terça-feira, 30 de outubro de 2012

Esse texto é parte de um estudo mais longo e complementar. Caso você tenha chegado nesse blog diretamente por essa postagem, queira ver o contexto desse estudo em A Ressurreição — Uma Doutrina Central
3§ Contradições e Inconsistências do Relato

RESSURREIÇÃO, ESTUDO, RELATOPara todos aqueles que já viram, mesmo que através da televisão, o julgamento de alguém, é mais do que claro a importância do relato das testemunhas. Não obstante, para os do jure, é de suma importância atestar a credibilidade do que é dito e de quem o diz. Mas, como isso é feito? Bem, não nos cabe aqui abordar um assunto bastante debatido para os estudantes de Direito e da Psicologia Forense, que é o estabelecimento da confiabilidade do que está sendo dito pela testemunha em um tribunal. No entanto, mesmo para a grande maioria de nós, que não vive nesse meio legalista, não é segredo que um dos principais aspectos que podem comprometer a credibilidade de um testemunho em um tribunal é a consistência do relato.


“As palavras de uma testemunha estão entre as formas de evidência mais poderosas ouvidas em um tribunal de justiça americano. O depoimento da testemunha tem não só o poder de informar como também de influenciar as emoções dos jurados que estão ouvindo o caso e que finalmente serão os que darão o veredicto.” [EMBAIXADA-AMERICANA.org]
 
Quanto aos pontos relacionados a credibilidade de um testemunho, observa-se:

“Quando se analisa a credibilidade do testemunho, deve-se iniciar pelo fator denominado testemunhabilidade, isto é, o interesse despertado na comunidade diante da declaração da ocorrência de um fato. Altavilla demonstra que esse interesse termina gerando fenômenos correlatos e conseqüenciais, tais como a memoriabilidade (capacidade que o fato possui de se fazer recordar com precisão), a fidelidade (situação subjetiva gerada no espírito da testemunha, consistente na capacidade de reproduzir com exatidão o que soube) e a sinceridade (situação subjetiva da testemunha, que se expressa sem a intenção de enganar). Sob tais prismas, por vezes, “um depoimento sem lógica, contraditório, é considerado pouco fiel, porque se julga que a testemunha não se recorda bem, ou então insincero, ao passo que os testemunhos correntes dão uma impressão de fidelidade e de veracidade; e pode ser o contrário, provindo o primeiro de uma dificuldade em se exprimir, ou de um fenômeno de timidez, ao passo que a naturalidade do segundo pode derivar de uma hábil preparação” (Psicologia judiciária, v. II, p. 251-252).” [MIGALHAS.com.br]


Caro leitor(a), tenha em mente as seguintes palavras, “um depoimento sem lógica, contraditório, é considerado pouco fiel...”. Embora a questão da memorabilidade seja importante, deve-se lembrar que mesmo testemunhas fidedignas podem muito bem encontrar-se em aparentes inconsistências por causa da memória falha.

“Pode dar-se a situação do fato-objeto do testemunho não ser memorável, razão pela qual a pessoa que o presenciou, no contexto da memória naturalmente seletiva que possui o ser humano, afaste-o, relegando-o a um segundo plano. Por isso, nem sempre a testemunha que vacila ao responder às indagações feitas pelo juiz, omitindo situações relevantes, está agindo de má-fé. Por outro lado, em se tratando de fato digno de registro na memória, é possível que a testemunha esteja sendo fiel e sincera ao narrá-lo, embora entre em contradição e ofereça respostas desconexas. Não está mentindo, mas realmente não se recorda, por variadas razões, do que houve.” (Ibidem)


Apesar de isso ser bem verdade, devemos nos lembrar as palavras de Jesus em João 14:26, “...Mas o ajudador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar todas as coisas que eu vos disse.” Em outras palavras, a memória dos apóstolos seria “turbinada” com a atuação do Espírito Santo. Dessa forma, qualquer inconsistência ou contradição seria prova da inveracidade do testemunho, uma vez que eles não estavam contando apenas com a memória de forma natural e sim uma força sobrenatural trazendo à tona essas lembranças.

