domingo, 15 de julho de 2012

A Harmonia da Bíblia Prova da Inspiração?

por Eduardo Galvão

Estudo sobre a Harmonia da BíbliaQuando eu era cristão, uma das coisas que mais me convenciam da inspiração bíblica era sua unicidade, sua harmonia textual. A forma como cada capítulo bíblico contribuía para o seguinte, de como cada livro contextualizava o próximo, e como o Antigo Testamento lançava as ideias centrais para o Novo Testamento. Tudo isso era prova, incontestável que a Bíblia só poderia ser de origem divina.

Praticamente todas as correntes teológicas do Cristianismo concordam com as seguintes afirmações:

“Sessenta e seis livros, dois testamentos, uma só Bíblia. É isso que se encontra quando estudamos a Palavra de Deus. A despeito de toda a diversidade presente na Bíblia, é impossível deixar de perceber toda a unidade que se encontra em suas páginas. [...] A unidade da Bíblia se deve ao seu autor divino.” (DOCKERY, p. 46)
“Para a maioria de nós, [a Bíblia] é, na verdade, muitos livros – uma biblioteca de sessenta e seis livros [...]. Em certo sentido, isso é verdade; mas ao mesmo tempo é algo enganador, pois a Bíblia é, de alguma forma, um único livro – um livro singular de uma fonte singular.” (CHRISTENSEN, p.1)
“A unidade indestrutível e coerência das Escrituras... é uma doutrina bíblica fundamental.” (COLERIDGE, p. 125)
“Uma edição da Bíblia em vários volumes, com um destinado à Gênesis, outro para o Êxodo, e assim com toda a Bíblia, nos ajuda a perceber que ela é uma biblioteca, não apenas um volume. No entanto, apesar de todas esses sessenta e seis livros, existe uma unidade real que passa por ela, de Gênesis ao Apocalipse, constituindo uma das características mais impressionantes conectadas com a nossa crença na Bíblia como a Palavra de Deus.” (THOMAS, p. 67)

Um argumento que eu usava bastante para convencer as pessoas as quais eu pregava, de que a harmonia da Bíblia constituía prova da influência divina, era por meio dessa analogia:

Imagine que um professor, diante de uma sala com 40 alunos, pede para que cada um faça uma redação sob o tema “Deus” e a “Salvação”. Depois que cada aluno entregasse seu texto, o professor iria juntar e fazer deles um livro. Será que o livro seria harmonioso? Lógico que não. Pois cada um dos 40 alunos tinha formações diferentes, visão de mundo diferente, conhecimento e conceitos religiosos diferentes. Esse livro, com certeza, não teria nem um pouco de harmonia. Mas se, ao final, houvesse uma perfeita harmonia, então teríamos um verdadeiro milagre!

Da mesma forma, a Bíblia foi escrita por cerca de 40 homens,[1] pessoas de posições diferentes, formação diferente, que nunca se conheceram e, no entanto, os 66 livros, quando juntos, formam um único livro harmonioso, a Bíblia Sagrada. A única explicação para esse feito é se os 40 homens tivessem sido influenciados por uma única mente, nesse caso, Deus. Uma única pessoa - o Criador - inspirou os 40 homens a escrever Seus pensamentos e, dessa forma, sendo o trabalho de uma única Mente perfeita, ela seria coerente do início ao fim.

Quando eu usava essa analogia, dificilmente as pessoas não ficavam impactadas com o argumento. Na verdade, como mencionei, essa mesma ideia alimentava minha própria fé de que a Bíblia é um livro divino.

Com o passar do tempo, fui percebendo que a lógica dessa analogia estava errada, com base na historiografia da composição literária bíblica. As Escrituras Sagradas não foram produzidas ao mesmo tempo, simultaneamente, por 40 homens, que nunca se conheceram e tinham formações diferentes. Ela foi escrita aos poucos. Primeiro foi escrito o Pentateuco (DORCKERY, p. 144), os cinco primeiro livros, décadas depois vieram os outros livros do A.T, alguns até mesmo séculos depois. Seus escritores tinham a mesma formação religiosa, cultural (Cf. Romanos 3:2) e por décadas já liam os livros anteriores.

