segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Naum 2:4 Profetiza o Automobilismo Moderno?

por Eduardo Galvão


NAUM 2:4, CARROS, PROFECIAS, AUTOMOBILISMO
Das inúmeras pseudo profecias que são mencionadas para se confirmar a inspiração divina da Bíblia, a que mais acho tola é a mencionada em Naum 2:4. O texto nos diz o seguinte:

“Os carros correrão furiosamente nas ruas, colidirão um contra o outro nos largos caminhos; o seu aspecto será como o de tochas, correrão como relâmpagos.” (ACF)

Alguns cristãos apontam esse texto como uma possível profecia bíblica referente ao moderno automobilismo, onde os “carros” correm “nas ruas”, denotando uma infraestrutura moderna, dizendo que eles “colidirão um com o outro”, se referindo aos acidentes de trânsitos, que seu aspecto será de “tochas”, se referindo aos faróis, correndo “como relâmpagos”, se referindo às enormes velocidades que os carros hoje atingem.

Lógico que é tão absurda essa ideia que vemos até como algo engraçado de se pensar. Interessante que até evangélicos e apologistas cristãos descordam dessa interpretação futurística do texto, tanto que se fizer uma pesquisa em sites em inglês, alemão, francês, seja qual for, praticamente nada se encontra. Por esse motivo, até as referências externas para esse estudo serão poucas, uma vez que estudiosos sérios dos textos bíblicos nem se dão trabalho de cogitar essa interpretação.

A primeira coisa que devemos notar é que nossa interpretação de qualquer coisa é baseado em nossa formação cultural, informações pessoais, crenças religiosas, etc. Quando uma pessoa, em pleno século XXI, lê versículos bíblicos, ele verá as coisas da ótica moderna e, assim, possivelmente verá textos que aparentemente falam de coisas que só no futuro se tornaram realidade.

Isso acontece com os textos de Isaías 40:22 e Jó 26:7, bem como o texto de Naum 2:4 mencionado no início desse estudo. Ora, imagine um leitor abrindo a Bíblia e encontrando os termos “carros”, “ruas”, “colidir”, “correr” o que mais lhe poderia vir à mente do que a concepção moderna de acidentes de trânsito? Não obstante, é claro que o texto nada tem a ver com isso. Como veremos abaixo.

§ 1. Contexto Histórico


A potência mundial Assíria já havia devastado Samaria, capital do reino de Israel, de dez tribos. Além disso, a Assíria já por muito tempo era uma ameaça para Judá. O profeta Naum, de Judá, tinha uma mensagem a respeito da capital da Assíria, Nínive. Essa mensagem está no livro bíblico de Naum.

Naum lança um desafio escarnecedor a Nínive para que se reforce contra um vindouro dispersador. Javé reajuntará os seus, ‘o orgulho de Jacó e de Israel’. Naum passa, então a descrever como era o exército de Nínive. Ele menciona o escudo e a roupa carmesim de seus homens de energia vital e os fulgurosos apetrechos de ferro de seu ‘carro de guerra no dia de sua preparação’! Diz que os carros de guerra ‘andam como doidos’ pelas ruas, correndo como relâmpagos. (2:2-4) Depois dessas descrições, vemos uma visão profética da batalha. Os ninivitas tropeçam e apressam-se a defender a muralha, mas em vão. Os portões do rio se abrem, o palácio se dissolve e as escravas gemem e batem sobre os seus corações. Aos homens que fogem ordena-se que parem, mas, nenhum deles se vira. A cidade é saqueada e devastada. Corações se derretem. Onde está agora esta guarida de leões? O leão encheu sua caverna de presa para seus filhotes, mas Javé declara: “Eis que sou contra ti.” (2:13) Sim, o deus dos hebreus queimaria totalmente a máquina de guerra de Nínive, enviará uma espada para devorar seus leões novos e decepar da terra a sua presa.

Não podemos arrancar um texto de seu contexto. Imagine como seria sem sentido; o profeta falando do ataque divino à Nínive e, sem mais sem menos, nos diz que “no futuro haverão carros que andaram em ruas velozmente com faróis acesos”, o que isso tem a ver com o contexto? Observamos assim que não faz o menor sentido essa interpretação esdrúxula de alguns evangélicos.

§ 2. Má Tradução


A verdade é que, como a grande maioria das pessoas sabe, a Bíblia – em questão, o Antigo Testamento – não foi escrita em Português, mas na complicadíssima língua hebraica, bem como porções do Aramaico. Vejamos uma tradução letra por letra do texto de Naum 2:4. (Pode clicar na imagem para ficar mais legível)



Agora vamos analisar palavra por palavra:

רכב (hebr.: rekeb; Strong# 7393) Várias traduções são possíveis. Origina-se da palavra רכב (hebr.: râkab; Strong# 7392) que significa “montar sobre”, relacionando com os meios de transportes da antiguidade, no caso animais. Dessa forma, רכב (hebr.: rekeb) se refere à “carroças”. Verter por “carros” não é uma tradução é uma traição ao texto original com o objetivo de espraiar uma pseudo profecia automobilística.

הלל (hebr.: hâlal; Strong#1984) De uma raiz verbal primitiva, “estar claro”, embora se refira à sons, também pode se referir à cores, brilhar e portanto fazer-se notar. Não vejo, sinceramente como essa palavra descreveria faróis. חץ חוּץ (hebr.: chûts ou chûts; Strong#2351) Essas palavras se referem literalmente àquilo que está fora dos muros, ou seja, os campos, praças. Traduzir como “ruas” é também enganoso, pois os judeus não tinham “ruas” no sentido da intraestrutura moderna, algo que começou com os Romanos séculos depois. Como os judeus poderiam ter uma palavra para algo que nem existia na época? O objetivo do tradutor da Bíblia, nesse caso, foi trazer à mente do leitor concepções modernas, o que é bem desonesto.