Quando várias testemunhas falam sobre determinado evento, a combinação destes pode demonstrar a veracidade e consistência do relato, ou a invenção imaginativa do mesmo.

““Assim, a discordância entre as versões da presumível vítima e do alegado agressor fazem com que muitas vezes se tenha que avaliar a credibilidade das declarações para se tomarem decisões judiciais (McGuire, 1998, citado in Matos, 2005), pois ao juiz interessa, antes de mais, que as declarações e confissões sejam sinceras e verdadeiras, já que não pode haver justiça sem a certeza dos factos que se julgam (Calabuig G., 2005).”” [p. 142. § 9.1]


Tendo essas informações em mente, nos perguntamos: Qual a credibilidade do testemunho dado da Ressurreição de Jesus Cristo?

Quando os primeiros cristãos começaram a testemunhar de que Jesus tinha ressuscitado dentre os mortos, este mesmo testemunho tinha como base os apóstolos. Eles eram testemunhas oculares, não da Ressurreição em si, mas de que Jesus estava vivo de novo. Quando Judas apostatou e fez-se necessário a ocupação do seu cargo, foi dito em Atos 1:21-22, “...Portanto, é necessário que dentre os homens que se reuniam conosco durante todo o tempo em que o Senhor Jesus entrava e saía entre nós, principiando com o seu batismo por João e até o dia em que dentre nós foi acolhido em cima, um destes homens se torne testemunha conosco de sua ressurreição...”.

Dessa forma, um dos requisitos para o apostolado era ter visto literalmente o Jesus Ressurreto, ser uma testemunha ocular do ministério até a Ascensão, principalmente da Ressurreição. Neste sentido, não se quer dizer que os apóstolos estavam todos ali perto do sepulcro quando o milagre da Ressurreição ocorreu, mas que eles viram o efeito posterior da ressurreição, ou seja, o Jesus vivo. — Cf. Testemunhas Oculares?

Na própria abordagem do testemunho da Ressurreição temos alguns problemas pendentes. Jesus, depois da escolha de Matias, estava novamente com doze apóstolos e depois o último apóstolo, Paulo, entra para completar esse time. (At. 1.23-26; 1 Cor. 15.3-8) Teríamos assim treze testemunhas oficiais e oculares da Ressurreição de Jesus Cristo. Apesar disso, os únicos relatos desse evento que temos estão nos quatro Evangelhos, onde desses quatro, apenas dois teriam sido de testemunhas oculares do Cristo vivo – Mateus e João. Os Evangelhos de Marcos e Lucas não são de testemunhas oculares, mas, segunda a tradição cristã, são de pessoas que receberam as histórias dos apóstolos (O Novo Testamento, Sua Origem e Análise, de Merril C. Tenney, p. 173 e 188-189.), embora não tenhamos como comprovar isso, porque tudo que se tem são tradições; alguém disse, que fulano falou, etc.

Para podermos analisar o testemunho evangelístico da Ressurreição, devemos primeiro levar em consideração a credibilidade das testemunhas, a consistência de suas palavras, a memorabilidade, dentre outras coisas. Suas contradições e inconsistências serão analisadas detalhadamente em postagens futuras.

Continuação: A Visita ao Túmulo — De Manhã ou Madrugada?


Um comentário:

  1. “Disseram-lhe, pois, os outros discípulos: Vimos o Senhor. Mas ele disse-lhes: Se eu não vir o sinal dos cravos em suas mãos, e não puser o meu dedo no lugar dos cravos, e não puser a minha mão no seu lado, de maneira nenhuma o crerei.
    ¶ E oito dias depois estavam outra vez os seus discípulos dentro, e com eles Tomé. Chegou Jesus, estando as portas fechadas, e apresentou-se no meio, e disse: Paz seja convosco.
    Depois disse a Tomé: Põe aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; e chega a tua mão, e põe-na no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente.”

    João 20:24-27

    Esta narrativa contrasta com a imagem do Santo Sudário em que não existem cravos nas mãos, pois foram feitas nos ossos do pulso. Os defensores do sudário argumentam que na palma das mãos elas se rasgariam e fariam o crucificado desabar da cruz. O que teria sido escrito em grego? Puslo ou a mão?

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