segunda-feira, 25 de junho de 2012

JESUS, MITO, FÁBULA, RESSURREIÇÃOUma das informações mais populares atualmente na internet é de que Jesus é apenas um mito, que ele nem ao menos existiu como pessoa histórica. As pessoas que defendem essa ideia são chamadas de miticistas. Eu, pessoalmente, divido esse grupo em dois lados, os miticistas extremados e os moderados.

Os extremados seriam aqueles que negam qualquer vestígio da existência de Jesus como pessoa história; para estes, Jesus é nada mais e nada menos que mera imaginação de judeus palestínicos. Já para os moderados, dos quais me incluo, Jesus existiu como pessoa histórica, no entanto, as histórias que posteriormente foram contadas sobre ele sofreram influência dos mitos antigos.

Recentemente, o erudito do Novo Testamento e historiador do Cristianismo, Bart. D. Ehrman, lançou um livro defendendo a historicidade de Jesus de Nazaré, e militando contra a ideia de que Jesus seja apenas um mito judaico.

Alguns argumentos ehrminianos parecem bem falaciosos e até mesmo contraditórios. Tome, como exemplo, a Ressurreição de Jesus. Colocando à parte as contradições, discrepâncias e inconsistência do relato da Ressurreição, ao fazermos uma rápida pesquisa em mitos antigos, observamos, por exemplo, a ideia de deuses que morriam e ressuscitavam, o que os acadêmicos chamam de dying and rising gods (trad. “deuses que morrem e ressuscitam”).

Apesar de concordar longamente que há inúmeras semelhanças entre Jesus e mitos antigos, Ehrman faz o seguinte comentário:
A ideia da ressurreição de Jesus não deriva de noções pagãs de um deus simplesmente sendo reanimado. É derivada das noções judaicas da ressurreição como um evento escatológico no qual Deus iria reafirmar seu controle sobre esse mundo. Jesus tinha conquistado o poder maligno da morte, e em breve a sua vitória seria visível na ressurreição de todos os fiéis. (Did Jesus Exist?: The Historical Argument for Jesus of Nazareth, cap. 6, subtópico: Claim 4: The Nonhistorical “Jesus” Is Based on Stories About Pagan Divine Men)
Para Ehrman, o relato da ressurreição de Jesus não teve qualquer influência pagã. Embora não creia na Ressurreição, visto ser agnóstico, Ehrman sustenta que os primeiros cristãos criaram a ideia da ressurreição de Jesus baseada apenas em interpretações escatológicas do Antigo Testamento. No entanto, antes mesmo de citar esse argumento, Ehrman se contradiz ao afirmar o seguinte:
Os judeus cristãos, em particular, podem ter sido inclinados a retratar Jesus nos termos do Antigo Testamento. Assim que o Cristianismo mudou-se para fora do Judaísmo, no entanto, e se tornou uma religião em grande parte composta de convertidos dentre os pagãos, estes novos convertidos contaram histórias sobre Jesus em termos que faziam sentido para eles. Eles cada vez mais moldaram as histórias de modo que Jesus parecia mais e mais com os homens divinos comumente falado no mundo romano, os homens que nasceram sobrenaturalmente por causa da intervenção de um deus, que fizeram milagres, que curaram os doentes e ressuscitaram os mortos, e que, no final, ascenderam ao céu. Se você quisesse descrever um filho de Deus para alguém no mundo antigo, esses eram os termos usados. Você usava o vocabulário e os conceitos encontrados na linguagem do dia. Que outro idioma você poderia usar? Era a única língua disponível para você. (ibidem)
Ora, como as histórias sobre a ressurreição não tiveram nenhuma influência dos mitos pagãos, uma vez que o próprio escritor afirma que os cristãos não-judeus moldaram sua visão de Jesus nas formas dos deuses gentílicos? Essa afirmação é, no mínimo, contraditória!

