domingo, 8 de julho de 2012

MITO, CRISTÃO, RESSURREIÇÃO, EVÊMERONo grande debate entre o Jesus histórico x Jesus mitológico, vemos erros e exageros de ambos os lados. Apologistas cristãos creem que cada versículo dos Evangelhos descreve fatos históricos, incluindo o nascimento virginal, curas milagrosas e a ressurreição dos mortos. Já os miticistas (extremados) acreditam que absolutamente nada nos Evangelhos, qualquer coisa que lemos sobre Jesus, realmente aconteceu; tudo seria apenas um produto judaico de ficção literária.

Não gosto de me rotular, mas minha visão atual nesse debate é de miticista moderado. Acredito que existiu, de fato, um Yoshua (Jesus) na Palestina do primeiro século, mas, muitos dos relatos narrados sobre ele, dentro dos Evangelhos, não são fatos históricos. O Jesus puramente humano foi revestido de divindade e suas histórias e lendas foram contadas em geração após geração, tendo como base mitos da Antiguidade. No entanto, podemos encontrar muitas informações históricas nos Evangelhos, mas isso, entretanto, não os torna verdade universal, nem muito menos inspirados por Deus.

Ainda pretendo postar vários outros artigos sobre esse assunto, em especial sobre a Ressurreição, visto ser a doutrina chave do Cristianismo. Acredito que, uma vez que compreendemos o mistério da Ressurreição, poderemos ter uma resposta racional para o fenômeno que iniciou-se com um judeu desconhecido (EHRMAN, 2011) no início de nossa Era Comum.

Muitas pessoas, inclusive amigos próximos, entre ateus, agnósticos e deístas arreligiosos, levantam essas questões do sucesso do Cristianismo. Qual seria a explicação para essa nova religião, de origem judaica, ter destronado praticamente todos os deuses e religiões pagãs e ter se mantido de pé por quase 2.000 anos? Por que inúmeras pessoas estavam e estão dispostas a morrer pela fé em Jesus, caso tudo fosse apenas ficção literária de judeus palestínicos?
A explicação mais razoável para os fatos históricos do túmulo vazio, as aparições da ressurreição, e a origem do Caminho Cristão, portanto, parece ser a de que Jesus ressuscitou dos mortos.” (ANTEHRJ, p. 418-20, apud Paul Copan e Ronald K. Tacelli)
Será mesmo essa a única explicação para o advento do Cristianismo? Para introduzir as inúmeras postagens sobre o assunto, gostaria de falar sobre um método de interpretação mitológica usado por um ateu na Antiguidade, seu nome era Evêmero.
Euhemero, também pronunciado Euemero, ou Evêmero (nascido c. 300 a.C, Messene? [agora Messina, Sicília, Itália), autor de uma obra utópica que era popular no mundo antigo; seu nome foi dado a teoria de que os deuses são homens que foram adorados depois de suas mortes (i.e., Evemerismo). Sua mais importante obra foi Hiera Anagraphe (provavelmente no início do séc. III a.C; “Inscrição Sagrada”), que fora traduzida para o latim pelo poéta Ennius (239–169 a.C). Apenas fragmentos sobreviveram de tanto o original grego como a tradução latina. […] A obra de Evêmero combinava elementos de ficção, utopianismo político e teologia. No mundo antigo, ele foi considerado um ateu. Escritores cristãos primitivos, tais como Lactantius, usaram os princípios de Evêmero para asseverar que, uma vez que os deuses antigos foram originalmente humanos, eles eram necessariamente inferiores ao deus Cristão.” [Britannica.com]
Muitos dos que estudam os mitos ao redor do mundo, como no caso de Joseph Campbell, observaram que “alguns mitos são baseados em eventos históricos”. (NWE) Isso ocorre principalmente com heróis, tragédias, catástrofes naturais que, posteriormente, foram contadas e recontadas de acordo com seus respectivos contextos sociais e culturais. Um exemplo, nesse respeito, é a Guerra de Tróia, relatada principalmente em Ilíade e Odisséia. (Wikipédia) Embora colorida de forma mítica e poética, há razoável consenso entre os historiadores de que a guerra realmente aconteceu. Sobre o método denominado evemerismo, lemos na New World Encyclopedia (em inglês):
Esse método, ou técnica, de interpretação de mitos como relatos de eventos factuais, evemerismo exegético, data da antiguidade e pode ser rastreada (desde Spencer) até Evhémère's Histoire sacrée (300 AEC) que descreve os habitantes da ilha de Panchaia, [...], no Oceano Índico, como pessoas normais deificadas pelos populares nativos. Como Roland Barthes afirma, “O mito é uma palavra escolhida pela história. Não poderia vir da natureza das coisas.” (Mâche, 1992, 20.) (NWE)
O método evemerístico não é 100% plausível, pois não há qualquer evidência histórica de que Zeus, Poseidon, ou qualquer outro deus helênico, tenha sido uma pessoa normal que fora cultuada post-deificationem. No entanto, não julgo isso uma improbabilidade. Muito pelo contrário, filósofos tão importantes como David Hume e Voltaire aderiram à essa perspectiva sobre os mitos. Creio, também, que esse é extamente o caminho correto para desmistificar a Ressurreição de Jesus.

No Mundo Antigo, muitas pessoas obtiveram uma posição de deus, ou semi-deus, devido à seus feitos heróicos, como foi com Alexandre, o Grande, Aquiles, Hercules. Da mesma forma, Jesus, que não era visto pelos seus seguidores primitivos como deus, teve, posteriormente, sua apoteose, recebendo o status divinus; algo que era também bastante comum com os Imperadores Romanos. (SANDYS, apud N.S. Gill em AHA, ed. online) 

Como argumentarei em postagens futuras, alguns eventos da vida de Jesus podem ser aceitos como eventos históricos e que a Ressurreição pode ter deixado algum rastro de historicidade, sendo posteriormente explicados em termos mitológicos, teológicos e escatológicos pelos seguidores do Nazareno. Resumindo, podemos achar uma explicação racional, histórica e natural para os relatos evangelísticos da Ressurreição de Jesus.



Bibliografia

Enciclopédia Britânica Online, acessado em 08/07/2012
New World Encyclopedia Online, acessado em 08/07/2012
Ancient History About, acessado em 08/07/2012
Wikipédia (em inglês), acessado em 08/07/2012
COPAN, Paul e TACELLI, Ronald K., Jesus’ Resurrection: Fact Or Figment?: a Debate Between William Lane Craig and Gerd Lüdemann, Intervarsity Press, 2000.
CRAIG, William Lane. Assessing the New Testament Evidence for the Historicity of the Resurrection of Jesus, Edwin Mellen Press, 1989.
EHRMAN, Bart D. Forged, Writing in the Name of God - Why the Bible’s Authors Are Not Who They Think They are, 2011, ed. HarperOne.

Um comentário:

  1. Humm...acreditar que um semideus salvador, Jesus, é descendente de Adão e Eva e de Noé já é o suficiente para descartar essa tolice humana...Hummmm..quem sabe um dia o populacho incauto acorda dessa fábula...

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