponto de a historia ser absorvida na interpretação teológica.” (LADD, 2001, p. 201)

Acho isso algo muito digno de nota. A peculiaridade e divergência do Evangelho de João, em relação aos demais evangelhos, é, de fato, uma prova cabal da mutação cristológica-textual na fabricação do mito cristão e isso analisaremos mais adiante em outras postagens. Na cronologia textual, temos o primeiro evangelho, o de Marcos, com uma história curta, sem muitos enfeites, depois vemos Lucas já com uma história mais desenvolvida, com muitos milagres; depois vem Mateus, com um texto já totalmente desenvolvido, com recursos lendários-textuais bem empregados, de uma forma já bem estabelecida. Por último, vem João com um relato totalmente diferente dos anteriores três evangelhos. Bom, isso não é de admirar-se, pois é precisamente isso que ocorre com boatos e lendas que se espalham, um verdadeiro microfone sem fio.

Analisando seu escopo literário, observamos que logo de início somos convidados a fazer um regresso temporal por meio de um prólogo, consistindo nas palavras iniciais de João 1:1-18, sendo que os primeiros versículos introdutórios sobre o Logos são interpretados normalmente à luz exegética de Gênesis 1:1. Partindo de João 1:19 até 12:50, viajamos dentro da personagem fictícia criada por João, onde contemplamos os inúmeros discursos proferidos por Cristo e suas inúmeras obras e protestos contra o sistema religioso judaico de seus dias. Dos capítulos 13 ao 17, temos uma relato mais desenvolvido e detalhado dos momentos finais da semana da Paixão, sua última Ceia, sua prisão, últimas palavras, prisão, crucificação e enterro. No capítulo 20, encontramos o relato mitológico da Ressurreição e das diversas manifestações do Ressurreto, que alavancou, teoricamente, o espírito dos discípulos que ficaram tão empolgados que só podiam chegar à conclusão de que Ele era, de fato, o tão aguardado Messias. Por último, mas não menos importante, chegamos ao capítulo 21, que é uma espécie de anexo ao Evangelho, escrito muito provavelmente por alguma escola joanina, tendo sido redigido por algum de seus discípulos, imitando seu estilo e vocábulo. Alguns dos mais renomados eruditos cristãos seguem essa linha de abordagem, entre estes estão Lightfoot, Meyer, Alford, bem como Zahn.

§ 2. Estilo Literário do Evangelho de João

O estilo literário empregado no Evangelho de João é marcado pela simplicidade, não possuindo muita elegância, sendo sua forma estritamente peculiar entre os Evangelhos, principalmente quando levamos em consideração os vocábulos usados, bem como sua gramática. Gobet descreve o estilo de João como de “uma simplicidade infantil e profundeza transparente, uma melancolia sagrada e uma vivacidade não menos sagrada, acima de tudo, a doçura de uma pureza e um amor gentil.” (apud, VINCENT) O vocabulário de João é muito pequeno e simples. Dessa forma, encontramos diversas vezes repetições de um mesmo vocábulo, como:

φῶς (luz) 23 vezes, 1:4; 5; 7; 8; 9; 3:19; 20; 3:21; 5:35; 8:12; 9:5; 11:9; 10; 12:35; 36; 46.

δόξα (glória) ocorre 19 vezes, 1:14; 2:11; 5:41; 44; 7:18; 8:50; 54; 9:24; 11:4; 40; 12:41; 43; 17:5; 22; 24.

δοξάζω (glorificar) ocorre 23 vezes, 7:39; 8:54; 11:4; 12:16; 12:23; 12:28; 13:31; 13:32; 14:13; 15:8; 16:14; 17:1; 17:4; 17:5; 17:10; 21:19.

ζωή, (vida) 36 vezes, 1:4; 3:15; 16; 36; 4:14; 36; 5:24; 26; 29; 39; 40; 6:27; 33; 35; 40; 47; 48; 51; 53; 6:54; 6:63; 6:68; 8:12; 10:10; 28; 11:25; 12:25; 12:50; 14:6; 17:2; 17:3; 20:31.

