domingo, 30 de janeiro de 2011

Mateus e sua Citação de Isaías 9:1-2
por Eduardo Galvão

MATEUS, ISAÍAS, CITAÇÃO
Há algum tempo os críticos do Novo Testamento comentam sobre as citações que os cristãos faziam do Antigo Testamento com o objetivo de criar uma falsa impressão de que Jesus só podia ser o Messias.

Um exemplo nesse respeito é o Evangelho de Mateus. É sabido entre a comunidade erudita que o Evangelho de Mateus tem um forte apelo semítico. Sendo um judeu, ou pelo, SE PASSANDO por um judeu, o escritor repete muito citações como “para se cumprir a Escritura” (Cf. Mt. 1.22; 2.5; 2.15; 2.17; 2.23; 3.3; 4.14; 8.17; 12.17; 13.35; 21.4; 24.15; 27.9;) para mostrar aos seus leitores que Jesus SÓ PODE SER o Messias, uma vez que “tantas profecias se cumpriram nele”.

Todos nós estudamos interpretação de texto desde a tenra idade. Na verdade, sempre que ouvimos alguém, nós estamos, em certo sentido, interpretando suas palavras para que assim as possamos entender.

Caro leitor, gostaria que você mesmo lesse as passagens do Antigo Testamento citadas por “Mateus” para ver que o texto original do Antigo Testamento NADA TEM A VER com Jesus e, muitas vezes, qualquer outro pretenso messias judaico.

A citação que “Mateus” faz de Isaías está em Isaías 9: 1-2, onde lemos:

4:15 A terra de Zebulom, e a terra de Naftali, Junto ao caminho do mar, além do Jordão, A Galiléia das nações; 4:16 O povo, que estava assentado em trevas, Viu uma grande luz; E, aos que estavam assentados na região e sombra da morte, A luz raiou. ”

Agora, prezado leitor(a), perceba não apenas a diferença entre a forma como “Mateus” cita Isaías, assim como realmente é uma citação totalmente fora de contexto do que o profeta queria dizer.

Isaías diz:

9:1 Mas a terra, que foi angustiada, não será entenebrecida; envileceu nos primeiros tempos, a terra de Zebulom, e a terra de Naftali; mas nos últimos tempos a enobreceu junto ao caminho do mar, além do Jordão, na Galiléia das nações. 9:2 O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz.

Vejamos agora um paralelo para compararmos as duas citações:

Mateus 4:15
Isaías 9:1-2
A terra de Zebulom, e a terra de Naftali, Junto ao caminho do mar, além do Jordão, A Galiléia das nações; 4:16  O povo que estava assentado em trevas, Viu uma grande luz; E, aos que estavam assentados na região e sombra da morte, A luz raiou.

9:1  Mas a terra, que foi angustiada, não será entenebrecida; envileceu nos primeiros tempos, a terra de Zebulom, e a terra de Naftali; mas nos últimos tempos a enobreceu junto ao caminho do mar, além do Jordão, na Galiléia das nações.

9:2  O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz.

O que podemos observar ao paragonarmos as duas citações acima, é que Mateus não está fazendo um citação cem por cento fiel ao texto original do Antigo Testamento. Me parece mais um ato de “duni duni ni tê” e depois escolheu ali as palavras que ele achava que seriam mais ou menos relevantes ao seu objetivo.

No entanto, o apologista cristão Norman Geisler comenta:

“Para que haja fidelidade ao texto citado, não é necessário usar exatamente as mesmas palavras. Mateus não distorce o sentido dessa passagem. Ele simplesmente a condensa ou resume. Parafrasear com fidelidade não é distorcer. Não fosse assim, nenhum noticiário, nenhum registro histórico teria fidelidade, já que todos eles resumem o que aconteceu; isso é essencial no registro de fatos históricos.” (Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e “Contradições” da Bíblia de Norman Geisler e Thomas Howe)

Apesar de concordar em parte com a afirmação acima, devemos levar em consideração que, se você estivesse tentando convencer os judeus, que conheciam a Lei muito bem, de que seu messias predileto era o verdadeiro Messias há tão esperado, acredito que ao fazer referência e citação das profecias do Antigo Testamento, você seria bem mais exato, principalmente porque você está escrevendo uma obra literária para provar uma teoria sua. Assim, citações diretas e literais seriam mais bem vindas.

Se estivesse querendo convencer alguém de que Cristo era o messias judeu por meio de uma CONVERSA, então, fazer um resumo, parafrasear, seria bem aceitável.

Mas, ao passo que você escreve uma OBRA literária, tendo assim tempo para sentar e pesquisar, como no caso de “Lucas” (1:3) quando escreveu seu Evangelho, seria bem mais típico da meticulosidade judaica, fazer uma citação mais fiel ao texto do Antigo Testamento.

