quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Introdução:
IMAGENS, ESTÁTUAS, ÍCONES, IMPORTÂNCIA, RELIGIÃO
Esse estudo apresenta-se como complemento de uma série de outros estudos que, juntos, objetivam dar-nos uma visão naturalista do mistério da Ressurreição de Jesus Cristo. Embora o presente artigo tenha sua importância informativa independente, sua real finalidade é contextualizar uma teoria futura que será apresentada em nosso blog.

§1. Imagens no Âmbito Religioso

Nada pode gerar mais reverência e espanto do que a manifestação do belo; isso fica bem evidente quando olhamos para uma bela pintura, ou uma escultura, e permanecemos admirados contemplando-a por horas. Para os antigos, a forma de “admiração” artística assumia um caráter religioso. Admiração e reverência eram conceitos religiosos ainda siameses.

Uma das coisas que principalmente me veem à mente é a religiosidade da própria escrita. O que poderia ser mais enigmático, e ao mesmo tempo belo, do que um conjunto de rabiscos que, quando juntos, formam uma mensagem que pode ser decodificada para o leitor? Não é de nos admirar que os egípcios tenham chamado sua escrita de hieróglifo, que significa literalmente “letras sagradas”, ou dos deuses.

Outra fonte de reverência religiosa entre os antigos era a própria beleza misteriosa da Natureza. O que poderia ser mais belo e ao mesmo tempo enigmático do que o sol ao pôr-se e levantar-se? O que poderia ser mais grandioso e inspirador do que o poder dos oceanos? O mistério da água, sem cor, sem forma, sem cheiro e essencial para a vida. Não é para menos que todos esses elementos e astros tenham sido deificados pelos povos da antiguidade.

Dessa forma, tanto a Natureza em si – como a arte – eram abraçadas religiosamente por inspirar grandeza, beleza e mistério. — Cf. Nature Worship.

Não era apenas a admiração pelo mistério da Natureza que levava essas pessoas a cultuá-la; na verdade, uma das principais coisas que, em geral, fomentava a religiosidade pela Natureza, como de peças artísticas – ou mesmo objetos “misteriosos” – era o conceito animista presente em todas as culturas, conceito esse que consiste em atribuir vida às coisas inanimadas. (ACSA, 2012) Assim, tudo possuía um caráter espiritual, todo e qualquer objeto podia habitar um entidade sobrenatural. Quando unimos o Animismo e a admiração religiosa, temos uma compreensão bem racional da mentalidade das pessoas em relação à suas contemplações da Natureza e Arte.

Isso se tornava mais notório no que diz respeito as imagens religiosas. Hoje, contemplamo-nas apenas por questões simétricas e artísticas, mas esse não era o caso na Antiguidade. As imagens religiosas, como as dos deuses gregos, desempenharam um papel muito importante nas religiões, não apenas antigas, mas também modernas.

Quase que instintivamente, vemos as imagens não como algo estático, mas como algo que vivifica alguém ou algo. É obvio que, mesmo no nosso século, onde buscamos racionalizar tudo, as imagens ainda estão muito mais do que vivas dentro de inúmeros templos búdicos, cristãos e hindus.

Parece que a ideia de que as imagens são a própria perpetuação, vivificação e deificação de pessoas pertence ao âmbito psicológico animista. Um exemplo disso é quando nós vemos alguém na TV e dizemos alguma coisa dirigindo-nos à ela, como se sua imagem fosse o próprio indivíduo a qual ela representa, ou quando alguém acaricia uma foto de uma pessoa amada, como se isso fosse tocar na própria pessoa. — FREEDBERG 1989, p. 73, DENNET 1987.


Mesmo na arte contemporânea, quando observamos, por exemplo, o quadro de Mona Lisa, que de tão perfeito faz-nos imaginar que ela está tão viva quanto qualquer um dos seus admiradores, e ainda parece sorrir amigavelmente.

Todas essas manifestações parecem ser características intrapsíquicas animistas engendradas desde nossa concepção materna.

Se esse é o impacto que as imagens têm sobre nós, imagine nos povos antigos! Isso fica bem nítido quando observamos o uso de imagens religiosas, sejam elas zoomórficas ou antropomórficas. Atribuir vida, poder e divindade às imagens parecia algo tão natural que, mesmo no sistema religiosos monoteísta abraâmico, vemos várias e várias vezes a introdução de imagens na adoração.