Isso explica a aparente harmonia bíblica. Um judeu escreve os cinco primeiros livros, que serão lidos e memorizados por décadas e décadas à frente, dentre esses leitores e praticantes da religião judaica surge o próximo escritor, que traz sua mensagem à luz do que está escrito nos livros anteriores. Uma vez que a apostasia não era tolerada em Israel, sendo passiva de pena capital (Cf. Deuteronômio 13:6-11), triste seria do profeta que não escrevesse seu livro em harmonia com os anteriores, que já tinham sido estabelecidos como canônicos.[2]

Como a Bíblia foi escrita pausadamente, em intervalos de décadas e até séculos, cujos escritores faziam parte da mesma religião (judaica) e ainda teve o texto revisado por meio de várias cópias, aquela analogia feita no início do artigo não serve para representar a produção textual da Bíblia. Na verdade, a analogia correta seria a seguinte:

Imagine que um professor, diante de uma sala com 40 alunos, que possuem a mesma formação, cultura e religião, pede para que cada um faça uma redação sob o tema “Deus” e a “Salvação”. Essas redações iriam seguir uma ordem. O primeiro aluno escreve, o segundo lê com bastante atenção e dá continuidade, e isso até chegar ao quadragésimo aluno.

Depois que o último aluno entregasse seu texto, o professor iria juntar, revisar, fazer algumas pequenas alterações e publicar como livro. Nesse caso, será que o livro seria harmonioso? Lógico que sim! Pois, todos fazem parte da mesma religião, todos fazem parte da mesma cultura e cada um escreveu com base no que o anterior pôs por escrito e qualquer diferença foi excluída durante a revisão.

Será que esse texto poderia, mesmo assim, possuir contradições? Com certeza, tanto quanto a Bíblia, que, por mais harmônica que pareça, também possui diversas contradições e discrepâncias!

Como podemos explicar a harmonia entre o Antigo e o Novo Testamento? Essa é mais simples ainda. Os escritores do Novo Testamento apenas buscavam dar interpretações que se encaixassem com seus novos conceitos teológicos e isso qualquer pessoa consegue fazer, sendo inteligente e tendo criatividade.

Da mesma forma que ufólogos conseguem encontrar supostas menções à discos voadores na Bíblia e convencer milhares de pessoas (Cf. Bible and Ufo Connection), os cristãos também conseguiram achar supostas alusões à Jesus Cristo, Sua morte e Ressurreição no Antigo Testamento. (EHRMAN, 2010, p. 252-253)

Os humanos conseguem fazer coisas assombrosas, na arte, na música e em qualquer outro ramo, como na literatura. A aparente harmonia bíblica é um excelente feito literário, apesar de possuir suas contradições. Todo mundo é perfeito de longe, de perto é que notamos suas falhas; a Bíblia, como um produto literário humano, pode ser vista como perfeita, a grosso modo, com sua incrível “harmonia”. No entanto, ao analisarmos de perto, percebemos suas imperfeições que, de forma alguma, faz perecer sua beleza literária, embora desnuda de qualquer inspiração divina.

_________________________
NOTAS

[1] Essa é a visão tradicional, mas hoje entre os eruditos modernos é consenso que os textos bíblicos são combinações de textos de vários e vários escritores que foram juntando, revisando, corrigindo e acrescentando suas ideias até tomar a forma que temos hoje. (Cf. Authorship of the Bible) “Praticamente todos os eruditos modernos concordam que, assim como os outros livros do Pentateuco, [Genesis] é uma composição de várias fontes, encorporando tradições que ecoam, em alguns casos, até Moisés.” (Metzger’s Introduction to Genesis, Reader’s Digest Condensed Bible).
[2] Outra forma de harmonizar os textos bíblicos é o acréscimo textual. Muitos escribas judeus e cristãos quando copiavam os textos bíblicos e percebiam suas contradições mudavam os textos para que se harmonizassem. (EHRMAN, 1996)



Bibliografia

EHRMAN, Bart D. O Problema do Sofrimento, Rio de Janeiro, Agir, 2008.
______. Quem Jesus Foi? Quem Jesus Não Foi?, Rio de Janeiro, Ediouro, 2010.
______. The Orthodox Corruption of Scripture: The Effect of Early Christological Controversies on the Text of the New Testament, Oxford University Press, USA (February 29, 1996)
DOCKERY, David S, Manual Bíblico Nova Vida, São Paulo, Ed. Vida Nova, 2010.
CHRISTENSEN, Duane L. The Unity of the Bible: Exploring the Beauty and Structure of the Bible, New Jersey, Paulist Press, 2003.
THOMAS, W.H. Griffith, How We Got Our Bible: And Why We Believe It Is God's Word, Chicago, Illinois, Moody Press, 1928.
PFEIFFER, Charles F., VOS, Howard F., REA, John, Wycliffe Bible Dictionary, Hendrickson, 2001.