Além disso, suponhamos que as primeiras histórias da Ressurreição feitas pelos cristãos JUDEUS tenham sido algo 100% original, baseadas apenas na interpretação escatológica[1] deles do Antigo Testamento. Sabemos que, como diz Ehrman, o Cristianismo se espalhou grandemente por outras regiões fora de Jerusalém e muitas e muitas pessoas de outras regiões, principalmente entre os gregos, se converteram para o Cristianismo (At. cap. II, 11.1, 18; 13.48; 15.3, 7). Esses cristãos gentios já tinham sua linguagem religiosa, seus conceitos sobre o divino, e, uma vez que estes passaram a pregar o Cristianismo, começaram a pregar sobre Jesus nos termos que eles tinham a disposição, que eram os mitos gregos.

Acho interessante que, até mesmo no livro de Atos, encontramos respaldo para essa afirmação, pegando também carona no que Ehrman comentou em seu livro. No capítulo XIV, Paulo prega para os gregos e quando eles viram suas realizações, veja como os gregos interpretaram:
...Ora, em Listra estava sentado certo homem, incapacitado dos pés, coxo desde a madre de sua mãe, e ele nunca jamais tinha andado. Este homem escutava Paulo falar, sendo que este, olhando para ele atentamente e vendo que tinha fé para ficar bom, disse com voz alta: “Ergue-te ereto sobre os teus pés.” E ele pulou e começou a andar. E as multidões, vendo o que Paulo tinha feito, elevaram as suas vozes, dizendo na língua licaônica: “Os deuses tornaram-se iguais a humanos e desceram a nós!” E passaram a chamar a Barnabé de Zeus, mas a Paulo de Hermes, visto que ele tomava a dianteira no falar. E o sacerdote de Zeus, cujo [templo] estava diante da cidade, trouxe touros e grinaldas até os portões, e estava desejando oferecer sacrifícios com as multidões. (Atos 14:8-13)
Perceberam? Os gentios moldaram aquele evento nos termos que eles conheciam; eles não sabia quem eram Yahweh, Jesus, Moisés e os apóstolos, etc. Eles conheciam apenas seus mitos com deuses, deusas, semideuses e herois. Portanto, moldaram e entenderam as figuras do Cristianismo dentro de seus conceitos religiosos.

Claro que, naquele tempo, não existiam escolas de teologia onde os cristãos sistematizaram o conhecimento sobre Jesus para os recém-convertidos gentios. As pessoas simplesmente ouviam que ele era filho de Deus e Salvador do mundo, se batizavam e já saiam pregando o Evangelho.

Se nós, em pleno século XXI, percebemos semelhanças entre Jesus e outros semideuses e deuses, mais ainda as pessoas que viviam naquele tempo. Portanto, não há nenhuma improbabilidade da ideia da ressurreição ter sido criada originalmente pelos judeus cristãos e depois moldada nos conceitos mitológicos dos gentios (“pagãos”).

O objetivo dessa postagem era apenas mostrar as recentes pesquisas sobre o assunto dentro do universo acadêmico, uma vez que mais e mais eruditos estão se tornando miticistas, sejam eles extremados ou moderados. Em outras postagens, irei analisar de forma mais detalhada não apenas as inconsistência do relato da Ressurreição, mas também os antigos mitos dos deuses que morrem e revivem.

______
NOTAS

[1] Escatologia é um termo usado entre os teólogos que se refere ao estudo sobre os eventos dos últimos dias.

12 comentários:

  1. Parabéns Eduardo,
    Já demonstrou e provou com todo o seu conhecimento e razão que Jesus não ressuscitou que Ele só era um cara comum. E agora já se sente feliz e vingado? Ou ainda precisa de mais, que tal agora promover uma "caça ao cristãos malucos que creem em Jesus ressuscitado" kkkk....

