quinta-feira, 31 de maio de 2012

ULTIMA CEIA, DIONISIO, PAGANISMO, INFLUÊNCIA
Durante o tempo em que fui criado como Testemunha de Jeová, o único ritual religioso que tínhamos era o que chamávamos de Comemoração da Morte de Jesus. Embora essa nomenclatura assuste vários evangélicos que acreditam que as TJs pulam de alegria em comemoração à morte de Cristo, não é essa a ideia.

Todos os anos, seguindo o calendário judaico, as Testemunhas de Jeová se reúnem em 14 de Nisã para celebrar a libertação espiritual que Jesus conseguiu através de seu sacrifício. Eles passam entre si o pão ázimo (sem fermento) e o vinho. As únicas pessoas que comem do pão e bebem do vinho são aqueles que eles chamam de “ungidos”, ou 144.000 mil, que seriam pessoas escolhidas por Deus para ir para o céu reinar com Jesus. Em 12 anos como TJ, contei nos dedos as vezes que vi uma pessoa comer e beber dos emblemas.

Nas demais Igrejas evangélicas, o conceito é um pouco diferente, uma vez que todos comem do pão e bebem do vinho. Já entre os católicos, há a doutrina da transubstanciação, onde acreditam que, durante o ritual religioso da Santa Ceia, o pão se transforma literalmente no corpo e o vinho no sangue de Cristo.

§ 1. Páscoa Judaica

Quando dizemos que a celebração da Santa Ceia tem raízes no Paganismo, os cristãos costumam apontar para para o A.T afim de mostrar que a Santa Ceia é uma renovação da Páscoa judaica, sendo os judeus a única influência sobre o ritual cristão.

No entanto, quando levamos em consideração a própria teologia cristã e a Páscoa judaica historicamente, vemos que a Ceia do Senhor possui mais similaridades com o Paganismo do que o Judaísmo.

§ 1.1 Origem e Emblemas

A Páscoa Judaica existe em comemoração ao Êxodo dos filhos de Israel do Egito, que foi instituída em 1513 a.C. Ao explicar como celebrá-la, Deus disse: “Não deveis comer nada levedado. Em todas as vossas moradas deveis comer pães não fermentados.” (Êxodo 12:11, 20) Essa proibição divina se aplicava apenas ao tipo de pão que seria comido na Páscoa. Não havia nenhuma menção a vinho.

O motivo principal da restrição ao fermento foi que a partida dos israelitas do Egito se deu às pressas. “O povo carregou no seu ombro a sua massa antes de ela ter ficado levedada”, explica Êxodo 12:34, “com as suas amassadeiras embrulhadas nas suas capas”. Não usar fermento nas posteriores celebrações da Páscoa serviria para lembrar as futuras gerações desse importante fato. Portanto, tenha em mente que o fermento, historicamente falando, não tem nada a ver com pecado, algo que só apareceu posteriormente e o vinho nem ao menos é citado.

Com o tempo, o fermento muitas vezes veio a ser encarado como símbolo de pecado e corrupção. Referindo-se a uma pessoa imoral na Igreja cristã primitiva, por exemplo, o apóstolo Paulo perguntou: “Não sabeis que um pouco de fermento leveda a massa toda?” Daí ele disse: “Retirai o velho fermento, para que sejais massa nova, conforme estiverdes livres do levedo. Pois, deveras, Cristo, a nossa páscoa, já tem sido sacrificado. Consequentemente, guardemos a festividade, não com o velho fermento, nem com o fermento de maldade e iniquidade, mas com os pães não fermentados da sinceridade e da verdade.” (1 Coríntios 5:6-8) Somente o pão não-fermentado serviria como símbolo do corpo humano sem pecado de Jesus. — Hebreus 7:26.

O uso do vinho na Páscoa foi introduzido mais tarde pelos judeus. É provável que tenha sido depois do retorno deles do exílio em Babilônia, ou durante o avanço do período helenista. Provavelmente, com o contato que os Judeus tiveram com a cultura Greco-Romana, o culto de Dionísio tenha levado a introdução do vinho na Festividade Pascoal. O mesmo aconteceu com o conceito de fermento como simbolizando pecado, conceito derivado do Zoroastrismo, uma vez que, como mostrado acima, o pão não fermentado se referia à fuga às pressas dos israelitas e não a qualquer conceito sobre pecado. — Cf. Pães Sem Fermento no Zoroastrismo e Cristianismo.

Dessa forma, a Páscoa judaica não pode ser o único evento usado para explicar a Última Ceia e a introdução do vinho, bem como o simbolismo da fermentação do pão, respectivamente.

§ 1.1.a O Problema do Vinho

Um outro ponto importante é com respeito a simbologia cristã do pão e do vinho. Como mencionado acima, o pão não fermentado era símbolo de algo puro, imaculado, uma vez que no N.T o fermento veio a significar corrupção e pecado.

No entanto, o que pensar do vinho? É óbvio que a fermentação natural do vinho nos tempos antigos era diferente da que ocorria com o pão. No caso da massa, a fermentação exigia a adição de levedo, ou fermento. O vinho de uvas não precisava desse aditivo. Os ingredientes da fermentação já estavam presentes nas uvas. Não seria possível encontrar simples suco de uva na Páscoa, pois desde a colheita, no outono, até a Páscoa, na primavera, ele já teria fermentado.