13 comentários:

  1. Caro Eduardo, você parece a "Navalha de Occam" em ação. Já intentei a desconstrução dessa pseudounicidade perseguindo outra via - que nem convém mencionar aqui. Reconheço que o seu argumento é mais direto e, assim, muito mais eficaz - até porque é plenamente acessível aos interessados. Congratulações.

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  2. Eduardo, sou o que pode-se chamar de ateia. Cresci em lar evangélico e busco respostas para minhas "dúvidas" sobre a existência de Deus ( não só Jesus mas qualquer Deus/Divindade) desde os 8 anos de idade. Encontrei muitas contradições na Bíblia, muita violência, intolerância, crueldade e outras coisas que não são compatíveis ao Deus de amor que os evangélicos tanto pregam!
    Este ano comecei a ler o Alcorão. Não posso dizer o que conclui dele, ainda estou nas primeiras páginas.Comecei no ano passado a leitura do Bhagavad Gita mas tive que parar.
    Respeito todas as religiões e sou absurdamente contra a intolerância. Também não gosto de zombações que se baseiam na crença de outras pessoas e foi justamente por isso que gostei tanto do seu Blog.
    Você não precisa humilhar ou menosprezar ninguém para defender seu ponto de vista, você simplesmente argumenta. Te parabenizo por isso e espero que continue argumentando e mostrando seu ponto de vista!
    Estou passando por um momento difícil, sou ateia mas não posso dizer, minha família é muito intolerante, creio que ninguém aceitaria. Quando entrei na faculdade disseram pra minha mãe que ela deveria me vigiar já que a faculdade faz com que muitas pessoas se desviem. O que eles não sabem é que eu não acredito em Deus há quase dez anos, mas como dizer isto agora? Joguei um verde pra minha mãe e ela ameaçou me proibir de frequentar a faculdade caso eu saísse da igreja...
    Perdoe-me fazer este "desabafo" mas eu gostaria de saber como foi a reação de sua família e amigos quando souberam que você já não pensava como eles.
    Obrigada pela atenção, Gabrielle!

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    1. Olá Gabrielle, parabéns pela coragem. Sei que é bastante delicado isso, mas nessa caso sempre depende da situação em que a pessoa se encontra. Eu já era independente da minha família, portanto, mesmo que eles não concordassem, nada podiam fazer para me impedir de pensar assim. Quando abandonei a religião das Testemunhas de Jeová minha mãe chorou bastante, mas toda mãe deseja ver o filho feliz e ela via que eu não estava feliz naquele sistema religioso e hoje ela aceita naturalmente tudo.

      Se quiser conversar mais sobre isso, me add no Facebook: Eduardo Galvão Junior.

      Abç!

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  3. Eduardo, creio que há um engano em sua análise em menosprezar a harmonia e a inspiração divina das Sagradas Escrituras. A sua afirmação a seguir não procede:

    "triste seria do profeta que não escrevesse seu livro em harmonia com os anteriores, que já tinham sido estabelecidos como canônicos."

    Ou seja, os profetas do Novo Testamento se atreveram, sim, a escrever as mensagens do Novo testamento contra a vontade da maioria dos judeus, contrariando o que vc disse anteriromente. É claro que, sendo o estudioso que vc é, provavelmente a informação de que os judeus não reconhecem o Novo Testamento é do seu inteiro conhecimento. Todavia a harmonia entre os livros é indiscutível e inabalável. Portanto, repito, não haveria Novo Testamento seguindo este raciocínio de que os profetas posteriores eram ameaçados a escrever mensagens de acordo com a religião judaica .

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    1. “Ou seja, os profetas do Novo Testamento se atreveram, sim, a escrever as mensagens do Novo testamento contra a vontade da maioria dos judeus, contrariando o que vc disse anteriromente. É claro que, sendo o estudioso que vc é, provavelmente a informação de que os judeus não reconhecem o Novo Testamento é do seu inteiro conhecimento. Todavia a harmonia entre os livros é indiscutível e inabalável. Portanto, repito, não haveria Novo Testamento seguindo este raciocínio de que os profetas posteriores eram ameaçados a escrever mensagens de acordo com a religião judaica”.

      R.: A Bíblia é dividida em duas partes. Quando falei o acima, me referi ao AT. Os escritores do AT já liam, e estudavam os livros já existentes há tempos, escrever algo em harmonia não era um milagre. Os escritores do NT já liam e reverenciavam o AT há muito tempo e eles escreveram algumas coisas em harmonia – cumprimento de profecias em Jesus – e outras coisas diferentes, como a soteriologia. E sim, quase não houve mesmo NT, porque os cristãos eram vistos como rebeldes, apostatas que falam contra Moisés e os profetas escrevendo coisas deturpadas; basta uma rápida leitura em Atos para ver o sofrimento de Paulo. Os judeus até hoje consideram o NT uma deturpação e, por eles, esta parte da Bíblia nunca teriam vindo à existência.