שׁקק (hebr.: shâqaq; Strong# 8264) Se origina de uma raiz primitiva, cuja ideia central é de buscar algo ferozmente, com muita vontade. Está relacionado com a ideia de um animal de caça perseguindo uma presa. Nesse caso, quando o texto diz que as carroças estão “correndo” uns com os outros, a ideia seria de uma corrida, onde uma carroça “persegue” outra, com o objetivo de alcançar o prêmio. Isso é bem apropriado, uma vez que o profeta está apenas descrevendo as carroças do exercito de Nínive perseguindo seus inimigos.

רחוב רחב (hebr.: rechôb ou rechôb; Strong# 7339) Outra palavra que se refere à lugares espaçosos. מראה (hebr.: mar'eh; Strong# 4758) Essa palavra é usada para se referir à aparência das carroças. לפּד לפּיד (hebr.: lappı̂yd ou lappid; Strong# 3940) Provém de uma raiz incerta significando “brilhar” como a chama de um fogo, ou de uma tocha. רוּץ (hebr.: rûts) Significado básico de “corer velozmente”. בּרק (hebr.: bârâq; Strong# 1300) Se refere à algo brilhoso, como uma espada cuja lamina brilha.

Portanto, observamos que o texto de Naum 2:4 não tem nada a ver com concepções futuras de automobilismo e deve ser entendido dentro do seu próprio contexto e época. O profeta descreve as “carroças” de guerra dos inimigos, que podem atingir velocidades consideráveis, e brilham por vários motivos, como a própria palavra sugere, devido ao aço polido que reflete a luz de forma tão intensa como um espelho apontado para o sol. A Bíblia de estudo Shedd comenta:

“Descreve-se, aqui, o estado da cidade durante o cerco. Os carros corriam por toda parte tentando afastar os invasores.”

O renomado erudito bíblico especialista no Antigo Testamento, John Gill, do século XVIII, comenta que outro motivo das carroças serem comparadas à tochas é que o versículo 3 descreve que o exército Assírio usaria vermelho escarlate em suas roupas e equipamentos.

Interessante que nenhum erudito evangélico de séculos anteriores ao nosso viram nesses versículos algo sobre futuros carros que correriam velozmente pelas ruas, afinal, eles liam Naum 2:4 dentro do século deles, onde não existiam esse carros velozes, mais uma prova de que as interpretações proféticas são produtos do ambiente cultural e tempo do leitor. Essa interpretação de profecia automobilística do futuro é frívola e não é nada exceto uma tentativa desesperada de tentar provar a inefabilidade e inspiração dos textos bíblicos.



BIBLIOGRAFIA

Interlinear Bible, acessado em 21.01.2013.
SHEDD, Russell. Bíblia de Estudo Shedd, São Paulo, 2 edição, Vida, 2007.
K. Elliger, W. Rudolph. Biblia Hebraica Stuttgartensia, Sociedade Bíblica do Brasil. 1977.
DROWN, Francis, DRIVER, S.D, BRIGGS, Charles A. Unabridged Brown-Driver-Briggs Hebrew and English Lexicon, Hendrickson Pub, 1996.
LEIDEN, Holladay Brill. A Concide Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament, Boston, Köln, 2000.
STRONG, James. Strong’s Greek and Hebrew Dictionaries, ed. eletrônica.

7 comentários:

  1. José

    Você disse: “Quando uma pessoa, em pleno século XXI, lê versículos bíblicos, ele verá as coisas da ótica moderna”.
    Parabéns, ótima argumentação! Concordo com você!
    Você concordará comigo que isso só prova falha de interpretação!

    Mas há um caso diretíssimo: a profecia em que Daniel antecipa que “490anos” após viria “o Messias” e após seria “destruído o Templo” [Dn 9.25-27] + Jesus, O MESSIAS, dizendo que “não ficaria pedra sobre pedra [Mt 24.2]” + “Não haveria mais fruto [Mt 21.19]”.
    Pergunto: Cadê a intercessão [Mt 21.19] no Templo [Mt 24.2], após o Messias [Dn 9.25-27]?

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    1. Amado, não entendi sua pergunta final... poderia explicar melhor?

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  2. José

    A profecia de Daniel e de Jesus é direta e aconteceu?

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    1. Olá José, obg pela resposta. Por coincidência, estou trabalhando em um artigo que responde indiretamente a essa e outras profecias bíblicas.

      O Templo foi destruído em 70 EC, pelo general romano Tito, isso é fato histórico, mas não acredito que Daniel, nem mesmo Jesus tenham profetizado isso.

      Nesse artigo vou comentar o que são as profecias bíblicas e como elas são interpretadas.

      Acompanhe o blog e provavelmente logo verás o que acho sobre isso.

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  3. Parabéns, muito bem explicado. Já ouvi pregadores falarem desse versículo . Fico até desmotivada de ler a Bíblia no português, não se sabe se a tradução é fiel ao hebraico. Jessica

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  4. Uma escritora inglesa radicada nos Estados Unidos, Taylor Caldwell, dá outra versão para os fatos. Não se trata de uma previsão futura tais carros, mas sim acontecimentos da época. Ela acredita que os povos babilônicos eram muito mais evoluídos do que quaisquer povos anteriores. Detinham conhecimentos vastos em diversas áreas, tecnológica, médicas, e devido ao incêndio da grande biblioteca de Alexandria e da decadência esses conhecimentos se perderam. A sociedade então teve de começar praticamente do zero. Portanto, várias interpretações ao longo dos tempos, das nacionalidades são possíveis a respeito desses veículos rápidos e iluminados.

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