Quando Moisés liderou os hebreus para fora da terra do Egito, segundo o relato bíblico, eles haviam sido testemunhas oculares do poder salvador de Yahweh (Êxo. 9:13-16; 12:12), deus esse que, diferente de qualquer outro, havia dito que não se podia fazer dele imagens. — Êx. 20:4, 5; Dt 4:15-19.

Moisés sobe ao Monte Sinai para se encontrar com Yahweh e quando desce, encontra a multidão de hebreus cultuando uma imagem zoomórfica, um bezerro de ouro, a qual eles rotularam como sendo o próprio Yahweh. — Êx. 32:4

Por muitas e muitas gerações, dos profetas maiores aos menores, sempre houve uma grande luta para se erradicar a adoração de imagens de Israel; era como se a contemplação animista das imagens exercesse um fascínio incontrolável na mente dos antigos, conceito que hoje chamamos de feitiche.

Isso é algo tão instrínseco em nossa natureza, que o grande historiador da arte Richard Brilliant comenta perspicazmente:



“Eu também me sinto propenso a ávida contemplação de retratos romanos e de outros tipos, porque dão vida a figuras históricas, libertas das amarras da mortalidade [...] É como se as obras de arte não existissem em sua própria substância material, mas, em seu lugar, pessoas de verdade me olhassem do lado de lá, ou deliberadamente evitassem meu olhar: Rapidamente a ilusão se dissipa; e mais uma vez me vejo diante não de uma pessoa, mas da imagem de uma pessoa.” (Brilliant 1991, p.7)

Dessa forma, religiosos ou não, é fato inegável que as imagens tem um forte impacto em nossa mente.

§ 2 Representações Teofânicas de Yahweh

As Escrituras ensinam que Deus é “invisível” (Col. 1:15), que “ninguém nunca viu Deus” (Jo. 1:18a). Segundo a Teologia, isso ocorre porque “Deus é Espírito” (Jo. 4:24), substância essa imperceptível aos nossos olhos, além do fato dEle estar fora do plano material.

Não obstante, a Bíblia fala de algumas pessoas que, por assim dizer, viram a Deus. (eg.: Êx. 33:1; Dt. 34:10) Isso poderia ser mais uma das inúmeras contradições bíblicas, mas, na verdade, não é. Para compreendermos porquê alguns textos bíblicos falam que alguns homens viram a Deus, precisamos entender o que a Teologia rotulou de Teofania.

A palavra “teofania” é de origem grega e é primariamente composta por dois vocábulos, theos e phanero, que juntos, significam “manifestação divina”. Como Yahweh é grandioso demais, além de um Ser espiritual, Ele se manifestava através de coisas, ou representantes angélicos.

Yahweh se manifestou em uma sarça (Êx. 3:2), em um anjo (Gn. 12:1; 17:2), ou vários (Gn. 18:1-2), em um carvalho (Gn. 35:4; 8, veja: O Carvalho de Mambré), em tufões (Jó 38:1) e assim por diante. Tendo isso em mente, apesar de ser invisível, Yahweh podia ser visto em algumas situações quando Ele se manifestava por quaisquer desses meios.

Interessante notarmos que o contato divino com o objeto de sua manifestação tornava-o sagrado. Quando Yahweh se manifestou na sarça, o local em volta tornou-se sagrado, quando apareceu no Monte Sinai o local também tornou-se tal. — Cf. Êx. 3:5.

Mostrando a relação do objeto da manifestação e a própria entidade manifestada, lemos:

“Um ídolo é normalmente considerado tanto a própria deidade ou sua residência permanente; um feitiche é um objeto a qual tem sido dado poderes mágicos e divinos, tanto por ter sido o lar temporário da deidade ou porque foi formado ou manuseado, ou de qualquer outra forma espiritualmente influenciado por tal deidade.” (ISBE, ed. elet.)

O próprio teólogo católico romano Tomás de Aquino foi ao ponto de dizer:

“A mesma reverência deve ser mostrada tanto para uma imagem de Cristo como para com o próprio Cristo... Adora-se a Cruz da mesma maneira como se adora a Cristo, isto é, com a adoração de latria [definição católica para a mais alta forma de adoração], e por essa razão dirigimo-nos e suplicamos à Cruz do mesmo modo como o fazemos ao próprio Crucificado.” (A Sentinela, 1/8/88 pp. 4-5)

Esse ponto é de suma importância: O objeto pelo qual a entidade divina é manifestada, ou representada, é encarada como sendo a própria entidade. Por esse motivo, o objeto é reverenciado como sendo a própria materialização da entidade espiritual.

