segunda-feira, 23 de maio de 2011

DOZE, 12, NÚMERO, PAGÃO, RELIGIÕES

Quando eu pensava nos textos e relatos bíblicos, eu imaginava um canal sobre-humano que colocou diretamente, sem nenhuma outra intervenção, os pensamentos dos respectivos autores bíblicos[1]. Por exemplo, cada versículo e cada detalhe bíblico, número ou preposição, era interpretado por mim como algo proposital e sem qualquer correlação cultural e terrena, achando que as histórias bíblicas eram únicas e inéditas, vindo elas do único deus verdadeiro Yahweh [2].

Logo percebi que estava errado. Hoje iremos abordar um caso simples, mas que tem sua importância dentro do estudo comparativo do cristianismo pagão. Sempre fiquei intrigado com o uso do número 12 na Bíblia e achava que devia ter uma grande importância devido o seu uso repetitivo. Irei alistar abaixo algumas dessas ocorrências bíblicas no AT e NT:


(Gênesis 17:20-21) . . .Ele produzirá certamente doze maiorais, e eu vou fazer dele uma grande nação. No entanto, meu pacto eu estabelecerei com Isaque, que Sara te dará à luz neste tempo designado no ano que vem.”

(Gênesis 35:22) . . .Havia, pois, doze filhos de Jacó. . .”

(Gênesis 49:28) . . .Todos estes são as doze tribos de Israel, e isto é o que o seu pai lhes falou ao abençoá-los. Ele os abençoou, a cada um segundo a sua própria bênção.

(Êxodo 15:27) . . .Depois chegaram a Elim, onde havia doze fontes de água e setenta palmeiras. De modo que foram acampar-se ali junto à água.

(Êxodo 24:4) . . .Concordemente, Moisés assentou por escrito todas as palavras de Yahweh. Levantou-se então de manhã cedo e construiu um altar ao pé do monte, e doze colunas correspondentes às doze tribos de Israel.

(Juízes 19:29) . . .Entrou então na sua casa e tomou o cutelo, e agarrou sua concubina e cortou-a em doze pedaços, conforme os seus ossos, e enviou-a a todo o território de Israel. . .

(1 Reis 4:7) . . .E Salomão tinha doze prepostos sobre todo o Israel, e eles proviam de alimento o rei e os da sua casa. Cabia a cada um prover o alimento por um mês no ano. . .

(1 Reis 10:20) . . .E havia ali doze leões em pé sobre os seis degraus, deste lado e daquele lado. Nenhum outro reino tinha feito um exatamente igual a ele.

(1 Reis 16:23) . . .No trigésimo primeiro ano de Asa, rei de Judá, Onri tornou-se rei sobre Israel por doze anos. . . .

(2 Reis 3:1) . . .Quanto a Jeorão, filho de Acabe, tornou-se rei sobre Israel em Samaria no décimo oitavo ano de Jeosafá, rei de Judá, e continuou a reinar por doze anos. . .

(2 Reis 21:1) . . .Manassés tinha doze anos de idade quando começou a reinar e reinou por cinqüenta e cinco anos em Jerusalém. E o nome de sua mãe era Hefzibá. . .

(Mateus 9:20) 20 E eis que uma mulher, que já por doze anos padecia dum fluxo de sangue, veio por detrás e tocou na orla de sua roupa exterior;

(Mateus 10:2) . . .Os nomes dos doze apóstolos . . .

(Mateus 14:20) . . .doze cestos cheios. . .

(Mateus 19:28) . . .também estareis sentados em doze tronos, julgando as doze tribos de Israel.

(Mateus 26:53) . . .doze legiões de anjos. . .

(Marcos 5:42) . . .E a donzela levantou-se imediatamente e começou a andar, pois tinha doze anos de idade. . . .

(Lucas 2:42) . . .E quando ele atingiu os doze anos de idade. . .

(João 11:9) . . .Não há doze horas de luz no dia? . . .

(Atos 19:6-7) . . .E, quando Paulo pôs as suas mãos sobre eles, veio sobre eles o espírito santo e começaram a falar em línguas e a profetizar. Ao todo havia cerca de doze homens.

(Atos 24:11) . . .não faz mais de doze dias desde que subi para adorar em Jerusalém;

(Apocalipse 12:1) . . .na sua cabeça havia uma coroa de doze estrelas. . .