Essa é apenas um pequenino exemplo de muitos outros exemplos mais interessantes que iremos abordar aqui e ver que as citações neotestamentárias feitas pelos cristãos eram totalmente descuidadas, mal-feitas, isoladas e fora de contexto. E mesmo se levassemos em consideração esses textos como inspirados, a própria identificação de Jesus como o messias seria algo a se questionar devido a má citação dos cristãos dos textos do Antigo Testamento

5 comentários:

  1. Esse post é o legítimo "coar um mosquito e engolir um camelo".
    Na tentativa de desacreditar o escritor do Evangelho o autor se detém em detalhes. E incrível: vira de repente um escriba da Lei que exige fidedignidade do texto (que ele mesmo desconsidera) e não encherga a mensagem.
    Foi assim que os judeus mataram a Jesus: não ouviram a mensagem e ficaram olhando para Lei.
    Que pena. Mas não consegue negar que Jesus viveu na região mencionada e realmente mudou a vida daquelas pessoas. Portanto a profecia se cumpriu, quer queira, quer não.

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  2. Seu comentário é o legítimo "sou cego e quero continuar sendo cego". A mentira e a ilusão são eliminadas ao analisar os detalhes, mas para aqueles que DESEJAM crer, os detalhes não importam, o que importa é que essa postagem não era o que você QUERIA OUVIR. Eu sou um questionador honesto e por isso disse que Jesus viveu na região mencionada e que mudou a vida daquelas pessoas... e você é um crente honesto para reconhecer que o escritor do Evangelho moldou a profecia para se enquandrar no personagem Jesus? Jesus não morreu por causa de nenhuma profecia, ele morreu porque pregava algo contrário ao sistema em que vivia... no entanto, todo seguidor de um Messias vê na morte de seu líder significados espirituais e com a morte de Jesus não foi diferente. Aproveito para lhe convidar a ler os outros artigos e colocar seus comentários para que outros leitores vejam como funciona a mente de um cristão quando fica sem argumentos.

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  3. Cara, seu post foi muito interessante e sua indagação é bem sincera.
    Mas acho que o grande X da questão não está no "encurtar" uma citação, e sim na existência do sensus plenior. Será que um texto só aponta para um significado? Acredito que devemos tentar achar o contexto, como também acredito que nunca será possível saber o que o autor queria dizer, pois somente o autor pode saber (e estes já morreram). As nossas buscas exegéticas também são hermenêuticas e sempre colocamos uma porção de "nós" nas interpretações.
    Será que não é possível para um texto ter um sentido profético, mesmo contendo um contexto direto? Gostaria de ler algo seu a respeito do sensus plenior. Até porque, dentro do Primeiro Testamento há interpretações de profecias que também tinham contexto imediato. Inclusive vale lembrar do livro de Daniel, onde o conteúdo dizia ser de uma data e na verdade foi escrito em outra. Foi usado como "fonte de fé" para o povo que estava sendo perseguido pelo Antíoco IV, Epifanes. A figura do Epifanes foi representada pelo Nabucodonozor. Mediante a este fato, foi o encorajamento inválido? E quando descobrimos isso, também se tornam inválidos para nós? Ou há também neste caso uma possibilidade para o sensus plenior?

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    Respostas
    1. Olá Israel,

      É um prazer tê-lo no blog. Minha professora de literatura dizia que no doutorado dela na UFRN o que os professores mais diziam era que para saber 100% o que o escritor queria dizer teríamos que chamar Chico Xavier e agora nem isso, porque ele morreu. Sobre o sensus plenior é algo que entra no campo da fé... de achar que Deus tinha um sentido mais profundo no texto, você não pode usar isso de forma científica. A verdade é que tudo é mera interpretação humana... o ser humano é criativo de mais para encontrar 300 interpretações para o mesmo texto.

      Mas, se estamos argumentando no campo sobrenatural, aqui vai uma: O mesmo Deus que é Todo-Poderoso e Onisciente para inspirar homens à escrever profecias também poderia ter inspirado os escritores do NT a citar essas profecias com 100% de exatidão, principalmente levando em conta que nos últimos dias as pessoas prestaria mais atenção ao texto bíblico. Se Jesus fez milagres para provar que era o Messias é porque era importante para Ele dar evidências para o que estava pregando e o mesmo poderia ter ocorrido com as profecias... essa é apenas uma de tantas outras que não são exatas. Veja a postagem "Virgem" ou "Jovem"? que analisa uma profecia de Isaías.

      Vejo tudo como puramente humano, humanos escreveram supostas profecias que para eles significavam uma coisa, depois de séculos aparece uma seita judaica querendo mudar todos os estatutos da religião judaica, faz uma interpretação toda nova da Lei e como evidência e justificativa para essa novidade de interpretação, eles alegam que Deus está usando o sensus plenior.

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  4. O essencial do Novo Testamento é mostrar um novo relacionamento entre Deus e os homens. No Antigo Testamento, tratava com os judeus, no Novo trata com a Humanidade.
    Considerando que Deus está na direção e controle, o que está escrito como base de fé. Os judeus escolheram seu caminho, assim como cada um o faz em cada dia!
    Melhor ocupar o tempo pregando e divulgando que Jesus é o Salvador do que ocupa-lo com dúvidas.
    Maranata!

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