sexta-feira, 2 de novembro de 2012


Esse texto é parte de um estudo mais longo e complementar. Caso você tenha chegado nesse blog diretamente por essa postagem, queira ver o contexto desse estudo em A Ressurreição — Uma Doutrina Central
TÚMULO, JESUS, ANJOS, DOIS, UM, CONTRADIÇÃOPassamos agora para a contradição relacionada ao encontro angélico que as mulheres tiveram no túmulo.

Dito de maneira simples, os relatos evangelísticos nos contam que, no primeiro dia da semana, algumas mulheres foram visitar o túmulo de Jesus e se depararam com uma imagem inacreditável: a pedra que fechava o local havia sido removida. Quando entraram no túmulo, onde jazia o corpo de Cristo, elas não encontraram mais seu Senhor, ao invés disso, duas figuras angélicas se apresentam. — Mt. 28:1-5; Mc. 16.1-5; Lc. 24:1-4; Jo. 20.1-3.

De cima abaixo, podemos observar traços de lenda nesses relatos. Entretanto, primeiro iremos analisar a visão angélica que as mulheres tiveram, conforme nos relatam os textos referidos acima. Não precisamos ser nenhum teólogo erudito para vermos que os quatro relatos são desconexos, inconsistentes e contraditórios.

A primeira coisa que observamos é em relação ao número de anjos que se apresentaram para as mulheres. Em Marcos 16:5 nos é dito que as mulheres “viram um jovem sentado à direita”, jovem esse identificado como sendo um anjo, pela teologia cristã tradicional (Comentário Bíblico Popular do Novo Testamento, p. 146.), e em Mateus, apesar de não usar a palavra “um”, é mencionado “o anjo”, ou seja, apenas um único. Por outro lado, João diz que a mulher viu “dois anjos” e o mesmo diz Lucas, que descreve “ao lado delas dois homens em vestuário reluzente.” Afinal, foram dois anjos ou apenas um?

O argumento mais usado entre os que defendem o Cristianismo é esse: Onde há dois há também um. O texto não diz que havia apenas um anjo, a palavra “apenas” não está no texto.

Para isso, arguímos que o argumento apologético cristão de “onde há dois, há também um” é puramente filosófico e engenhosidade interpretativa para fazer soar bem o texto. Na postagem anterior (Cf. A Visita ao Túmulo — De Manhã ou Madrugada?), mostramos que, na lógica cristã, “ainda escuro” também pode significar “sol raiando”, embora não veja onde isso possa, em qualquer parte do mundo, ser verdade. Já aqui, a lógica cristã no diz que “dois” também pode ser “um”.

Mesmo que tentando forçar a barra, vamos aceitar isso por piedade. Você pergunta à um colega, “você tem um dicionário?”, a pessoa te responde, “sim, tenho um dicionário.” Quando a pessoa abre a bolsa, você observa que, na verdade, ela tem dois dicionários. Ela mentiu ao dizer que tinha um dicionário? Não, mentiria se tivesse dito que tinha apenas um.

Isso funciona se fizer o raciocínio de 2 para 1. Mas isso não funciona se fizermos de 1 para 2. Em outras palavras, quem tem 2 tem 1, mas quem tem 1 não tem 2.

Vamos voltar ao exemplo acima. Você pergunta à um colega, “você tem dois dicionários?”, a pessoa te responde, “sim, tenho dois dicionários.” Quando a pessoa abre a bolsa, você observa que na verdade ela tem um dicionário. Ela mentiu ao dizer que tinha dois dicionários? Sim. [Por favor, não venha argumentar que o outro dicionário estava em casa!]

Se olharmos apenas para o texto que diz “dois anjos”, podemos concluir que poderia se dizer que “um anjo” fez ou disse isso ou aquilo, porque onde há dois há também um. Por outro lado, nos textos onde se diz que “um anjo” disse ou fez algo não há como concluirmos que havia dois anjos.

Outro ponto referente a isso é que, dificilmente quando estamos falando, relatando algo, erramos no número de pessoas. Se alguém toca sua campainha, e olhando pela janela, você vê duas pessoas, dificilmente dirá a alguém da casa que tem UM PESSOA lá fora. É como se nossa mente estivesse preparada para falar exatamente o que estamos vendo, nesse caso diríamos que tem “duas pessoas à porta”.

