sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Se você chegou nesse blog direto por essa postagem, queira ver o contexto deste estudo, começando com: “Virgem” ou “Jovem”: Um estudo de Isaías 7:14

JESUS, NASCIMENTO, VIRGINAL, MARIA, MITO, MITOLOGIA, ESTUDO, PAGANISMO

É sabido entre o meio teológico que cada evangelista tinha um objetivo ao escrever seu respectivo evangelho. Apenas Mateus e Lucas mencionam o nascimento virginal. Por que isso? Bem, Lucas, por exemplo, estava escrevendo para cristãos gentílicos. E entre os gentios, principalmente os de nacionalidade Greco-Romana, era muito comum as histórias de deuses que engravidavam virgens e estas davam luz à semi-deuses, meio homem e meio deus, assim como Jesus que era humano e divino ao mesmo tempo.

O Rabbinic Commentary on the New Testament diz:



A genealogia foi destinada para os judeus, enfatizando a linhagem davídica de Jesus, enquanto a história do Nascimento Virginal foi destinada para o mundo greco-romano, onde histórias ou contos de nascimento virginal e de impregnação divina de mulheres mortais eram bem conhecidas. (LANCHS, 1987)

O livro Christianity and Mythology comenta:


Agora, o mito da Virgem-Mãe é universal no Paganismo e que certamente não tem nenhum lugar reconhecido no Judaísmo Ortodoxo antes do período jesuíta. A assim chamada profecia de Isaías (vii.14) nunca poderia ter sido lida como um anunciamento de um Parthenogenesis distante no tempo pelo mais insano Talmudista caso o mito da Virgem-Mãe não viesse do lado Pagão. (ROBERTSON, 2004)


Quem estuda mitologia comparada sabe que, quem quer que tenha criado a mitologia cristã, eram pessoas cultas e helenizadas. Os criadores do mito cristão conheciam muito bem essas histórias, estes mitos sobre nascimentos virginais, pois essa ideia estava presente no mito de Horus, Mitra, Buda e tanto outros. O nascimento virginal, segundo Joseph Campbell, é um clássico da literatura mitológica. A presença é tão forte que poderíamos dizer que um mito só é verdadeiramente mito se tiver um nascimento virginal. 



Até mesmo os Pais da Igreja assumiam abertamente que o nascimento virginal era uma ideia presente em várias lendas antes do Cristianismo. Veja as citações baixo e investigue você mesmo:

Origines (c. 185 — 253 d.C):


Ele enumera uma série de Deuses Pagãos nascidos de virgens: Danae, Melanippe, Auge e Antíope. As histórias sobre esses deuses são "antigas", diz Orígines, mas ao contrário da história do nascimento virginal de Jesus, apenas fábulas [Origin, Against Celsus 1, 37]

Nós [os cristãos] não somos as únicas pessoas que recorrem a narrativas milagrosas desse tipo. [Origines, Against Celsus 1, 37]

Justino (100 - 165 d.C.) : 


Por que esses deuses nasceram de virgens vieram antes de Jesus? {...} demônios.

Ele nasceu de uma virgem, aceite isto em comum com o que você acredita de Perseus. [First Apology, 22]

Os demônios ... astuciosamente fingiram que Minerva era filha de Júpiter não pela união sexual. [First Apology, 64]

Outras citações: 


Uma filha do rio Sangarius, dizem eles, tomou do fruto e o deitou no seu seio, quando ele desapareceu de uma só vez, ela estava grávida. Um menino nasceu, e exposto, mas foi cuidado por um bode. [Pausanias, Description of Greece 7.17.9-11]

Augusto veio de uma concepção milagrosa pela união divina e humana do [Deus] Apolo e [sua mãe] Atia. Como o historiador responder a essa história? Há algum que o tomam literalmente? ... Essa divergência levanta um problema ético para mim. Ou todas essas concepções divinas, de Alexander à Augusto e do Cristo a Buda, devem ser aceitas literal e milagrosamente ou todas elas devem ser aceitas metaforica e teologicamente. Não é moralmente aceitável dizer {...} nossa história é verdade, mas o seu é mito; nossa é história, mas o seu é uma mentira. É ainda menos moralmente aceitável dizer isso de forma indireta e encoberta pela fabricação de estratégias defensivas ou de proteção que se aplicam apenas para a própria história. [John Crosssan, The Birth of Christianity, 1998, pg 28 - 29.]