ζῆν (viver) ocorre 18 vezes, 4:10; 11; 50; 51; 53; 5:25; 6:51; 57; 58; 69; 7:38; 11:25; 26; 14:19.

μαρτυρεῖν (testemunhar) ocorre 33 vezes, 1:7; 8; 15; 32; 34; 2:25; 3:11; 26; 28; 32; 39; 44; 5:31; 32; 33; 36; 37; 39; 7:7; 8:13; 8:14; 18; 10:25; 12:17; 13:21; 15:26; 27; 18:23; 37; 19:35; 21:24.

μαρτυρία (testemunha) ocorre 14 vezes, 1:7; 19; 3:11; 32; 33; 5:31; 32; 34; 36; 8:13; 14; 17; 19:35; 21:24.

γινώσκω (conhecer, saber) ocorre 54 vezes, 1:10; 48; 2:24; 25; 3:10; 4:1; 53; 5:6; 42; 6:15; 69; 7:17; 26; 27; 49; 51; 8:27; 28; 32; 43; 52; 55; 10:6; 14; 15; 27; 38; 11:57; 12:9; 16; 13:7; 12; 28; 35; 14:7; 9; 14:17; 20; 31; 15:18; 16:3; 19; 17:3; 7; 8; 23; 25; 19:4; 21:17;)
,
κόσμος (mundo) ocorre 79 vezes 1:9; 10; 29; 3:16; 17; 19; 4:42; 6:14; 33; 51; 7:4; 7; 8:12; 23; 26; 9:5; 39; 10:36; 11:9; 27; 12:19; 25; 31; 46; 47; 13:1; 14:17; 19; 22; 27; 30; 31; 15:18; 19; 16:8; 11; 20; 21; 28; 33; 17:5; 6; 9; 11; 12; 13; 14; 15; 16; 18; 21; 23; 24; 25; 18:20; 36; 37; 21:25;),

πιστεύειν (crer) ocorre 100 vezes, 1:7; 12; 50; 2:11;22; 23; 24; 3:12; 15; 16; 18; 36; 4:21; 39; 41; 42; 48; 50; 53; 5:24; 38; 44; 46; 47; 6:29; 30; 35; 36; 40; 47; 64; 69; 7:5; 31; 38; 39; 48; 8:24; 30; 31; 45; 46; 9:18; 35; 36; 38; 10:25; 26; 37; 38; 42; 11:15; 25; 26; 27; 40; 42; 45; 48; 12:11; 36; 37; 38; 39; 42; 44; 46; 47; 13:19; 14:1; 10; 11; 12; 29; 16:9; 27; 30; 31; 17:8; 20; 21; 19:35; 20:8; 25; 29; 31.

ἔργον (mundo) ocorre 27 vezes 3:19; 20; 21; 4:34; 5:20; 36; 6:28; 29; 7:3; 7:7; 21; 8:39; 41; 9:3; 4; 10:25; 32; 33; 37; 38; 14:10; 11; 12; 15:24; 17:4.

ὄνομα (nome) ocorre 25 vezes, 1:6;12; 2:23; 3:1; 18; 5:43; 10:3; 25; 12:13; 28; 14:13; 14; 26; 15:16; 21; 16:23; 24; 26; 17:6; 11; 12; 26; 18:10; 20:31.

ἀληθεία (verdade) ocorre 25 vezes 1:14; 17; 3:21; 4:23; 24; 5:33; 8:32; 40; 44; 45; 46; 14:6; 17; 15:26; 16:7; 13; 17:17; 19; 18:37; 38.

σημεῖον (sinal), ocorre 17 vezes, 2:11; 18; 23; 3:2; 4:48; 54; 6:2; 14; 26; 30; 7:31; 9:16; 10:41; 11:47; 12:18; 37; 20:30.

Além desse uso simplório das palavras, as sentenças no Evangelho de João são simples, construídas com uma gramática básica, seguindo um tipo de paralelismo hebraico.

