quinta-feira, 24 de janeiro de 2013


Por muitos anos, ouvi e preguei o amor de Deus ao enviar seu filho para morrer por nós pecadores. (Cf. João 3:16) A ideia de que alguém se permitiu morrer para nos salvar é por demais tocante. Nos meus anos iniciais de estudos teológicos, me perguntava por que Jesus fora rejeitado pelos judeus enquanto em vida, uma vez que ele curava, ressuscitava os mortos e fazia tantas outras “obras maravilhosas” das quais nem “o mundo inteiro caberiam os livros que seriam escritos”. — João 21:25b, SHEDD.

Aprendi que Jesus não foi aceito como Messias pelo simples motivo de que os Judeus estavam esperando um salvador político, uma vez que a nação judaica estava sob o julgo opressivo de Roma, submetidos a pagar seus abusivos impostos.

Dessa forma, ver um messias sofrendo e morrendo na cruz não convenceria seus inimigos de que era o Filho de Deus. Na verdade, a ficção pára por aqui. À parte do que fundamentalistas religiosos fanáticos têm pregado há séculos, a figura de Jesus retratada nos Evangelhos canônicos é uma montagem de vários termos messiânico-apocalípticos anteriores à sua época, isso colocando à parte a terminologia pagã.

Temos fontes que mostram, além de dúvida razoável, que a figura de um messias que sofre e morre pelos pecados do povo de Deus já era conhecia bem antes da era cristã.

A primeira menção extra-bíblica de um messias assassinado é ao chamado Mashiah ben Yosef que é mencionado no Talmude (Sukkah 52a). Provavelmente esse “Messias Assassinado” está ligado à revolta judaica na Terra de Israel após a morte do rei Herodes, em 4 a.C. Esta insurreição judaica foi brutalmente reprimida pelos exércitos de Herodes e do imperador romano Augusto, e os líderes messiânicos da revolta foram mortos. Esses eventos, vistos pelos religiosos da época como apocalípticos, carregaram a concepção do Messias, Filho de Deus morto, contrariando, assim, a concepção antiga do Messias “eterno”. Interpretações do texto bíblico ajudaram a moldar a crença de que a morte do Messias era um elemento necessário e indivisível de salvação. Israel Knohl, professor de Estudos Bíblico da Universidade Hebraica de Jerusalém, comenta:




Minha conclusão, baseada em escritos apocalípticos datados deste período, foi a de que certos grupos acreditavam que o Messias iria morrer, ser ressuscitado em três dias, e subir ao céu.”(In Three Days You Shall Live do Jornal online Haaretz)


Os eruditos Ada Yardeni e Binyamin Elitzur recentemente publicaram a tradução de um texto judaico fascinante, do qual intitularam “Hazon Gabriel” ou Apocalipse de Gabriel (Cathedra Magazine, vol. 123). Este texto, gravado em pedra, relata a visão apocalíptica do Arcanjo Gabriel. Tanto Yardeni como Elitzur dataram o texto através de características linguísticas e o formato das letras como pertencente ao final do primeiro século ANTES de Cristo.

Nas linhas 16-17 do texto, Deus aborda Davi da seguinte forma: “Avdi David bakesh min lifnei Efraim” (“Meu servo David, pergunta Efraim”). Na Bíblia, Efraim é o filho de José. Isso configura uma equivalência entre Davi e Efraim com os talmúdicos “Mashiah ben David” e o “Messias Filho de José”, e confirma a teoria de que o Messias Filho de José já era uma figura conhecida no final do primeiro século a.C.

A parte mais importante do texto não pode ser traduzido com 100% de certeza e Yardeni, bem como Elitzur, oference uma leitura ligeiramente diferente da feita por Israel Knohl. Na linha de número 80, começamos a ler as palavras em hebraico “Leshloshet yamin” (“Em três dias”), seguida por uma outra palavra que os editores não conseguiram decifrar com absoluta certeza. Então, vem a frase “Ani Gavriel” (“Eu, Gabriel”). Israel Knohl comenta o seguinte:



Eu acredito que esta palavra “ilegível” é realmente legível. É a palavra “hayeh” (viver), e que o Arcanjo Gabriel está dando ordens a alguém: “Leshloshet yamin hayeh” (“Em três dias, você viverá”). Em outras palavras, em três dias, você deve retornar à vida (compare “bedamaiyikh ha'ee” - traduzido como “em teu sangue viva” - em Ezequiel 16:06). A palavra “haye” (viver) está escrito aqui com Álef. Ortografia semelhante aparece em Manuscritos do Mar Morto, por exemplo, no livro de Isaías, onde a palavra “yakeh” (30:31) é escrito com um Alef após o Yod.