Essas citações mostram que os primeiros cristãos, quando defendiam o Cristianismo diante dos pagãos, admitiam que outros mitos relatavam nascimentos milagrosos da parte de seus respectivos deuses e heróis. No entanto, para esses cristãos, todo e qualquer relato de um deus, ou semi-deus, que viesse a nascer de uma virgem não passava de lenda, apenas o de Cristo foi verdade histórica.

Concluímos com base em todos os estudos que fizemos sobre o assunto, até essa última postagem, que não existe no Antigo Testamento qualquer referência ao nascimento virginal messiânico. Quem quer que tenha escrito o Evangelho de Mateus, tentou achar no Antigo Testamento alguma referência a um nascimento virginal e o texto de Isaías 7:14 caiu como um luva para a fabricação cristã-mitológica, levando em conta o uso dessa característica mítica ao redor do mundo.

Voltando ao que dissemos no início desse estudo, seria ridículo ouvir uma pessoa que apareceu grávida do nada, dizer que está grávida de uma força sobrenatural. Quais seriam as probabilidades de isso ocorrer hoje? Porcentagem nula! Isso seria uma desculpa esfarrapada. Se a probabilidade de isso ocorrer hoje é nula é porque também é nula ter ocorrido no primeiro século. Além de não fazer sentido, podemos compreender porque os Judeus acham essa ideia tão absurda.

A própria interpretação cristã no Antigo Testamento é falaciosa. O nascimento virginal nada mais é que a continuação de antigos mitos, sendo racionalizado por eruditos cristãos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS (Referente às 5 postagens)

DAKE, Finnis Jennings, Bíblia de Estudo Dake, 1° edição, Belo Horizonte, Brasil, 2010.
BRUCE, F.F, Comentário Bíblico NVI, Antigo e Novo Testamento, 1° ed., São Paulo, SP, Brasil.
ASSOCIAÇÃO TORRE DE VIGIA, Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, ed. 1986, Cesário Lange, SP, Brasil.
GILL, John, Exposition of the Entire Bible. ed. eletrônica.
THAYER, Joseph Henry, Greek-English Lexicon of the New Testament, ed. eletrônica.
LOUW, E. e NIDA, Eugene A. Greek-English Lexicon of the New Testament Based on Semantic Domains, ed. eletrônica, EUA, 1989.
LACHS, Samuel Tobias, Habbinic Commentary on the New Testament, EUA, 1987.
ROBERTSON, John M. Christianity and Mythology ed. 2004
Jewsforjesus.Org acessado no dia 12 de Outubro de 2011.
Dicio.com acessado no dia 12 de Outubro de 2011.
Jewishroots.Net acessado no dia 13 de Outubro de 2011.
Carm.Org acessado em 13 de Outubro de 2011.
Wikipédia acessado no dia 14 de Outubro de 2011.
Enthology.Org acessado no dia 14 de Outubro de 2011.

9 comentários:

  1. Prezado

    Meus parabéns! Excelente estudo sobre a questão de um suposto "nascimento virginal".
    Estou num debate em um grupo de cristãos unitaristas, e estou defendendo que jesus fora filho natural de José e Maria. Iniciamos recentemente, e ainda só abordei os problemas contidos no prólogo da genealogia apresentada por Mateus, que são contraria a apresentada no evangelho de Lucas, que me leva a pensar numa possível interpolação nos vs 16 a 25 do evangelho de Mateus, o que acha?