(Apocalipse 21:12-14) . . .Tinha uma grande e alta muralha, e tinha doze portões, e, junto aos portões, doze anjos, e havia nomes inscritos, os quais são os das doze tribos dos filhos de Israel. Ao leste havia três portões, e ao norte havia três portões, e ao sul havia três portões, e ao oeste havia três portões. A muralha da cidade tinha também doze pedras de alicerce, e sobre elas os doze nomes dos doze apóstolos do Cordeiro.

(Apocalipse 21:21) . . .Também, os doze portões eram doze pérolas; cada um dos portões era de uma só pérola. E a rua larga da cidade era ouro puro, como vidro transparente.

(Apocalipse 22:2) . . .produzindo doze safras de frutos, dando os seus frutos cada mês. E as folhas das árvores [eram] para a cura das nações.

Esses versículos deixam claro que esse número é usado e abusado dentro da teologia judaico-cristã. Achava que essa numerologia era única, pertencia apenas a Bíblia e não podia ser encontrada em nenhum outro lugar, pois isso foi uma revelação divina. O que iremos ver logo abaixo é que esse pensamento está errado. O uso do número 12 pode ser encontrado em várias religiões e civilizações muito antes de Maria trocar as fraudas de Jesus. Mas, antes de iniciarmos uma abordagem das religiões, poderíamos nos perguntar o porquê desse e não de outro número.

Uma das razões era que este número sempre foi bastante útil para contar e dividir as coisas. O número 12 tornou-se um número reverenciado pelos matemáticos e astrônomos. Assim, o céu estava dividido em 12 partes, como foram os meses do ano, refletindo o movimento anual de corpos celestes.

1. MATEMÁTICA

A Wikipédia comenta:


Doze é um número composto, o menor número com exatamente seis divisores, seus divisores apropriados, sendo 1, 2, 3, 4, 6 e 12. Doze é também um número altamente composto, o próximo sendo 24.

Devido sua perfeição matemática, o 12 passou a ser encarado como um número com propriedades mágicas, e assim os místicos misturavam-no com seus mitos e esoterismo, passando a aplicar este número aos deuses e tudo o mais que estivesse relacionado, como a astrologia e seus signos do zodíaco, junto com tantas outras referências religiosas ao número doze.

2. SUMÉRIOS

Na mitologia sumeriana, os seres humanos foram criados por seres superiores chamados de Annunaki. Estes seres seriam residentes do décimo segundo planeta (12) de nosso sistema solar, chamado de Nibiru. O governo sumeriano era composto de doze pessoas. Os babilônios, com seu sistema de numeração de 60 anos, encontraram o número 12 como sendo prático e útil para calendários e horários.

As datas mais antigas de zodíacos preservados datam de 3.000 A.C quando os sumérios na Mesopotâmia desenvolveram seu zodíaco com base em doze corpos celestes que podiam ver, como os planetas. A autora de Science: A Four Thousand Year History, Patricia Fara, diz:


“Os babilônios dividiram o céu em doze partes iguais, uma para cada mês lunar e com o nome de uma constelação de destaque. Traduzidos para o latim, como estes existem, temos os doze signos do zodíaco familiares do horóscopos de jornal, como Áries, Capricórnio e o Touro.” — Fara (2009) p. 13.

Essa idéia foi passada de uma cultura para outra:


“A noção do zodíaco é muito antiga, com raízes nas culturas iniciais da Mesopotâmia. Os 12 primeiros signos do zodíaco nomeados de acordo os deuses dessas culturas. Os gregos adotaram a astrologia dos babilônios, e os romanos, por sua vez, aprovaram a astrologia dos gregos. Esses povos renomearam os signos do zodíaco da Mesopotâmia, em termos de suas próprias mitologias, razão pela qual o zodíaco familiar do Ocidente contemporâneo dá os nomes da mitologia do Mediterrâneo.” — Lewis em Partridge Encyclopedia of New Religions, 2004.