§3. Imagens no Judaímos.

Uma vez que o Animismo e a reverência religiosa pela Arte são coisas quase que naturais ao ser humano, os judeus não seriam uma exceção.

Como argumentado anteriormente, os vários profetas e escritores bíblicos relataram a luta de Israel para deixar de usar as imagens na adoração, bem como a adoração da Natureza. (Is. 10:11, 57:5; Jer. 14:22; 50:2) Dizer que os judeus eram 100% limpos do uso de imagens na vida sagrada é propagar um grande inverdade, embora a maioria faça isso devido à má interpretação do segundo Mandamento, que proibia fazer imagens em Israel. — Êx. 20:4.

Até tempos relativamente recentes, os hebreus não parecem ter tido nenhuma objeção religiosa em relação às imagens artísticas, como é provado, não só a partir da descrição do templo de Salomão, mas também a partir das descobertas do templo altamente condecorado de Yahweh em Siena datando do sexto século a.C, e das ruínas de sinagogas que datam dos períodos primitivos pré-cristãos e cristãos. (PEF, Janeiro, 1908; The Expositor, Dezembro, 1907; Expository Times, Janeiro e Fevereiro, 1908). Os Judeus não eram contra imagens artísticas ou religiosas, nem mesmo em relação à sacralidade delas. O problema estava em adorá-las no lugar de Yahweh.

Conclusão

É inegável a interpretação mística dada às imagens e sua importância religiosa na Antiguidade. Entender isso, e mais ainda, aceitar isso como um fato, é de suma importância para compreendermos uma das teorias mais espetaculares sobre a natureza da Ressurreição de Jesus.

Thomas de Wesselow, brilhante historiador da arte, argumentou em seu livro O Sinal que a imagem do Santo Sudário pode ser a chave para compreendermos as origens do Cristianismo e a fé que os primeiros cristãos tinham de que Jesus, de fato, ressuscitou dentre os mortos.

Outras postagens virão para esclarecer mais essa teoria. Por hora, basta-nos entender esse contexto místico-animista em relação às imagens que permeava a mentalidade das pessoas no passado.



6 comentários:

  1. Olá,

    Para min isto só mostra como as religiões podem ser perigosas e alienantes; a própria bíblia afirma:
    Exôdo 20:4 - Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra.
    Porém o que vemos por ai na maioria das “casas católicas” são imagens de santos e até do próprio Jesus crucificado.

    ResponderExcluir
  2. Respondendo ao Thomas de Wesselow:

    Dr. McCrone, em 1979, fez uma inspeção cuidadosa em milhares de fibras do linho, em 32 áreas diferentes de amostra do Sudário.

    Dr. McCrone e sua equipe atestaram: O Sudário é uma pintura bonita criada aproximadamente 1355 para uma igreja nova em falta de uma relíquia para atrair peregrinos.

    Não creio que o santo sudário possa ser a chave para alguma coisa !

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Seria muito infantil abordar um assunto polêmico como esse e apenas afirmar, "Dr. McCrone e sua equipe atestaram", como se Dr. McCrone e seus asseclas fossem a última palavra no assunto.

      Os que negam o Sudário partem de uma ideia pré-estabelecida de que Jesus nunca existiu. Cientistas de mente aberta, mesmo ateus e agnósticos, como Thomas, concluem de forma diferente e veem o sudário como apenas uma mortalha de um judeu crucificado.

      O capítulo IX e XIII do livro O Sinal argumentam fortemente sobre a autenticidade do Sudário. A autenticidade, por sua vez, apenas prova que Jesus existiu, coisa que até mesmo um dos maiores militantes do Cristianismo, Bart D. Ehrman, atesta em seu livro The Historical Jesus.

      Excluir
  3. Respostas
    1. De forma alguma... estava um pouco sem tempo e qualquer postagem aqui leva muito tempo em pesquisa.

      Excluir
  4. ok. continue! parabéns pelo empenho!

    ResponderExcluir

Antes de comentar, queira ler os artigos Critérios para se Aprovar Comentários e Respostas à Alguns Comentários. Obrigado pela visita e pela participação!

Comentarios Recentes

Compartilhe este Artigo

Delicious Digg Facebook Favorites More Stumbleupon Twitter

Search Our Site