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    1. Olá Neto,

      Muito obrigado pelas palavras e seja muito bem vindo ao blog. Espero que sejas bem-sucedido em seus debates no grupo.

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  2. jesus nao nasceu por acao do espirito santo ? e dinossauros voces acreditam ! kkkkkkkk

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  3. nao crer no nascimento de jesus de forma sobrenatural e crer em dinossauros ? assim sao os entendidos kkkkkk

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  4. Ricardo Silva, é sério ou você ta tirando onda?

    Leandro Paz

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  5. Esse Ricardo Silva é um comediante hahhahaha.
    Parabéns Eduardo, participo de fóruns e acompanho outros blogs sobre religião e esse sem duvida é um dos melhores, se não o melhor. Percebe-se que são artigos sérios sem fanatismo ou coisa parecida.

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    1. Muito obrigado pelo elogio Luiz. Seja sempre muito bem-vindo!

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  6. Se (se, se, se) o deísmo for falso, e Deus quisesse operar um milagre assim, qual o problema em considerar a possibilidade lógica disso ocorrer? Novamente, estamos falando sobre possibilidades lógicas, e um milagre assim é possivelmente lógico em um universo não mecanicista.

    O paralelo feito entre o nascimento virginal no cristianismo e nas mitologias antigas não demonstram nada - mesmo as afirmações dos primórdios cristãos sobre isso, como Origines e Justino, são irrelevantes estabelecer o paralelo. Se 'M' é tal qual 'X', então, 'C' também é tal qual 'X'? Por que? Você está lidando com sistemas de filosofia da religião diferentes.

    "A própria interpretação cristã no Antigo Testamento é falaciosa". Seu texto é superficial demais para ousar saltar para esta conclusão. Diferentes teólogos e filósofos cristãos tem explanado de modo razoável o porquê da utilização evangelística do texto de Isaías 7:14.

    Você diz, "seria ridículo ouvir uma pessoa que apareceu grávida do nada, dizer que está grávida de uma força sobrenatural", contudo, se o mecanicismo for um pressuposto injustificado dos físicos (e muitos apologistas cristãos têm demonstrado que é), na verdade, seria ridículo pensar como um mecanicista, e a porcentagem de um nascimento virginal ocorrer retorna a questão.

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    1. “Se (se, se, se) o deísmo for falso, e Deus quisesse operar um milagre assim, qual o problema em considerar a possibilidade lógica disso ocorrer?”

      R.: Se Deus existir, ele pode operar milagres tais como um nascimento virginal. Mas quando estudamos um texto, um evento social, Deus está fora da equação, porque caso contrário, tudo será resolvido com aquele velho deus-das-lacunas. Tudo fica fácil com Deus no meio, porque ele pode tudo, inclusive, uma vez que ele pode tudo, estes casos modernos de evangélicas dizendo que ficaram grávidas por espírito santo podem ser verdadeiros, seguindo seu ponto de vista.

      O problema do nascimento virginal não é lógica, pelo contrário, a lógica nos ajuda a ver claramente que a doutrina foi uma construção teológica ampla e demorada. Você disse que meu texto é vago, ofereço-lhe então que leia meu livro sobre o assunto, com mais de 600 páginas e citações de mais de 500 livros de erudição, e ao mesmo tempo peço que me mostre seu trabalho, o que você produziu sobre o assunto? Qual foi a extensão do seu trabalho sobre o assunto aqui debatido?

      “contudo, se o mecanicismo for um pressuposto injustificado dos físicos (e muitos apologistas cristãos têm demonstrado que é), na verdade, seria ridículo pensar como um mecanicista, e a porcentagem de um nascimento virginal ocorrer retorna a questão.”

      R.: Em tempos de internet, onde ninguém acha necessário educação formal e acredita que consegue falar de todos os assuntos, política, religião, filosofia, linguística, não me admira exegetas religiosos quererem ditar-nos como devemos enxergar as leis físicas do universo. Eu prefiro os físico, desculpa.

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