3. EGÍPCIOS

Os egípcios protagonizaram mais amplamente o número 12. Sendo usado para o seu catálogo dos Zodíacos, assim como no mito de Osíris, onde o mesmo possuía 12 discípulos que o seguiam. (Bonwick, Egyptian Belief, p. 175). Hórus, assim como Jesus, sendo um deus solar, tinha 12 ajudantes que também faziam o papel de mensageiros que levavam a mensagem de ressurreição a toda parte do mundo mitologico. No livro de Gerald Massey (Ancient Egypt, the Light of the World) temos as seguintes palavras:


“Pistis Sophia, de acordo com o Livro de Hades, mostra como os doze, como seguidores de Hórus, foram constituídos como companhia, cujos primeiros constituiam em sete, dos quais cinco foram adicionados para formar o grupo de doze.”

O próprio barco de era remado por 12 deuses. E. A. Wallis Budge em Egyptian Heaven and Hell traduz de um texto egípcio:


“O barco [de Afu-Ra] é agora levado por doze deuses.”

Como será visto mais adiante, assim como no budismo, os egípcios também acreditavam em doze fases no outro mundo, o que pode ser visto na imagem abaixo:



Os egípcios representam a raíz que fez brotar toda remificação religiosa no mundo. Não apenas o número doze, mas muitas outras ideologias doutrinárias presentes no cristianismo encontram suas origens no antigo egito; nada de revelação divina!

4. ZOROASTRISMO



No zoroastrismo, assim como nas demais religiões da antiguidade, o número 12 era bastante usado, como, por exemplo, o número das palavras da oração Ashem Vohu. Eles também tinham o zodíaco com 12 partes e estas partes representavam “doze comandantes do lado da luz” — Sagan (1995) p. 58.

5. GREGOS

Os gregos também deram sequência ao zodíaco e ao número 12, juntamente com os doze deuses do Olimpo. Nesse sentido temos a seguinte citação:


“Entre todos os deuses adorados pelos Gregos, as doze deidades que habitavam o Mt. Olimpo, o monte mais elevado da Grécia, formam uma categoria especial. Os deuses do Olimpo eram basicamente Zeus, Hera, Posídon, Atena, Ares, Deméter, Apolo, Ártemis, Hefesto, Afrodite, Hermes e Dioniso. Em certas variações locais, as posições entre os ‘doze’ eram ocupadas por Plutão, Dionísio, Hércules e outros heróis cultuados na localidade.” — Greek Mythology and Religion de Maria Mavromataki (1997)

Também nas obras e literatura grega temos os 12 trabalhos de Hércules, algo parecido com as 12 aventuras de Gilgamesh. – cf. Os Trabalhos de Hércules e Epopéia de Gilgamesh

6. BUDISMO

Assim como o mundo divino tinha 12 seções, nos quais se baseavam a utilidade estelar do número, as religiões também dividiam a própria existência humana mística em 12 partes. O budismo, por exemplo, sustenta que a vida é composta de 12 partes, que juntas, mantém o círculo da vida girando, enlaçando toda a vida em uma samsaric, forma de existência do qual é difícil de escapar.


“O ensino do budismo na existência do samsaric [...] é descrita na Roda do Tornar-se. [...] O aro da roda é dividida em doze segmentos e cenas. Estes mostram como os seres passam de um reino para outro, e são chamadas de nidanas. [...] Essas cenas retratam o ensinamento budista sobre a Origem Dependente: a cadeia causal que assegura a Roda da Samara continuamente girando.” — Buddhism de Clive Erricker (1995)

7. ISLÃ

Por ter herança judaica, os mulçumanos também incorporam o número 12 em muitos de seus dogmas, como as 12 tribos de Israel, sendo também o número da descendência de Muhammad ibn ‘Abdullāh (Maomé). Em uma passagem do Alcorão temos as seguintes palavras:


E (lembrem-se) quando Musa (Moisés) pediu água para o seu povo, e lhe disse: “Bata na pedra com sua vara.” Então começou a jorrar dela doze mananciais. Cada (grupo de) pessoas sabia o seu lugar para a água. “Comer e beber o que Deus deu e não agir de forma corrupta, cometendo erros na terra.” — O Alcorão Sura 2:60. (Destaque meu)

RESUMINDO

Superstições e crenças religiosas foram empilhadas sobre o número 12. Superstições sobre signos do Zodíaco e eventos nas nossas vidas têm sido exaustivamente demonstrados ser falsos. Os zoroastristas antigos tinham doze comandantes no lado da luz, os gregos imaginaram 12 deuses no Monte Olimpo. Mitraitas acreditava que seu salvador tinha 12 discípulos, e os muçulmanos xiitas alistam 12 regras para seguir Maomé, Abraão tinha 12 filhos, Jesus foi ao templo com 12 anos e depois teve 12 discípulos.

