domingo, 29 de julho de 2012

ABRAÃO, CARVALHO, MAMBRÉ, ÁRVOREAs árvores desempenharam um papel muito importante nos mitos ao redor do mundo e estas também deixaram sua marca nas páginas da Bíblia. Já comentamos aqui, no Por Que Não Creio, sobre esse assunto quando nos focalizamos sobre o mito da Árvore da Vida no Jardim do Éden. (cf. AVOM, 2011) Nessa postagem, contudo, abordaremos os mitos em relação às árvores no uso religioso, bem como o conceito animístico que permeia essa ideia.

O animismo é considerado a forma mais antiga de religião, quando o ser humano via todas as coisas em seu redor como habitadas por entidades espirituais, i.e, deuses. (cf. ACSA, 2012) Embora a visão animística esteja relacionada obviamente à qualquer coisa, os antigos povos da Mesopotâmia viam o carvalho como uma forma acima das demais.

Na mitologia grega, o carvalho é a árvore sagrada de Zeus, rei dos deuses. No oráculo de Zeus em Dodona, Epiro, o carvalho sagrado era a peça central do recinto, e os sacerdotes proclamavam os pronunciamentos do deus por interpretar o ruído das folhas do carvalho. [1]

Na mitologia Báltica, o carvalho é a árvore sagrada de Latvian Pērkons. Pērkons é o deus do trovão e uma das divindades mais importantes do panteão Báltico. No politeísmo Céltico, o nome do carvalho era parte da palavra proto-celta para ‘druida’: *derwo-weyd- *druwid-, no entanto, proto-celta *derwo- (e *dru-) também pode ser adjetivos para “forte” e “firme”, de modo que pode significar “forte conhecimento”. Como em outras crenças indo-europeas, Taranus, sendo um deus do trovão, foi associado com o carvalho. [2]

Na mitologia nórdica, o carvalho era sagrado para o deus do trovão, Thor. O carvalho de Thor era uma árvore sagrada da tribo germânica Chatti. Segundo a lenda, a cristianização das tribos pagãs de São Bonifácio foi marcada pelo carvalho ter sido substituído pelo abeto (cujo formato triangular simboliza a Trindade), como uma árvore “sagrada”. [3]

Na mitologia celta, o carvalho é a árvore das portas, que se acredita ser um portal entre os mundos, ou um lugar onde portais poderiam ser erguidos. O carvalho de Thor era uma árvore sagrada da tribo germânica Chatti. Sua destruição marcou a cristianização das tribos pagãs pelos francos. Na mitologia clássica, o carvalho era um símbolo de Zeus e sua árvore sagrada. Um exemplo é o oráculo de Dodona, que na pré-história consistia unicamente de um carvalho sagrado. Os druidas consideravam o carvalho tendo tanto significado místico e medicinais (Schönbeck e Frey, 2005). Segundo a lenda, a mesa redonda do rei Arthur foi feita a partir de uma lasca enorme de uma árvore de carvalho antiga (Schönbeck e Frey, 2005).[4]


Obviamente que, como os textos bíblicos pertenciam à povos antigos, estes também sustentavam o mesmo pensamento sobre a divindade no carvalho. Tome, por exemplo, o texto de Gênesis 12:6-8, que diz:

E passou Abrão por aquela terra até ao lugar de Siquém, até ao carvalho de Moré; e estavam então os cananeus na terra. E apareceu-o Yahweh a Abrão, e disse: À tua descendência darei esta terra. E edificou ali um altar a Yahweh, que lhe aparecera. E moveu-se dali para a montanha do lado oriental de Betel, e armou a sua tenda, tendo Betel ao ocidente, e Ai ao oriente; e edificou ali um altar a Yahweh, e invocou o nome de Yahweh.