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    1. E esse sarcasmozinho tu aprendeu também lá na tua igreja foi? rsrsrs... Incrível que, contabilizando os comentários em meu blog, percebi que 97% dos comentários por cristãos fanáticos e lunáticos, como no seu caso, são respostas difamatórias, ou sarcásticas, apenas 3% tentou realmente comentar com argumentos reais, com pesquisa, etc.

      Não sei se a fé te acomete de incogniscibilidade, ou então suas palavras são apenas expressão da hipocrisia religiosa que reina no Cristianismo, mas nas palavras da própria pessoa que tu falsamente professa seguir: “Com a medida com que julgueis vós sereis julgados” (Mt. 7.1) Lógico que, infelizmente, nem mesmo a maré de pilantras que pululam nas igrejas põem essas palavras em prática.

      Se no meu coração eu soubesse, como estudioso, que Jesus realmente ressuscitou, não me seria tolice negá-lO? Pouco me importa as TJs, evangélicos, minha mente se fixaria em Cristo e a ele seguiria, pois o Mesmo, como objeto da fé, nunca havia me decepcionado, por quais motivos negar sua ressurreição? Talvez te seja difícil entender as coisas além do Reino de Faz de Conta em que vives, mas PRIMEIRO eu deixei de crer, DEPOIS eu sai da religião.

      Além disso, quando aprenderes a entender as coisas melhor e se um dia tiveres a oportunidade de me conhecer, irias ver que não nutro nenhum ódio por alguém ser cristão, minha própria mãe é cristã, porventura, deveria eu odiá-la? Desprezar a mulher que me deu a vida por ela desejar crer?

      Não vou caçar cristãos malucos, esse negócio de caçar deixo pra vocês que caçaram e mataram todos aqueles que não aceitaram Jesus no período das Cruzadas, na Inquisição Católica e tantas outras peripécias que emanam nos corações enlamecidos pela religião utópica.

      OBS: Próxima vez seja mais homem (ou mulher) e se identifique; tenho a falsa impressão de estar a falar com uma entidade sobrenatural escarnecedora, assexuada, sem forma e nem cor.

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  2. Os copistas e os primeiros manuscritos do Novo Testamento

    Eu até posso concordar com Bart quando diz que um dos problemas com textos gregos antigos (o que incluiria os escritos cristãos primitivos, incluindo os do Novo Testamento) era que, quando copiados, não se fazia distinção de maiúsculas e minúsculas, além de não haver separação entre palavras. Agora, partir daí para uma negação explicita das Escrituras, é algo que não podemos concordar. Apesar de conhecer essa problemática textual, Bart parece caminhar por uma via contrária.

    “Se as comunidades dos crentes obtinham cópias de vários livros em circulação, como adquiriam? E, o mais importante para o tema máximo de nossa pesquisa, como podemos (ou como poderiam eles) saber que as cópias obtidas eram exatas, que não tinham sido modificadas no processo de produção?”. [2]

    Diferentemente do que argumenta ele, era natural, em uma época em que as Escrituras cresciam em ritmo acelerado, haver pequenos erros em sua reprodução. Até mesmo o livro de Bart esta sujeito aos erros dos “copistas modernos”, como vemos na seguinte declaração.

    “Mesmo sendo um livro pequeno, teve ter sido um processo difícil copiá-lo letra por letra”. [3]

    Ora, o que Bart quer dizer com a expressão “teve ter sido”? Naturalmente tal erro não pode ser atribuído ao autor, mas a algum tradutor mal intencionado. A pergunta é: deveríamos, a partir do que verificamos na passagem acima, duvidar da autoria humana de Bart? E o que dizer das Escrituras Sagradas? Seria a Bíblia, devido uns poucos erros de tradução, considerada uma obra contraditória? De origem puramente humana? É algo para se pensar.
    Referências: EHRMAN, B.D. O que Jesus disse? O que Jesus não disse? Rio de Janeiro – RJ: Escala págs. 220,221.
    2. Ibidem, pág. 207.