“O estilo e vocabulário desse evangelho são singulares, a não ser pelas epístolas de João. As sentenças são curtas e simples. São hebraicas no raciocínio e gregas na linguagem... o vocabulário é o mais limitado de todos os evangelhos, mas de mais profundo significado.” (MACDONALD, p. 234-235)

Enquanto outros escritores poderiam, por exemplo, usar partículas linguísticas de conexão lógica, o escritor usa o conectivo simples καὶ (e). Por exemplo, em João 1:10, o escritor diz que “embora” Jesus estivesse no mundo, “ainda assim” o mundo não o conhecia. Mas, ao invés de usar esse conectivo lógico mais sofisticado, ele prefere unir as duas sentenças com o conectivo καὶ, dizendo: “Ele estava no mundo, e o mundo não o conheceu.”

Há uma grande ausência de conectivos mais sofisticados. Não há, por exemplo, nem um único desses nos primeiros setenta versículos do capítulo 15. Apesar das ricas partículas de conexão em grego, o escritor usa apenas cinco. O mesmo faz uso de inúmeros contrastes ou paralelismo antitético sem conectivos. Assim, “a lei”, por exemplo, “foi dada por Moisés: graça e verdade vieram por Jesus Cristo.” (Jo. 17.17), “Ninguém viu a Deus jamais: o Filho unigênito o revelou.” (Jo. 1:18)

As narrativas do Evangelho de João são mais diretas. Até as palavras de outros são mencionadas diretamente. Por exemplo, ao invés de dizer “Esse é o testemunho de João quando os Judeus enviados para perguntar quem ele era, e ele confessou que não era o Cristo.” Na verdade, ele diz: “E este é o testemunho de João, quando os Judeus mandaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para que lhe perguntassem: Quem és tu? E confessou e não negou; confessou: Eu não sou o Cristo.” (João 1.20-21) Compare com João 7:40; 2:3; 4:24; 5:10; 6:14; 8:22; 10:2.

O estilo de João é circunstancial. Uma ação que, por outros escritores, é indicada como complexa, é analisada por componentes separadamente. Assim, em vez da expressão habitual grega, “Jesus, respondendo, disse”, João escreve: “Jesus respondeu e disse,” tornando ambos os fatores do ato igualmente proeminentes (Confira 12:44; 7:28; 1:15, 25). Esta particularidade é ainda ilustrada pela combinação da expressão positiva e negativa da mesma verdade (ver 1:3, 20; 2:24; 3:16; 5:5; 18:20). Seu uso frequente da partícula
οὐν (portanto) chama a atenção para a sequência de eventos ou ideias (2:22, 3:25, 29; 4:1, 6, 4:46; 6:5; 7:25; 8:12, 21, 31, 38; 10:7; 12:1, 3, 9, 17, 21). A frase, “de modo que” (ἱνα), marcando um objeto ou propósito, é de ocorrência frequente, e apresenta a característica da mente do escritor em considerar as coisas em suas relações morais e providenciais. Assim João 4:34: “Minha carne é para que eu possa fazer a vontade Daquele que me enviou,” a ênfase está não no processo, mas no final. Compare 5:36; 6:29; 8:56; 12:23; 13:34; 17:3.

O tema ou a palavra significativa de uma frase é muitas vezes repetida, especialmente nos diálogos (que são característicos do Evangelho de João), onde, pela repetição constante, os mesmos são mantidos claramente na mente do leitor (ver João 2:18; 4:7; 8:48; 10:23 também João 1:1, 7, 10; 4:22.; 5:31; 6:27; 11: 33). Por último, mas não menos importante, suas citações do Antigo Testamento são da Septuaginta e não do texto hebraico.



Bibliografia

DOCKERY, David S, Manual Bíblico Nova Vida, Ed. Vida Nova, 2010.
MACDONALD, William. Comentário Bíblico Popular: Novo Testamento, Mundo Cristão, 2008.
BRUCE, F.F, Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamento, 1° ed., São Paulo, Vida, 2009.
THIELMAN, Frank. Teologia do Novo Testamento: Uma Abordagem Canônica e Sintética, Shedd Publicações, 2007.
TENNEY, Merrill C. O Novo Testamento, Sua Origem e Análise, Publicações Shedd, 2008.
VINCENT, Marvin R. Vincent’s Word Studies, 1886, Ed. Electrônica.
KÖSTENBERGER, Andreas J. John, Baker Exegetical Commentary on the New Testament, Baker Academic, 2004.



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