A aparição de Yahweh a Abraão se dá em conexão com o Carvalho de Moré. Os carvalhos já tinham um caráter místico e animista no Oriente Médio, também relacionado com os oráculos divinos. É justamente perto do carvalho de Moré que Yahweh declara sua profecia (oráculo) de que daria aquela terra para Abraão. Essa, no entanto, não é a única referência ao carvalho de forma divinizada; de fato, muitos outros versículos bíblicos mencionam essa árvore tida como sagrada.

Quando Jacó deixou a terra de Labão levando consigo os deuses pagãs, somos informado: “Então deram a Jacó todos os deuses estranhos, que tinham em suas mãos, e as arrecadas que estavam em suas orelhas; e Jacó os escondeu debaixo do carvalho que está junto a Siquém.” (Gn. 35:4) Escrituristicamente, podemos dizer que já na segunda geração da família de Abraão o mesmo carvalho ainda era reverenciado. Depois desses eventos, lemos que “morreu Débora, a ama de Rebeca, e foi sepultada ao pé de Betel, debaixo do carvalho cujo nome chamou Alom-Bacute.” (Gn. 35:8)

Esse costume não ficou restrito apenas aos personagens mencionados. O hábito de reverenciar o carvalho como uma manifestação de Yahweh foi continuado. O estrategista militar Josué continuou esse costume animístico de atribuir divindade à árvore: “E Josué escreveu estas palavras no livro da lei de Deus; e tomou uma grande pedra, e a erigiu ali debaixo do carvalho que estava junto ao santuário de Yahweh.” (Jos. 24:26)

Outras manifestações de Yahweh no carvalho são mencionadas nas páginas do Antigo Testamento. A teofania feita a Gedeão é assim descrita: “Então o anjo de Yahweh veio, e assentou-se debaixo do carvalho que está em Ofra, que pertencia a Joás, abiezrita; e Gideão, seu filho, estava malhando o trigo no lagar, para o salvar dos midianitas.” (Jz. 6:11) Interessante que, para eliminar a conexão mitológica do carvalho, a Nova Versão Internacional traduz o vocábulo אלון (heb.: 'êlôn) por “grande árvore” ao invés de “carvalho” e o mesmo faz a versão King James e a Tradução do Novo Mundo. Interessante notarmos que a palavra אלהים (heb.: 'elôhıym) “Deus” e אלון (heb.: 'êlôn) “carvalho” ambas veem da mesma raíz איל (heb.: 'ayil), que por último vem de אוּל (heb.: 'ûl) e significa “poderoso”, “prominiente”, “nobre”. Talvez o tamanho dos carvalhos inspirasse reverência nos antigos e consequentemente sua atribuição à divindade.

Em conexão com essa teofania que acabamos de mencionar, vemos uma das declarações bíblicas mais claras do animismo, pois depois da manifestação de Deus no carvalho, somos informados que “entrou Gideão e preparou um cabrito e pães ázimos de um efa de farinha; a carne pós num cesto e o caldo pós numa panela; e trouxe-lho até debaixo do carvalho, e lho ofereceu.” – Jz. 6:19.

Um outro papel que estas árvores desempenhavam era como portal entre os dois mundos, o material e o espiritual, ou os céus e a terra. Nesse contexto, lemos que “Absalão se encontrou com os servos de Davi; e Absalão ia montado num mulo; e, entrando o mulo debaixo dos espessos ramos de um grande carvalho, pegou-se-lhe a cabeça no carvalho, e ficou pendurado entre o céu e a terra; e o mulo, que estava debaixo dele, passou adiante.” (2Sm. 18:9) Observamos aqui que a o “grande carvalho” era como um portal “entre o céu e a terra”.