Não é apenas a questão do número de anjos. O que mais chama atenção é que cada relato retrata uma coisa distinta. Em cada relato temos anjos diferentes, fazendo coisas diferentes, dizendo coisas diferentes, em locais diferentes, mas tudo isso ocupando o mesmo lugar no tempo e espaço na história, conforme creem os cristãos. Outros detalhes serão observados em outras postagens.

Continuação: Como a Pedra do Túmulo Foi Removida?

10 comentários:

  1. Depoimentos dos meus amigos.
    Disse José: "Eu peguei a bola e chutei para o gol, e ela passou perto da trave"
    Disse João: "Não vi a bola passar nem perto da minha luva, o jogo todo." sendo ele o goleiro.
    Disse Marcos: "Só tinham 11 jogadores em campo"
    Quantos jogadores haviam em campo? 1, 2, 11 ou 22?
    José mentiu dizendo que a bola passou perto do gol, já que João falou que não viu a bola passar perto de seu gol?
    Marcos errou ao falar que só tinham 11 jogadores, se para se jogar são necessários 22 jogadores?

    Todos esses depoimentos estão certos, porque cada um enfatizou uma idéia: José o seu chute poderoso; João o fato de seu time sofrer apenas 1 chute ao gol (o que significa nada); Marcos que seu time ficou o tempo todo no ataque (o que parecia que só seu time jogou). Enfim, dependendo da "ênfase" e "linguagem" a idéia pode ser, mas não é, contrária.
    Clóvis. Cariacica,ES.

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    1. Olá Clóvis, é um prazer tê-lo no blog. Vamos analisar isso, conforme seu raciocínio.

      Disse José: “Eu peguei a bola e chutei para o gol, e ela passou perto da trave.”

      Disse João: “Não vi a bola passar nem perto da minha luva, o jogo todo.”

      Os dois poderiam estar dizendo a mesma coisa, sendo que um EXAGERA o fato propositalmente, por dizer que a bola nem perto da luva passou durante todo o jogo; pode se observar um claro exagero. Até porque, no exemplo acima, são depoimentos de pessoas que têm interesses contrários, de times opostos, com certeza, no mínimo, um deles está exagerando os fatos.

      Outro ponto digno de nota é que, diferente do depoimento de uma mera partida de futebol, o relato evangelístico da Ressurreição estaria respaldada pela inspiração divina, doutrina essa que até hoje não existe um consenso entre os cristãos, cada um tem sua teoria.

      Se os relatos evangelísticos da Ressurreição também são inspirados por Deus, não haveria PONTOS DE VISTA, eles poderiam conter o mesmo relato com outras palavras. Exemplo:

      “Uma das mulheres disse: “E vi dois anjos...”.” E em outro Evangelho, “A mulher disse: Eu vi anjos.” E em outro Evangelho teríamos, por exemplo, “Maria disse: “observei um par de anjos”.” Noutro, “Uma discípula falou: “eis que apareceram dois homens de branco, cuja roupagem reluzia”.”

      Em todos os quatro relatos que acabei de inventar temos palavras diferentes, mas ambas dizendo a mesma coisa, “uma mulher” = “a mulher” = “Maria” = “uma discípula”. Depois temos, “dois anjos” = “anjos” = “um par de anjos” = “dois homens de branco, cuja roupagem reluzia.”

      Não obstante, não é isso que encontramos nos Evangelhos. Voltando ao seu exemplo:

      Na outra parte: Disse Marcos: “Só tinham 11 jogadores em campo”.

      Bom, isso não dá para usar como exemplo porque qualquer estudioso da linguagem sabe muito bem que não podemos julgar uma frase fora de seu contexto. Ao dizer essa frase hipotética, ele poderia estar ou não mentindo.

      Mas vamos interpretar como você o fez.

      José enfatizou o seu chute poderoso (que talvez nem tenha sido tão poderoso assim, mas o tenha dito apenas para dizer que, embora tenha chutado apenas uma vez na partida, o chupe foi forte e passou perto); João o fato de seu time sofrer apenas 1 chute ao gol (exagero para menosprezar o time adversário); Marcos que seu time ficou o tempo todo no ataque porque o jogo tava moleza (exagero para menosprezar o time adversário de tão ruim que foram).

