quarta-feira, 23 de maio de 2012

LOGOS, MITOLOGIA EGÍPCIA, PALAVRA, GENESIS
Uma das coisas que me deixava perplexo com a teologia cristã era a profundidade dos conceitos, das ideias usadas para expressar o que, para mim, eram verdades espirituais. Gostaria de mencionar, por exemplo, o Agente da Criação, conforme é mencionado em Gênesis e no Evangelho de João.

Se abrir sua Bíblia no primeiro capítulo de Gênesis, verá que as coisas são criadas a partir da ordem de Deus. Dependendo da tradução que estiver usando, as expressões que encontramos são: “E Deus passou a dizer...”, “E Deus prosseguiu, dizendo...” e assim as coisas vinham à existência.

A ideia é que Deus fala (ordena) e as coisas são criadas. Séculos depois, os Judeus fizeram várias interpretações da Torá, onde eles desenvolveram um dogma teológico que, no futuro, viria a ser o Logos dos filósofos gregos e cristãos, ou seja, a Palavra Criadora.

De acordo com a Jewish Encyclopedia vemos esse conceito formado:
Enquanto no Livro dos Jubileus, xii. 22, a palavra de Deus é enviada através do anjo a Abraão, em outros casos, torna-se cada vez mais uma agência personificada: “Pela palavra de Deus suas obras existem” (Eclo [Sirach] xlii 15.), “O Santo, bendito seja Ele, criou o mundo pela Ma'amar” (Mek., Beshallaḥ, 10, com referência ao Ps. xxxiii. 6). Bastante freqüente é a expressão, sobretudo na liturgia, “Tu, que fizeste o universo com a tua palavra e ordenou ao homem através de Tua sabedoria governar as criaturas feitas por ti” (Sabedoria ix 1;.. Comp. “Que por Tua palavras causastes as noites para trazer a escuridão, que abres as portas do céu por tua sabedoria”;... “que, por Sua fala criou os céus, e pelo sopro de sua boca todos os seus exércitos”, através de cuja “palavra todas as coisas foram criadas”; ver Singer’s Daily Prayer Book, pp 96, 290,292). Assim também em IV Esdras vi. 38 (“Senhor, Tu disseste no primeiro dia da Criação: “Haja o céu e a terra, e tua palavra tem realizado o trabalho”).
Depois dos Judeus, os filósofos gregos muito provavelmente influenciados pelas filosofias alheias, lançaram mão desse conceito da Palavra Criadora. O erudito bíblico John Gill, do séc. XVIII, comenta:
“...[É] provável que Platão tinha essa noção do Logos, ou Palavra, dos escritos do Antigo Testamento, do que João ter tomado essa frase, ou o que ele diz concernente a Palavra, dele; visto ser um assunto incontestável que Platão foi ao Egito adquirir conhecimento: não apenas Clemente de Alexandria, um escritor cristão, diz que ele era um filosofo dos hebreus (Stromat. l. 1. p. 274) e entendia as profecias, (Ib. p. 303) e fomentou o fogo da filosofia hebraica; (Ib. Paedagog. l. 2. c. 1. p. 150) mas é afirmado pelos escritores gentílicos que ele foi até o Egisto aprender dos sacerdotes, (Valer. Maxim. l. 8. c. 7) e entender os rituais dos profetas; (Apuleius de dogmate Platonis, l. 1. in principio) e Aristóbulo, um judeu, afirma (Apud. Euseb. Prepar. Evangel. l. 13. c. 12) que ele estudou a lei deles; e Numênio, um filosofo Pitagoreano, (Hesych. Miles. de Philosophis. p. 50) o acusa de roubar o que ele escreveu, com respeito a Deus e ao mundo, do livro de Moisés; e costumava dizer a ele: O que é Platão, a não ser um Moisés “Ateniense”? ou Moisés de língua grega: e Eusébio, (Prepar. Evangel. l. 11. c. 9) um escritor cristão antigo, coloca nos mesmos lugares, de onde Platão tirou sua alusão.”

No entanto, a ideia da Palavra Criadora, ou Logos, era usada pelos filósofos pré-socráticos, muito tempo antes de Platão e não há nenhum indício de que estes tenham sido influenciados pela teologia judaica. O Evangelho de João usa esse mesmo conceito em João 1:1. No princípio, conforme Gn. 1.1, a Palavra (Logos) estava com Deus, como Agente da Criação, sendo assim uma influencia direta da teologia judaica e filosofia helenística. No entanto, a origem maior de todo esse conceito não é judaica, grega ou cristã. O conceito mais antigo que temos da Criação vindo à existência pelo poder da Palavra é dos egípcios.

No mito da criação egípcia nós temos a seguinte descrição:
“Eu sou aquele que veio à existência na forma de Khepera, e eu sou o criador daquilo que veio à existência, ou seja, eu sou o criador de todas as coisas que vieram à existência. Agora, as coisas que eu criei e que saíram da minha boca depois que eu vim à existência eram excessivamente muitas... eu trouxe meu próprio nome na minha boca como uma palavra de poder.”

A New World Encyclopedia comenta:
“Na mitologia egípcia, Hu era a deificação da palavra falada para criar a existência. Maàt era o conceito e deusa, da divina ordem.”

Wikipédia diz:
“Na mitologia egípcia, Hu (ḥw) é a deificação da primeira palavra, a palavra da criação.”
Geraldine comenta:
“Sia e Hu foram os princípios do pensamento e discurso criativos personificado como deuses.” (1)
Os egípcios são os precursores do conceito teológico da Palavra Criadora. Os judeus, que passaram séculos exilados no Egito, foram influenciados por seus conceitos religiosos e por sua vez colocaram por escrito no livro de Gênesis. Posteriormente, fizeram comentários teológicos sobre o primeiro livro da Bíblia e oficializaram o dogma da Palavra Criadora, tendo sido, provavelmente, apreendida pelos filósofos gregos e depois influenciado a Igreja Cristã durante o século II, período da escrita dos Evangelhos (2), onde os filósofos cristãos se valeram de vários mitos, filosofias e conceitos teológicos para criarem os relatos evangelísticos.
_______________

(1) PINGH, Geraldine. Egyptian Mythology: A Guide to the Gods, Goddesses, and Traditions of Ancient Egypt, OXFORD University Press, 2002, p. 198.
(2) Cf. Quando os Evangelhos Foram Escritos?

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