Isto é seguido por dois traços de mais palavras. As letras não são fáceis de decifrar, mas a primeira palavra parece começar com um Gimmel e Vav. A próxima palavra não é clara. A letra Lamed é bastante legível, e a letra anterior parece ser um Ayin. Eu acredito que a frase pode ser reconstruída como segue: “Leshloshet yamin hayeh, ani Gavriel, gozer alekha” (“Em três dias, viva, eu, Gabriel, te ordeno”). O arcanjo está ordenando que alguém ressuscite dentre os mortos em três dias. Para quem ele está falando?”


A resposta aparece na linha seguinte, Linha 81: “Sar hasarin” (“Príncipe dos Príncipes”). A frase em hebraico diz: “Leshloshet yamin khayeh, ani Gavriel, gozer alekha, sar hasarin” (“Em três dias, eu, Gabriel, comando, príncipe dos príncipes.”) Quem é o “Príncipe dos príncipes”. A principal fonte bíblica para compreensão da Revelação de Gabriel é a narrativa no livro de Daniel (8:15-26), em que o Arcanjo Gabriel revela-se a Daniel pela primeira vez. Gabriel descreve um “rei de semblante feroz.” Este rei “destruirá os que estão poderosos e o povo dos santos ... ele se levantará contra o Príncipe dos príncipes”. (Daniel 8:24-25).

À parte da enorme confusão teólogica dentro do Cristianismo, a grande maioria das denominações cristãs pensam o mesmo que a seguir:

O título Rei dos reis e Senhor dos senhores indica que Jesus sustem a posição mais alta de autoridade e deve, portanto, ser o Príncipe dos príncipes.” (Cf. Jesus, Prince of Princes)


Particularmente, ainda acho bem interessante que o Apocalipse de Gabriel use muitas vezes, de forma bem legível, a expressão “Leshloshet yamin hayeh” (“em três dias”), o que mostra que essa era uma concepção teológica apocalíptica judaica já corrente muito antes do nascimento do Cristianismo e o mito da Ressurreição em três dias.

Cf. Em que Dia Jesus Ressuscitou?
Cf. Uma Distorção Por Uma Ressurreição — Oséias 6:2

O professor Israel Knohl conclui ao dizer:


Se o Apocalipse de Gabriel data do final do primeiro século a.C, como já dissemos, em seguida, durante este período, que era perto no tempo do nascimento de Jesus, havia pessoas que acreditavam que a morte do Messias era uma parte integral do processo de Salvação. Tornou-se um artigo de fé que o líder messiânico morto seria ressuscitado em três dias, e subiria ao céu em uma carruagem.

O Apocalipse de Gabriel confirma assim a minha tese de que a crença em um messias morto e ressuscitado existiam antes da atividade messiânica de Jesus. A publicação deste texto é extremamente importante. É uma descoberta que exige uma reavaliação completa de todos os estudos eruditos anteriores sobre o tema do messianismo, judeus e cristãos.

5 comentários:

  1. Excetuando-se predisposição de outra origem, a crença pretérita num messias sofredor e ressurgido dos mortos não afasta a racionalidade da fé em Jesus Cristo. Além de não ser novidade alguma.
    Mesmo nos textos bíblicos se mistura duas figuras: um messias sofredor e outro triunfal, as quais aparecem também na "pedra de gabriel". Por outro lado, fato é que judeus e gentios aderiram ao cristianimos nos primórdios, quando era tido como uma seita judaica.
    Ocorre que os judeus - e não foram poucos - que aderiram ao cristianismo não foram tratados como judeus pelos judeus não convertidos, foram, ao longo do tempo, "excluídos do Israel do AT", enquanto o "Israel do NT" inclui também os gentios. A ideia de que os judeus rejeitaram Cristo em bloco, que é reforçada nas Sagradas Escrituras, decorre da alusão a Israel como um todo coeso, o povo de Abraão.
    De fato, pode se concluir racionalmente que a esses escritos encontrados confirmam a veracidade de uma profecia parcialmente cumprida.
    Eis um pouco do porquê eu creio.
    Por fim, sugiro amigavelmente que o título seja "porque não creio" ao invés de "por que não creio", pois não se trata, ao que entendi, de uma pergunta, mas de uma afirmação, do motivo pelo qual vc não crê. :)