      Agora vamos imaginar que você estava presente nesse jogo, daí você observou que o chute de José nem foi tão forte assim e nem tão parto da trave; João não teve muito trabalho para agarrar, embora, de fato, ele teve que segurar algumas vezes a bola, mesmo para fazer o tiro de meta e, como observador do jogo, você obviamente viu que não havia apenas 11, mas sim 22, e mesmo que Marcos tenha falado isso de forma simbólica, sarcástica, isso quer dizer, necessariamente, que ele exagerou um fato por tem um objetivo na mente, menosprezar os esforços do time oposto.

      Se, como você mesmo comparou, o relato dos Evangelhos sobre a Ressurreição é parecido com esse exemplo que você mencionou, no mínimo, podemos concluir que houve um exagero dependo da ÊNFASE, ou melhor, MOTIVAÇÃO dos escritores.

      Talvez se eu e você tivéssemos presenciado o relato, não veríamos anjo algum, terremoto algum, aparição nenhuma, mas, sendo eles cristãos, tinham uma motivação por trás do relato, que era mostrar que Jesus não era um simples homem e sim Filho de Deus, então, assim como no caso dos jogadores, eles exageram o relato, com elementos metafísicos.

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  2. Quantos anjos?
    Uma testemunha em um processo judicial pode afirmar ter visto duas pessoas na cena de um crime, enquanto que outra testemunha pode afirmar ter visto apenas uma. Estas afirmações não são contraditórias. Elas são complementares. Essa é a natureza de muitas das supostas contradições na Bíblia.
    Por exemplo: Em Mateus, lemos que Jesus encontrou dois homens cegos, enquanto que, em Marcos e Lucas, lemos sobre o encontro de Jesus com apenas um cego. Em Mateus e Marcos, lemos que Jesus foi orar sozinho, três vezes, no Jardim do Getsêmani; enquanto que, em Lucas, lemos que Jesus foi orar sozinho em apenas uma ocasião.
    Estas escrituras não são contraditórias, mas se completam.
    Clóvis, Cariacica, ES.

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    1. Então no mundo inteiro não existe mentira, o que existe são informações que se complementam.

      Um réu diz que de manhã tava em casa e no outro dia inventa outra história dizendo que estava no trabalho, dai no terceiro dia, ele diz que não estava se contradizendo, na verdade, os dois testemunhos são complementares, pois às 6 da manhã ele estava em casa, mas às 8 da manhã já tava no trabalho, e, dessa forma, ele podia dizer que estava em dois lugares no mesmo período, ou seja, pela manhã!

      Usando sua lógica, ninguém mente, nem se contradiz, as versões diferentes são informações que se complementam apenas.

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  3. Numa postagem em outra página, você falou que eu estava criando um novo evangelho ao dizer que “PODERIA” haver 3 anjos (NÃO DISSE “HAVIA”, DISSE “PODERIA”), então como o tema é desta página, resolvi escrever aqui:
    Mateus 28 “UM ANJO do Senhor, descendo do céu, chegou, removendo a pedra da porta, e SENTOU-SE sobre ela.”
    X
    Jo 20 “E viu DOIS anjos vestidos de branco, ASSENTADOS ONDE JAZERA o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés.”

    Se o anjo que estava assentado na pedra entrou e se ajuntou a outro anjo = 2 anjos;
    Se o anjo que estava assentado na pedra NÂO entrou + 2 interior = 3 anjos (logicamente possível)
    Conclusão: NÂO há exagero nenhum nessa “suposição”, a não ser que você queira afirmar que só havia 2 e que o que se assentou na pedra era um dos que estavam lá dentro. Aí eu te perguntaria: - Qual, o assentado na cabeceira ou aos pés?
    VOCÊ PODE ACREDITAR QUE SÃO HISTÓRIAS INVENTADOS, MAS NÃO AFIRMAR QUE SÃO CONTRADITÓRIAS!