Apesar de muitas religiões antigas, como os gnósticos, entendessem o uso desse número, como no caso dos doze discípulos de Mitra, apenas como um símbolo, uma metáfora das etapas do sol minguante ao encerar o ano todo, mais tarde as religiões tomaram isso literalmente e passaram acreditar em 12 discípulos reais, como foi o caso do cristianismo.


Existe muitos outros exemplos dos quais não há espaço nessa postagem, como os doze ‘Jyotirlingas’ (síntese do Deus Shiva) no shavismo hindu (imagem ao lado). Assim, o número 12 estava presente durante séculos nos povos pagãos, mostrando que o uso pelos judeus e depois pelos cristãos o torna apenas mais um plágio cristianizado, sem qualquer revelação ou influência divina. O relato de Jesus e seus Doze fieis escudeiros não passa de um mito herdado e recontado por judeus palestínicos. Nada de revelação divina, tudo de plágio humano.


__________
NOTAS
  1. A Bíblia foi escrita por cerca de 40 homens em um total de 66 livros que juntos formam a Bíblia.
  2. Esse é o nome pessoal do deus de israel, conforme traduzido das letras hebraicas YHWH, também conhecido como Jeová.

REFERÊNCIAS:
  1. Zoroastrian Heritage: Astrology Zoroastrianism
  2. Jesus and the Astrological Zodiac
  3. Mystical Numbers: Islã
  4. Human Religions: Twelve
  5. O Alcorão. Traduzido por N. J. Dawood. Penguin Classics edition publicado por Penguin Group Ltd, London, UK. Primeira publicação em 1956, citação tirada e traduzida na edição de 1999.
  6. Crabtree, Vexen, Mithraism and Early Christianity (2002).
  7. Erricker, Clive, Buddhism (1995). Publicado como parte da série TeachYourself Books.
  8. Fara, Patricia, Science: A Four Thousand Year History (2009). Fara tem PhD História da Ciência na Universidade de Londres. Publicado pela Oxford University Press.
  9. Freke, Timothy & Gandy, Peter, The Jesus Mysteries (1999).
  10. Gilovich, Thomas, How We Know What Isn't So: The Fallibility of Human Reason in Everyday Life (1991). 1993 edição publicada pela The Free Press, NY, USA.
  11. Mavromataki, Maria, Greek Mythology and Religion (1997). Publicada pela Haïtalis, Astrous 13, 13121 Athens, Greece.
  12. Partridge, Christopher, Encyclopedia of New Religions (2004, Ed.). Publicado pela Lion Publishing, Oxford, UK.
  13. Reynolds, Alfred, Jesus Versus Christianity (1993). Originalmente publicado em 1988. Cambridge International Publishers, London UK.
  14. Sagan, Carl, Cosmos (1995). Originalmente publicado em 1981 pela McDonald & Co.

2 comentários:

  1. 12 cavaleiros do rei artur, etc...

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  2. A existência dos doze signos, na cultura ocidental e chinesa, usa doze constelações para marcar uma influência cósmica na Terra. Mas na verdade as constelações são ilusões de ótica e não existem em termos de formar uma unidade, um corpo celeste. Do observador da terra forma imagens imaginárias, e bota imaginárias nisto. No entanto estes grupos de estrelas estão formados por estrelas em planos muito distantes um do outro e estrelas de diferentes graus de grandeza. Estão espalhadas pelo espaço, que só se unem para um observador na terra. Mas não são reais. Mudando o ponto de observação, elas se desfazem pois muda a sua forma. A influência na terra é imaginária apenas. Sua força gravitacional e a energia luminosa delas são desprezíveis e bem menor do que o foco de luz na sala de parto ou a montanha mais próxima. Enquanto o Sol e a lua influenciam a Terra, as marés e o núcleo líquido de ferro derretido do seu centro, estas constelações não influem em nada, muito menos na vida..As constelações são escolhas arbitrárias dos povos e não são iguais ao zodíaco chinês, e muito menos do Maia.

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