Dessa forma, como o vinho poderia ser símbolo do sangue perfeito de Jesus, conforme prega a teologia cristã? Mesmo que alguns digam que, no caso do pão, a corrupção se referia a adição de um ingrediente que muda sua forma original, ao passo que o vinho não teria adição de nada, permanecendo assim original, esse argumento permanece falacioso. Tenha em mente que a “corrupção”, na verdade, se dá quando uma substância, por influência interna ou externa, abandona sua forma original. Nesse caso, o vinho teria, em si mesmo, a natureza corruptora, sendo muito mais apropriado como símbolo da natureza humana imperfeita que, na maioria das vezes, corrompe a si mesma.

§ 2. Antigo Ritual, um Novo Significado

A própria teologia cristã menciona que, depois da comemoração da Páscoa judaica, Jesus teria apenas aproveitado os emblemas judaicos e instituído um novo significado, onde o pão e o vinho passariam a significar seu corpo e sangue que seriam dados em sacrifício para selar um novo pacto para um novo reino. Jesus disse:
[...]Tomou também um pão, deu graças, partiu-o e deu-lho, dizendo: “Isto significa meu corpo que há de ser dado em vosso benefício. Persisti em fazer isso em memória de mim.” Do mesmo modo também o copo, depois de terem [tomado] a refeição noturna, dizendo: “Este copo significa o novo pacto em virtude do meu sangue, que há de ser derramado em vosso benefício. (Lucas 22:19-20)
E depois acrescentou:
“No entanto, vós sois os que ficastes comigo nas minhas provações; e eu faço convosco um pacto, assim como meu Pai fez comigo um pacto, para um reino, a fim de que comais e bebais à minha mesa, no meu reino, e vos senteis em tronos para julgar as doze tribos de Israel. (Lucas 22:28-30)

É justamente nessa nova significação que entra a influência religiosa de Dionísio e Baco. É surpreendente vermos que nos mitos da antiguidade e suas respectivas religiões, o vinho com o pão, ou literalmente carne com sangue, eram bastante comuns. O ritual de vinho e pão, ou carne e sangue, era tão comum nas demais religiões de seu tempo, que St. Justino disse que “essa mesma solenidade (i.e a Santa Ceia) o espírito iníquo introduziu nos mistérios de Mitra.” (Reeves, Justin, p. 86.) A simbologia da Última Ceia era tão parecia com os ritos religiosos Greco-Romanos que esse renomado Pai Apostólico diz que foi o diabo que adiantou essas ideias nas religiões pagãs para no futuro confundir a cabeça das pessoas.

Cícero comenta que “o sacrifício do pão e vinho era comum em muitas nações antigas.” (Anac. vol. ii. p. 62.) E o mesmo escritor nos informa que os antigos peruanos “depois de sacrificar um cordeiro, misturavam seu sangue com farinha, e distribuiam entre o povo.” Sobre o deus Baco (deus romano do vinho), lemos que nos seus rituais religiosos, “os adeptos, pela música, dança e bebida e por comer a carne e beber o sangue de animais sacrificados tentavam fundir suas identidades com a natureza.” [Deathreference]

Sobre as raízes históricas da Eucaristia, a Wikipédia comenta:
“Alguns estudiosos notam uma similaridade entre a ideia de se alimentar da força da vida de uma característica de uma entidade mística de ritos centrais nas religiões misteriosas Greco-Romanas e do Oriente Próximo, e afirmam que esse é o contexto no qual os atos e ordenanças de Jesus e seus apóstolos vieram a ser memorizados.” [Historical Roots of Catholic Eucharistic Theology]
Embora já mencionado acima, sobre o uso de carne e sangue nos rituais do deus Baco e Dionísio, ainda lemos mais sobre seu significado:
“Esse último ritual era um sacramento similar a comunhão no qual os participantes assumiam a força e o caráter de um deus por simbolicamente comer a carne e beber do sangue de sua encarnação simbólica. Tendo simbolicamente comido seu corpo e bebido seu sangue, os celebrantes se tornavam possuídos por Dionísio.” [Wikipédia]
O Cristianismo primitivo se espalhou por toda a população helenística. “As práticas das festividades judaicas assumiram as formas helenísticas [...]. Dionísio era o “deus do vinho” – representando o vinho, a bebida mais universalmente popular no mundo antigo.” (Harris, Stephen L., Understanding the Bible (Mayfield Publishing Company 4th ed.) p. 287) Barry Powell sugere que a noção cristã de comer e beber a “carne” e “sangue” de Jesus foi influenciada pelo culto de Dionísio. (Powell, Barry B., Classical Myth Second ed. Com traduções de antigos textos de Herbert M. Howe. Upper Saddle River, New Jersey: Prentice-Hall, Inc., 1998)” [Origin of Eucharist]

§ 3 Conclusão

Dessa forma, vemos que o ato místico da Santa Ceia não é algo novo e único. Percebemos também a diferença da Páscoa judaica, onde originalmente era feita com apenas o pão ázimo e algumas ervas. A Ceia Cristã, com seu significado místico durante a produção ficcional dos Evangelhos durante o século II (Cf. Quando os Evangelhos Foram Escritos?), sofrera influência principalmente dos cultos a Dionísio e Baco.

Um comentário:

  1. Muito boa sua explicação, gostaria de conversar mais a respeito pode ser?

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