    Já que você gosta tanto de precisão, a sua pergunta, que está errada, deveria ser: 1, 2 ou 3 anjos? Agora é você quem está se contradizendo.

    Clóvis, Cariacica, ES.

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    1. Havia dois, três, quatro, cinco, mil anjos... vocês cristãos e essa babel angelical, confusa, contraditória e cheia de discrepância. Vamos resolver esse problema: Havia uma hoste celestial inteira cantando guingogel!

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  4. Eu afirmo e re-afirmo, não há contradição!
    Pode ter havido acréscimo (você acredita) ou omissão (eu acredito); e nisso eu não discuto com você; mas contradição eu discuto. Por que suas afirmações são de "ACRÉSCIMO E SUA CONCLUSÃO É DE CONTRADIÇÃO". Você diz: "... então, assim como no caso dos jogadores, eles exageram o relato, com elementos metafísicos." = O mesmo que acrescentar
    Se você disser, na conclusão, que eles acrescentaram, será harmonioso com seu ponto de vista; mas, se disser que há contradição, não pode provar.

    MUITO ERRADA SUA ANALOGIA: Se ele disse que estava 6h em um lugar e 8h em outro, não há contradição em dizer que esteve em 2 lugares pela manhã. Sua analogia não se compara em nada com as narrativas da Bíblia. Ela diz, CLARAMENTE:

    Elas SAÍRAM quando ESCURO e CHEGARAM quando CLARO.
    Elas SAÍRAM quando ESCURO e CHEGARAM quando CLARO.
    Elas SAÍRAM quando ESCURO e CHEGARAM quando CLARO.
    A Bíblia diz que elas SAÍRAM quando ESCURO e CHEGARAM quando CLARO. Nisso não há contradição.
    Conclusão: Alguém pode falar que ela acrescenta, exagera, aumenta, inventa... mas que se contradiz, não.

    Clóvis, Cariacica, ES.

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    1. Você disse:

      A Bíblia diz que elas SAÍRAM quando ESCURO e CHEGARAM quando CLARO. Nisso não há contradição.

      Eu digo:

      Mentira! A Bíblia não fala da saída delas. Todos os 4 textos dizem quando elas chegaram. Em um estava escuro, em outro estava claro, etc, etc.

      Sua fábula cristã acrescenta, exagera, aumenta, inventa e acima de tudo SE CONTRADIZ. Não irei mais aprovar seus comentários nesse artigo aqui.

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  5. Você diz: “Um réu diz que de manhã estava em casa; e, no outro dia... que estava no trabalho; dai, no terceiro dia, ele diz que não estava se contradizendo; na verdade, os dois testemunhos são complementares, pois às 6 da manhã ele estava em casa, mas às 8 da manhã já estava no trabalho, e, dessa forma, ele podia dizer que estava em dois lugares no mesmo período, ou seja, pela manhã!”

    Analisando sua analogia:
    Primeiro dia: “Estava em casa de manhã” = OMITIU O TRABALHO
    Segundo dia: “Estava trabalhando de manhã” = OMITIU A CASA
    Terceiro dia: “Estava em casa às 6h e no trabalho às 8h da manhã” = SITOU A SITUAÇÃO COMPLETA.
    Ele pode até ter cometido algum crime e pode até ter mentido, mas não se “contradisse”. Ele teria cometido contradição se dissesse que esteve no trabalho e em casa ao mesmo tempo, 7h (exemplo).

    Conclusão: Não há contradição, há OMISSÃO/invenção. (È TÃO DIFÍCIL ASSIM ENTENDER?)

    Clóvis, Cariacica, ES.

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    1. Na analogia que eu criei a pessoa que estava dando o testemunho estava realmente mentindo e se contradizendo, eu que criei e eu sei o que meu personagem estava dizendo e querendo, pois foi uma criação minha. Mesmo se contradizendo, ele se safou, pois com criatividade e MUITA OMISSÃO, conseguiu se safar de uma clara contradição testemunhal.

      Postei isso para provar que um mentiroso pode muito bem, com bastante criatividade, explicar e conciliar suas contradições e o mesmo ocorre quando você tentam harmonizar os textos bíblicos.

      Não irei mais aprovar seus comentários aqui.

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