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    1. À parte de algumas palavras sofisticadas que foram usadas em seu comentário, da qual, na grande maioria, são usadas com o objetivo de impressionar, infelizmente não realizam seu objetivo; não me impressiono com meia dúzia de palavras bonitas.

      Você disse: “não afasta a racionalidade da fé em Jesus Cristo.” Respeito sua opinião, mas eu creio que afasta e muito, case closed.

      “Além de não ser novidade alguma.” Não sei em que parte do meu artigo tem escrito que é uma novidade, poderia mostrar-me? Esse blog não é um blog de notícias para colocar aqui novidades, além disso, “novidade” é uma coisa subjetiva, o que não é novidade para você, pode ser para outrem.

      “Mesmo nos textos bíblicos se mistura duas figuras: um messias sofredor e outro triunfal, as quais aparecem também na "pedra de gabriel".”

      No entanto, tenho um punhado considerável de livros cristãos que diziam que o pensamento do messias sofredor e glorioso era algo único e peculiar, coisa que a arqueologia contradiz, e para se sair disso, alguns cristãos mudaram o discurso.

      “Por fim, sugiro amigavelmente que o título seja "porque não creio" ao invés de "por que não creio", pois não se trata, ao que entendi, de uma pergunta, mas de uma afirmação, do motivo pelo qual vc não crê.”

      Amigavelmente, eu rejeito sua sugestão por ridiculamente achar que não sei o uso dos PQs em português, querendo corrigir o título do meu blog. Para clarear sua falta de compreensão da minha pessoa, sou graduado e pós-graduado pela Universidade Potiguar também em letras (português-inglês), então sei exatamente o uso dessa particularidade linguística.

      Para ampliar seu entendimento manco e falho da língua portuguesa, o “por que” separado também pode ser usado na afirmativa para se falar de “motivos”. (AZEREDO, 2009) no site de referência Brasil Escola temos:

      O por que tem dois empregos diferenciados:

      Quando for a junção da preposição por + pronome interrogativo ou indefinido que, possuirá o significado de “por qual razão” ou “por qual motivo”:

      Exemplos: Por que você não vai ao cinema? (por qual razão)
      Não sei por que não quero ir. (por qual motivo)

      Quando for a junção da preposição por + pronome relativo que, possuirá o significado de “pelo qual” e poderá ter as flexões: pela qual, pelos quais, pelas quais.

      Exemplo: Sei bem por que motivo permaneci neste lugar. (pelo qual)


      Um outro exemplo é o livro best-seller Por Que Não Sou Cristão de Bertrad Russell. Bom, como dizem, “o mal do tolo é achar que todo mundo é idiota” em contrapartida “o prazer do homem inteligente é se passar por tolo diante do tolo que quer bancar o inteligente.”

      Desculpa, mas não foi dessa vez! ;-)

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    2. kkkkk muito bom argumento Eduardo, além de um ótimo texto parabéns ;)

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    3. Olá Jane Oliver, obrigado pelas palavras e pela visita! Seja sempre muito bem-vinda!

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  2. Será que realmente os apóstolos esperavam que Jesus ressuscitasse? Eles todos fugiram de Jerusalém. E o mito criado do túmulo vazio mostra a “surpresa” da pedra removida. Apenas a outra Maria e Maria Madalena foram ao terceiro dia ao local, e ficaram “surpresas” de ver a pedra removida. As mulheres não sabiam que Jesus havia ressuscitado, mas somente que o túmulo, alegadamente, estava vazio e não sabiam para onde o tinham levado. Ou seja, não havia profecia de Jesus de que ele ressuscitaria. Paulo, primeiro dos escritores nunca disse que houve um túmulo. E não era tradição de enterrarem pessoas crucificadas. Eram deixadas para serem comidas pelos abutres.

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