Eventos e pessoas importantes estão relacionadas com o carvalho divino: “E foi após o homem de Deus, e achou-o assentado debaixo de um carvalho, e disse-lhe: És tu o homem de Deus que vieste de Judá? E ele disse: Sou.” (1Rs. 13:14) “Então se ajuntaram todos os cidadãos de Siquém, e toda a casa de Milo; e foram, e constituíram a Abimeleque rei, junto ao carvalho alto que está perto de Siquém.” (Jz. 9:6) “Então todos os homens valorosos se levantaram, e tomaram o corpo de Saul, e os corpos de seus filhos, e os trouxeram a Jabes; e sepultaram os seus ossos debaixo de um carvalho em Jabes, e jejuaram sete dias.” (1Cr. 10:12)

Como a Bíblia é um produto de várias penas, várias mentes e teologias, sabemos que os conceitos judaicos foram mudando com o tempo, e assim os livros bíblicos posteriores começam a se colocar contra a religiosidade relacionada ao carvalho, quando ouvimos essa admoestação:

“Então sabereis que eu sou Yahweh, quando os seus mortos estiverem no meio dos seus ídolos, em redor dos seus altares, em todo o outeiro alto, em todos os cumes dos montes, e debaixo de toda a árvore verde, e debaixo de todo o carvalho frondoso, no lugar onde ofereciam cheiro suave a todos os seus ídolos.” (Eze 6:13)


E depois:

“Sacrificam sobre os cumes dos montes, e queimam incenso sobre os outeiros, debaixo do carvalho, e do álamo, e do olmeiro, porque é boa a sua sombra; por isso vossas filhas se prostituem, e as vossas noras adulteram.” (Os. 4:13)


Mas, apesar dessa pequena mudança de pensamento isolado, isolado, digo eu, porque se o profeta protestava contra a adoração do carvalho era porque ainda havia pessoas que o consideravam sagrado, é digno de nota que as árvores ainda continuaram tendo seu papel dos símbolos bíblicos, como podemos ver na figueira (Jo. 1:48) e na árvore da vida do livro de Apocalipse. (Ap. 22:1-3)

Não fico surpreso quando vejo antigos personagens bíblicos relacionando o carvalho, ou qualquer árvore que fosse, com Yahweh, pois, tendo uma mentalidade naturalista, era somente isso que poderia esperar. Abraão, Isaque, Jacó, Josué e todos os outros eram apenas indivíduos que viviam em uma sociedade e como tais, eram produtos dela. Moisés, criado em toda sabedoria dos Egípcios (At. 7:22), que inclui principalmente a religião, sabia do valor sagrado das árvores, Abraão, nascido e criado em Ur dos Caldeus (Gn. 11:28), desde criança sabia da religião que seus conterrâneos praticavam, tinha conhecimento da santidade do carvalho e de todos os outros conceitos mitológicos aos quais a sociedade arcaica era baseada.

O problema sempre está com os defensores da inerrância e superioridade cristã, que acham que esses homens, por terem uma relação especial com a divindade javista, eram pessoas bem à frente de seu tempo, que eles não tinham nenhum conceito pagão, que embora vivessem em um mundo onde todas as civilizações eram regidas pelo animismo e pelos inúmeros conceitos mitológicos, eles eram protegidos de alguma forma por Deus, pois todos os seus conceitos sobre a vida, a ciência, a teologia, a moral e a cultura eram revelações do único Deus verdadeiros, colocando-os como um tipo de raça ariana em sentido espiritual.

Não obstante, quando colocamos e analisamos essas pessoas dentro dos seus respectivos contextos, com seus escritos e suas culturas, observamos que eles não eram nenhum um pouco diferentes de seus contemporâneos, que seus conceitos teológicos, cosmológicos, cosmogônicos, éticos e qualquer outro eram os mesmos, ou pelo menos influenciados pelas inúmeras culturas as quais os rodeavam.

Eles criam que a terra estava suspensa sobre as águas (cf. Jó 28:7b), que a terra é um prato e o céu um círculo (cf. Isaías 40:22a) sustentada sobre pilares (Jó 9:6b) e que a terra era o centro, tendo o sol orbitando em sua volta. (Josué 10:12-14) E, além disso, eram animistas, como os demais povos antigos, por crerem que Yahweh habitava nos grandes carvalhos.