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    2. Na verdade existem algumas brechas no seu argumento: alguns livros do VT e do NT foram escritos por pessoas diferentes que viveram na mesma época e nunca se conheceram. Ou seja, também não conheciam o conteúdo que estava sendo feito pelo outro. Você também subestima a dificuldade na reprodução dos conteúdos (a primeira Bíblia foi impressa por volta de 1490). A menos que você acredite que havia e-mail naquela época, o que também é um direito seu.
      A verdade é que quando uma pessoa não quer acreditar, é possível buscar qualquer argumento. A maior prova da inspiração divina na Bíblia é a transformação e a regeneração de milhares de pessoas diariamente no mundo. De qualquer forma, a Bíblia deixa bem claro como devemos nos preparar em 2 Coríntios 3:6 - "Ele nos capacitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do Espírito; pois a letra mata, mas o Espírito vivifica."
      Ah, esse Espírito com caixa alta é o Espírito Santo, tá? Mas pode acreditar no que você quiser.

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  4. A maior prova da deturpação foi a vinda de um messias para os gentios e não o esperado do povo escolhido. Um messias que resultou na eleição dos Romanos como o novo povo escolhido e a transferência para Roma a casa de Deus. Jerusalém foi varrida pelo novo povo escolhido e o templo prometido de ser reerguido em três dias nunca o foi por dois mil anos. (João 2:19-21 - Jesus respondeu, e disse-lhes: Destruí este templo e em três dias o levantarei.) O povo escolhido é perseguido há dois mil anos sem refresco. Como, por sinal, já era antes. O reerguimento do Templo é apenas um das promessas jamais cumpridas por Jesus. Seus seguidores jamais tiveram poder de curar, de ressuscitar os mortos, de ter o poder alegado no papel, que ele possuía. Basta ver a história vergonhosa dos papas romanos.

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    1. Que distorção, cara! "Mas o templo do qual ele falava era o seu corpo.
      Depois que ressuscitou dos mortos, os seus discípulos lembraram-se do que ele tinha dito. Então creram na Escritura e na palavra que Jesus dissera.
      João 2:19-22"

      "Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam.
      Contudo, aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus,
      João 1:11,12"

      Os sinais em Marcos 16 são para os Onze, para quem Jesus estava falando, seus interlocutores. Não dá pra universalizar isso, nenhum papa estava presente. Além de que não vejo nada que leve a crer que um papa seja superior a qualquer outro cristão. Roma se auto elegeu como nova "Terra Santa", infelizmente...

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  5. Mordaz, como vc anda lendo a bíblia?! Apressadamente para debater com os cristãos?! Vc tá falando de um templo físico ou espiritual?! A bíblia é bem clara ao dizer no verso 21 a que templo Jesus estava se referindo, passou despercebido ou o que?!

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  6. “16 E disse aos que vendiam pombas:
    — Tirem tudo isto daqui! Parem de fazer da casa do meu Pai um mercado!
    17 Então os discípulos dele lembraram das palavras das Escrituras Sagradas que dizem: “O meu amor pela tua casa, ó Deus, queima dentro de mim como fogo.”
    18 Aí os líderes judeus perguntaram:
    — Que milagre você pode fazer para nos provar que tem autoridade para fazer isso?”
    Está claro que se referia ao templo físico, de material, em que estavam discutindo, não de si próprio, ao mundo imaginário. Ninguém o estava ameaçando.
    Mesmo que se distorça os fatos, Jesus não ergueu a sim mesmo nem em três dias nem em dois mil anos. Não apareceu para ninguém que prometeu, aqui então. Se manteve oculto totalmente.
    "Jesus não perdeu tempo e replicou: “Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram”João, no capítulo 20, versos 26 a 30,." escreve o evangelista desconhecido para se desculpar que ele nunca mais voltou.

    A não ser nas América: O Livro de Mórmon descreve o modo como, durante Sua visita, Jesus Cristo curou os enfermos, ensinou Seu evangelho, abençoou as crianças e chamou doze discípulos para organizar Sua Igreja nas Américas (3 Néfi 11:18; 3 Néfi 12:1–2).
    Bem aventurados os que não viram e acreditaram, não concorda? Que fizeram como os que acreditaram em Amom, Horus, Tupã, Zeus e outros milhares de deuses.

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  7. Usou a palavra "apostasia" seu argumento...

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