    3. Id. Ibidem, págs. 58.

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  3. Não tem nada a ver com o assunto aqui, mas acabei de comprar 2 livros do Ehrman, sendo eles: O Que Jesus Disse? O Que Jesus Não disse? e Quem Jesus Foi? Quem Jesus Não Foi? Comprei porque vi algumas palestras e debates do Ehrman (inclusive um que ele da uma surra tremenda no Craig kkk), depois li sobre ele no seu site oficial e me pareceu um profissional muito competente e confiável, sendo ao que parece uma excelente fonte de pesquisa seria sobre o Jesus histórico. Porém, por mais que "a maioria dos historiadores concordarem entre si que o Jesus histórico existiu", eu tenho serias dúvidas quanto a isso. Pois por exemplo, conheço um documentário de 2 horas que trata apenas de comparações entre a bíblia e o mito de Jesus com uma especie de adoração astrologica e essa hipótese se encaixa muito bem (Mas não é o Zeitgeist, até porque o 1º Zeitgeist só fala por uns 30 minutos iniciais sobre o mito de Jesus). Então, até onde estudei até agora, penso que tem digamos 400% de chance de Jesus ter existido de forma historica e 60% como apenas um mito 100% inventado, ou uma junção de pequenas histórias de pessoas reais. (Ex: Um cara alegava fazer milagres, outro alegava que era filho de deus, outro que iria ressuscitar etc)
    Alberto

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  4. Olá.. (?) Gostaria de saber seu nome. É um prazer tê-lo no blog. Obg pela visita e pelo comentário que, diga-se de passagem, a segunda parte se relacionada com a postagem.

    Estou lendo Jesus Neither Man nor God de Earl Doherty e estou maravilhado, porque cada vez mais tenho menos certeza da historicidade de Jesus.

    Qual documentário é esse que você assistiu de 2 horas?

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    1. Olá, meu nome é Alberto. Bom, vou anotar aqui este livro e autor que você citou, para verificar mais tarde. Sobre o documentário, você pode colar o seguinte texto na caixa de pesquisa do YouTube "Jordan Maxwell Bill Jenkins A verdade Revelada PT BR", ou usar este link http://www.youtube.com/watch?v=d-ywgD5CeKI , aliás, foi um conhecido meu que postou.
      No momento estou lendo outra obra do Bart, o livro Did Jesus Exist? e isso acabou, por hora, me convencendo um pouco mais do Jesus Historico. Porém atualmente me identifico com algumas citações aqui do blog mesmo, sobre os "miticistas moderados", acredito que esse rótulo me caia muito bem no momento. Até mais.

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    2. Muito obg pela indicação Alberto. Fico feliz pelo blog contribuir com algo para suas pesquisas.

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  5. Eduardo, gostaria de te mandar uns livros virtuais de autoria de Alfredo Bernacchi, eu os li e achei interessante, algumas coisas sem fonte, mas outras com. Poderia me passar seu email, se for de seu interesse,claro!
    Abraço
    Leandro

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    1. Sim sim, com certeza! Anota ai: edu-jr2011@hotmail.com

      Obg desde já! ;-)

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    2. Enviado. O autor é ateu,então, prepare-se para um "pouco" de ironia! Abraço e antes que eu me esqueça, já viu os vídeos de um Exegeta chamado Fábio Sabino?
      Leandro

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    3. Obg Leandro, irei ler com certeza. Sobre a pessoa mencionada, conheço sim, de longa data e tive uma terrível experiência com a pessoa. No tempo ainda era cristão. Trabalhei em uma tradução versículo por versículo do Evangelho de João pelo erudito John Gill para ser publicado pela CPAD, no final, depois de mais de 30 dias de trabalho intenso, o cara simplesmente disse que não queria mais! Uma das maiores raivas que já tive!

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  6. A ressurreição é um mito. Escritores depois de sua morte, criaram a mitologia de Jesus Cristo. O Jesus de Nazaré foi "abafado" pelo mito.

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