Estes homens e escritores não estavam errados ao pensarem assim, pois essa era a forma que todo mundo pensava em seu tempo, e por quais motivos deveriam ser diferentes? A única coisa errada é a interpretação cristã de que todos os conceitos bíblicos refletem a verdade última, pura, imutável e inabalável sobre o mundo à nossa volta desde os tempos antigos.

Notas e Referências

[1] Frazer, James George. 1922. The Golden Bough. Chapter XV: The Worship of the Oak, acessado dia 29.07.2012.
[2] Taylor, John W. (1979). Tree Worship in Mankind Quarterly, Sept., pp. 79-142.
[3] Von Staufer, Maria. The Chronological History of the Christmas Tree. The Christmas Archives
[4] New World Encyclopedia, acessado no dia 29.07.2012
Mythencyclopedia.com, acessado no dia 29.07.2012.
Wikipédia, acessado no dia 29.07.2012.
Trees and the Sacred, acessado no dia 29.07.2012.

4 comentários:

  1. Olhai os lírios no campo (ou Olhai os pássaros no céu)

    A Bíblia diz que houve fome na terra prometida que Abraão havia se estabelecido em Canaã e que, por causa disso, o patriarca e todo o seu acampamento retirou-se para o Egito.

    Lá, sob a divindade do Egito, havia abundancia e jamais tivera um dilúvio. Para não morrer de fome e miséria Abraão prostitui sua esposa com o faraó. É a primeira de muitas vezes que o povo de Abraão se socorre dos deuses do Egito para não morrerem de fome.

    Comparando as realizações no mundo promovido pelo Deus de Abraão se constata que aqueles que não vivam sob sua proteção viviam mais bem inspirados e em abundância do que os seus descendentes. A não ser fundarem a terá dos genocídios gozosos e do ódio eterno, nenhuma coisa pode ser invejada. Depois da cristianização do Império Romano se seguiu-se 1000 anos de trevas no ocidente.

    Maravilhas do mundo antigo. .1 Pirâmide de Quéops; .2 Jardins suspensos da Babilônia; .3 Estátua de Zeus em Olímpia; . 4 Templo de Ártemis em Éfeso; 5 Mausoléu de Halicarnasso .6 Colosso de Rodes; 7 Farol de Alexandria
    Os representantes mais comuns das sete maravilhas da Idade Média são:3
    • Stonehenge
    • Coliseu de Roma
    • Catacumbas de Kom el Shoqafa
    • Torre de Porcelana de Nanquim
    • Muralha da China
    • Torre de Pisa
    • Basílica de Santa Sofia
    Mundo moderno
    • Necrópole de Gizé (título honorário)
    • Grande Muralha da China
    • Petra
    • Coliseu
    • Chichen Itza
    • Machu Picchu
    • Taj Mahal
    • Cristo Redentor

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  2. SE DEUS É POR NÓS, QUEM SERÁ CONTRA NÓS? Romanos 8:31
    .
    Ao chegar no Egito, Abraão temeu que viesse a ser morto por causa da beleza de sua mulher e por isso combinou com ela que dissesse aos egípcios que seria sua irmã, não esposa.
    Assim, o faraó veio a apaixonar-se por Sara e a levou para o seu palácio, passando a favorecer Abraão.
    .
    No capítulo 20 de Gênesis, Abraão parte de Hebrom para Gerar, que estaria situada entre Cades e Sur, região que corresponde à terra dos filisteus.
    Temendo a Abimeleque, rei de Gerar, Abraão novamente comete o mesmo erro praticado quando esteve no Egito e diz que Sara seria sua irmã. Abimeleque apaixona-se por Sara e a toma de Abraão.

    Interessante que Deus fala com o faraó (qual?) e Abimeleque e estes devolvem Sara e o pagamento pelo uso. Mas quando quer libertar o seu povo do cativeiro de Egito Deus fala com Moises e não com o faraó (qual?). Deus teria perdido poder de se fazer entendido? Mas chama a atenção que Abraão não confiava no poder de Deus ao ponto de prostituir a sua esposa para não ser morto.

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  3. Não creio em vc Eduardo

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